Vítimas da pólio nos anos 60 fazem um apelo: vacinem seus filhos

Gesto simples neste sábado, último Dia D, é suficiente para evitar sofrimento por toda a vida
terça-feira, 25 de setembro de 2018
por Adriana Oliveira (aoliveira@avozdaserra.com.br)

Quase seis décadas depois, o pesadelo da paralisia infantil volta a assombrar. Uma das doenças mais temidas do século passado, quando vitimou centenas de milhares de crianças em todo o mundo, a poliomielite só foi controlada no Brasil em 1990, após a introdução de vacinas eficazes nas décadas de 50 e 60. E, meio século depois, volta a precisar da adesão maciça da população a campanhas como o Dia D deste sábado, 22, crucial para manter a cobertura vacinal a níveis seguros para evitar o retorno da pólio, pelo menos no Brasil.

A adesão, no entanto, continua muito baixa. No último Dia D, sábado passado, 15, ao longo de oito horas, apenas 63 crianças foram levadas aos cinco postos de saúde da cidade, que ficaram praticamente às moscas. Como resultado, a cobertura vacinal em Nova Friburgo segue em menos de 80% do público-alvo de 8.481 crianças de 1 a 4 anos. A meta é chegar a 95%. Hoje, o Dia D será em apenas dois locais: posto de saúde Sylvio Henrique Braune, no Suspiro e Terra Nova - das 9h às 16h.

Na tentativa de convencer os pais a vacinarem seus filhos, A VOZ DA SERRA localizou duas vítimas de paralisia infantil provocada pela pólio em Friburgo no início dos anos 60. Ambos de Lumiar, Rosimeri Regly, de 56 anos, e Dirceu Aluizio Spitz, de 55, aprenderam a conviver com as sequelas, as limitações e os desafios diários impostos pela doença, contraída quando eram bebês. Atualmente vivendo em cidades diferentes - ela em Cabo Frio, ele ainda em Friburgo - os dois se unem num mesmo apelo aos pais de hoje, que desconhecem por completo a gravidade da situação. “Vacinem suas crianças para evitar sofrimento por toda a vida, para elas e para as famílias”, é o recado. Vamos às suas histórias.

Rosimeri Regly: “A pólio é uma dor muito grande para os pais, principalmente”

Aposentada conta como superou 12 cirurgias e a tristeza de trocar a infância em casa pelo hospital

Estranho seria não gostar do All Star azul adaptado com que Rosimeri Regly percorre, com o auxílio da inseparável bengala, os recantos do sítio Tudo de Bom, em Vargem Alta. Em paz com a vida, olhos sempre brilhantes, Rose conta que contraiu a poliomielite com 1 ano e 4 meses de idade, em Lumiar, onde nasceu. A doença foi diagnosticada depois que sua mãe viu a caçula dos oito filhos cair ao ser tirada do berço e nunca mais voltar a dar os primeiros passos.

Aos 7 anos, seu pai morreu sem conseguir realizar um sonho: vê-la andar. Então começaram as cirurgias, todas realizadas no Rio, única opção disponível na época. Dos 7 até os 15 anos, foram 12 cirurgias, além de  incontáveis sessões de fisioterapia para corrigir problemas provocados pela atrofia irreversível da perna direita. “O objetivo era, pelo menos, conseguir andar”, relembra.

A mãe deixava os outros sete filhos em Lumiar, todos pequenos, para levar Rose para o Rio, sempre contando com a ajuda e boa vontade de amigos e vizinhos. “Minha família teve muitas dificuldades comigo. Mais do que a gente, quem sofre são os nossos pais, que cuidam da gente”, diz, com gratidão.

O que mais a deixava triste era não poder brincar e, em vez disso, ir para o hospital, onde ficava por longos períodos. “Minha mãe tinha que me deixar lá, virar as costas, ir embora e me deixar chorando. Tudo isso sempre querendo o melhor para mim”, conta. Ela ficava três meses no hospital, três meses em casa. Depois voltava. Uma vez chegou a ficar oito meses internada após uma cirurgia. “Passei lá meu aniversário (23 de junho), Páscoa, Dia das Crianças. Não podia nem me virar. Foi a pior fase. Eu tinha 11 anos”, lembra.

Aos 17, começou a trabalhar no setor administrativo da Fábrica de Filó, onde se aposentou após 31 anos. Hoje leva uma vida normal, apesar das limitações. Para ela, as mães de agora não têm ideia do que é a doença, não convivem com pessoas que já tiveram. “Conquistei várias coisas, trabalho, cultivo minhas flores, dirijo. Mas hoje sinto mais o meu problema do que antigamente. Tenho mais dores, sinto mais frio”, diz.

Rose lamenta profundamente o descaso dos pais de hoje com a campanha de vacinação contra a pólio e o sarampo. “Tem que vacinar. A criança com paralisia quando crescer vai ter dificuldade para tudo: trabalhar, andar, viver. Dificuldade de diversão, de aceitação, vai sofrer preconceito. A pólio é uma dor muito grande para os pais, principalmente”, alerta.

Aluizio Spitz: “Eu sinto na minha alma o que é essa doença, a dificuldade que a gente enfrenta”

Auxiliar administrativo da Câmara relembra momentos difíceis e como conseguiu vencer os preconceitos

O cabelo louro e liso, com franja, ainda lembra o jovem que, apoiado numa vassoura improvisada como muleta, defendia o gol no campinho de Lumiar. Era meados dos anos 70 e Dirceu Aluizio Spitz assim driblava a paralisia que incapacitou sua perna direita logo após começar a dar os primeiros passos.

Auxiliar administrativo da Câmara dos Vereadores, onde trabalha há 34 anos, hoje responsável pelo setor de Protocolo, Aluizio lembra  que - diferentemente de hoje - a vacinação era muito precária naquela época. No seu caso, por uma fatalidade, as ampolas foram trocadas, e assim ele acabou contraindo a poliomielite, dias depois de seu primeiro aniversário.

“Minha infância foi muito difícil. Sentia vontade de brincar, via outras crianças jogando bola, subindo em árvores, correndo, e eu não podia nem andar. Era levado no colo, para lá e para cá”, relembra.

O tratamento ortopédico, no Rio, era ainda mais difícil. “A cada ida, eu tinha que ficar internado seis meses, sem ver meus pais”. Dos 6 aos 12 anos, Aluizio fez 14 cirurgias na perna direita. E, ainda assim, com poucas chances de voltar a andar.

Mas driblar as dificuldades e agarrar as chances como se fossem bolas de futebol era com ele mesmo. Apaixonado por carros, aprendeu a dirigir no colo do pai. E dispensa automóveis adaptados para deficientes até hoje: prefere o câmbio manual. Com as muletas, ainda na adolescência, vieram junto a liberdade: eram suas asas.

Com 16 anos, veio estudar em Friburgo, no Jamil El-Jaick. Era o único de muletas, despertava atenção. Sentia-se diferente, alvo de curiosidade. Naquela época, não havia acessibilidade. Subia as escadas como todo mundo. Bom aluno, passou a ser admirado. Numa olimpíada da escola, foi escolhido para ser o juiz do jogo de vôlei. Chegava a hora de trocar a vergonha pelo orgulho.

Mas as limitações nunca deixaram de acompanhá-lo. Uma vez, quase morreu ao cair num rio: conseguiu se salvar nadando apenas com os braços.  “Ainda hoje, não posso fazer uma caminhada mais longa, subir muitos lances de escada. Tenho tendinite nos dois braços, que são as minhas pernas”, conta.

Casado e pai de uma garotinha de 7 anos, Aluizio se entristece com o pouco caso dos pais de hoje e o desinteresse de proteger seus filhos através de um simples gesto como a vacinação. “A gente vê a facilidade, todos os postos, as campanhas… Levem seus filhos, é muito importante para as crianças. A vacina é de graça, não custa nada. Se vocês amam seus filhos, levem aos postos de saúde. A paralisia não tem cura, é uma marca para o resto da vida.  Eu sinto na minha alma o que é essa doença, a dificuldade que a gente enfrenta”, diz.

Sarampo também é grave: pode matar, explica médica

Não importa o que digam os pediatras: orientação do Ministério da Saúde é vacinar

Assim como a poliomielite pode provocar a temida paralisia infantil, a médica pediatra Renata Salgado explica que o sarampo também pode causar muitas complicações, como pneumonia, otite, cegueira e encefalite, que pode levar à morte. “É uma doença extremamente grave, extremamente contagiosa”, afirma.

Fabíola Braz Penna, subsecretária  de Vigilância em Saúde, diz que tem recebido das unidades de saúde relatos de pessoas dizendo que os próprios pediatras afirmam que quem já está com a vacinação em dia não precisaria tomar outra dose. Mas a orientação do Ministério da Saúde não é essa, lembra ela, frisando que todas as crianças de 1 a 4 anos têm que ser vacinadas, independentemente de já terem sido ou não. “O objetivo da campanha é completar o esquema de vacinação de quem não tomou todas as doses e dar uma dose de reforço para quem já se vacinou completamente (ou seja, tomou todas as doses necessárias à proteção)”, explicou.

Segundo ela, crianças de 1 a 4 anos são as mais vulneráveis. “De quatro em quatro anos o ministério faz a vacinação indiscriminada para a poliomielite e este ano incluiu a vacina contra o sarampo devido à reintrodução do vírus no Brasil”, explica a subsecretária.

Fora do período da campanha, que termina neste sábado, todas as pessoas até 49 anos de idade podem se vacinar. Mas, para esse público, deve ser considerado o histórico vacinal: duas doses comprovadas até os 29 anos e pelo menos uma dos 30 aos 49.

Em entrevista para A VOZ DA SERRA no fim de agosto, a coordenadora de Imunização da Secretaria municipal de Saúde, Ana Paula Lessa, explicou que a campanha contra o sarampo já estava prevista para evitar a reintrodução do vírus no Brasil, vindo da Europa, mas a doença acabou chegando antes. Com a baixa cobertura vacinal, a população inteira fica vulnerável. Já a campanha anual contra a pólio é importante para o Brasil continuar sem casos, já que o vírus ainda circula em vários países e hoje as pessoas viajam muito.

Segundo ela, se Friburgo conseguir uma cobertura vacinal alta, a doença não entra: é criada uma barreira. A meta é alta porque os 95% vacinados protegem os 5% que não podem tomar a vacina. Ana Paula lembrou ainda que vacinar é uma obrigação dos pais e um direito da criança. “O descaso é alto porque os adultos não conhecem mais essas doenças, como são sofridas, as sequelas que deixam. Nossos avós conhecem a poliomielite. Os pais das crianças de hoje não. Sarampo mata, houve óbitos de crianças no Brasil fora da faixa etária alvo (1 a 4 anos): são aqueles 5% que os 95% deveriam proteger”, afirmou.

 

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