Vida de Sertanejo

“O sertanejo é, antes de tudo, um forte”. (Euclides da Cunha, em Os Sertões)
sábado, 04 de maio de 2019
por Jornal A Voz da Serra
(Foto: Dal Marcondes)
(Foto: Dal Marcondes)

O sertanejo é uma figura típica do Nordeste brasileiro, resultante do contato entre a população branca e os indígenas, que deu origem a uma população mestiça. Geograficamente, é definido pelo território norte de Minas Gerais e as zonas do interior da região do Nordeste, que compreende os estados da Bahia, Piauí, Pernambuco, Paraíba e Ceará.

A palavra sertão deriva do termo "desertão" usada pelos portugueses, que ao penetrarem o interior do país, sentiram o clima seco e a aridez da paisagem. O Nordeste, uma região semi-árida onde os problemas de sobrevivência são muitos é também uma região com uma estrutura agrária rígida.

O povoamento do interior do Brasil teve lugar entre os séculos XVI e XVII, seguindo o curso do rio São Francisco. A cultura da cana-de-açúcar fazia-se nas terras do litoral, mas por determinação do governo, o gado não podia ser criado lá. Assim, os criadores de gado entraram pelo sertão e estabeleceram-se nas margens do rio São Francisco. Ao se estabelecerem no interior, os donos dos currais, deixavam o gado solto e não respeitavam os direitos dos indígenas que ali viviam. Por sua vez, os indígenas caçavam o gado solto nas pastagens o que dava origem a conflitos frequentes.

Quando os holandeses ocuparam o Nordeste (1630-1654), as tribos de índios dividiram-se. Os Potiguaras deram apoio aos portugueses e os Janduí aos holandeses. Estes últimos aliaram-se a outras tribos, que viam as suas terras tomadas pelos portugueses, e formaram a Confederação dos Cariri. Os conflitos se tornaram cada vez mais frequentes.

A vida das populações nesta região semi-árida nunca foi fácil. As condições eram adversas, com secas periódicas, vegetação escassa e desigualdades sociais profundas. De um lado, os grandes proprietários com as suas terras e cabeças de gado apoiados numa estrutura social e política sólida e, por outro, os sertanejos, no limiar da sobrevivência, que ganhavam a vida cuidando do gado, curtindo o couro e preparando o charque (carne seca).

A fome tornou-se crônica e as revoltas sociais eram frequentes já no século XIX e começo do século XX. É desta população que partem os movimentos populares como o que deu origem à Guerra dos Canudos, de Antonio Conselheiro. O sertanejo tem um estilo de vida imortalizado na poesia e na prosa brasileira, mas é a sua música com os seus instrumentos rudimentares e ritmados que acabou por torná-los populares.

Traços caricaturais

Depois do período extrativista, o Brasil passou a ser um país essencialmente agrário. Essa situação, porém, inverteu-se principalmente depois do ciclo do café, quando as indústrias começaram a se instalar no Sudeste, formando regiões metropolitanas. Então, o êxodo rural se intensificou, e a figura do sertanejo, ou caipira, ganhou traços caricaturais.

Para o habitante da cidade, a pessoa que vive no sertão, é geralmente, rude, inculta e avessa à vida moderna. Essa imagem tomou força com o personagem – Jeca Tatu – descrito no conto Urupês, de Monteiro Lobato. O Jeca Tatu e o caboclo do Vale do Paraíba, “de barba rala, que vive descalço, com os pés cheios de bichos; fuma cigarros de palha e usa chapéu também de palha…”.

Essa figura do sertanejo gerou obras no cinema e na literatura, e sua caricatura passou a ser utilizada em anedotas e mesmo nas histórias infantis, como o personagem Chico Bento, criado pelo cartunista Maurício de Sousa.

Há alguns anos, porém, esse estereótipo tem sofrido uma inversão de valores. Se antes, o sertanejo era exatamente a figura descrita por Monteiro Lobato, atualmente a figura do caipira tem sido valorizada. Pode-se observar esse fenômeno no sucesso conseguido pelos cantores de música sertaneja, que cantam as belezas da zona rural e da vida na fazenda. Embora os mais modernos tenham deixado de lado os temas da vida na roça, para se dedicar às baladas de amor.

 

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