Um fantasma que parece não assustar: a lição de 2011 ainda não foi aprendida

Grande quantidade de lixo descartada nas ruas, de forma irregular, mostra que cidade não aprendeu com tragédias do passado
sábado, 27 de abril de 2019
por Guilherme Alt (guilherme@avozdaserra.com.br)
Grande quantidade de lixo descartada nas ruas, de forma irregular, mostra que cidade não aprendeu com tragédias do passado

Já se passaram oito anos desde a maior tragédia climática da história do país, que infelizmente aconteceu bem aqui, debaixo dos nossos narizes. Muitos desses, soterrados e sendo salvos pelos bravos guerreiros que se doavam minuto a minuto para salvar vidas.

É um tremendo desrespeito com a força-tarefa daqueles dias terríveis, de incerteza, de luto, de lama, de dor, de tragédia, que anos depois o comportamento de muitos friburguenses não tenha mudado em nada. Isso só mostra o pior. Se nem uma tragédia que acabou com mais de 400 vidas e tirou milhares de pessoas de suas casas foi capaz de melhorar o comportamento de muitas pessoas, temos muito a temer.

Andando pelos bairros da cidade, de Norte a Sul, o que vimos, assustam. As imagens não chegam a surpreender, mas decepcionam. Cônego, Cascatinha, Olaria, Bela Vista, Vale dos Pinheiros, Centro, Braunes, Amparo, Varginha, Catarcione, Conselheiro Paulino, Solares 1 e 2, são os locais visitados por nossa equipe de reportagem.

Cônego/Cascatinha/Olaria

O serviço de jardinagem realizado em uma das residências foi praticamente todo despejado em cima dessa calçada, atrapalhando o ir e vir dos pedestres na via principal que liga Cônego ao Cascatinha, em que calçada é luxo.

Ainda na Rua D. João VI, alguns moradores improvisaram um lixão. Ali tem de tudo: computador, televisão, armário, entulho de obra, comida, entre outros. É um ponto em que o caminhão de lixo não para e não é culpa dos agentes de limpeza. Ali é impróprio para o descarte de lixo.

Em Olaria, uma prosa sem poesia, um céu sem sol, um tronco sem árvore, um lixo sem lixeira. Um flagrante de uma imagem que poderia representar bem o que é essa verdadeira guerra da natureza contra o homem. Captada pelas lentes sensíveis de nosso fotógrafo Henrique Pinheiro, a imagem mostra a derrota iminente da natureza diante de nossos esforços em não preservá-la. Um saco de lixo em cima do tronco de uma árvore decapitada em sua base.

Varginha

Moradores do bairro Varginha passam com frequência por situações difíceis. Ora são os buracos que, em determinados pontos tiveram suas bordas pintadas pelos moradores tamanha a revolta pelo tempo que eles ficaram expostos, ora com a falta de capina com o mato invadindo pistas. A bola da vez, mas não tão da vez assim, já que o problema é de longa data, é o lixo, ou melhor, a falta de lixeiras adequadas para acondicionar os descartes até a coleta. Por ser uma região residencial e a maior parte dos moradores trabalharem fora de casa, não há tempo hábil para que o lixo seja colocado nas lixeiras ou até mesmo nas calçadas, a tempo do caminhão recolher, já que as pessoas saem cedo de casa e a coleta é feita somente à tarde.

Quem trabalha fora tem que colocar o lixo para fora de casa pela manhã. A ação acaba trazendo consequências desastrosas. Cachorros e cavalos soltos nas ruas acabam revirando os sacos de lixo. Muitos são rasgados e os dejetos espalhados pelas ruas e calçadas provocando mau cheiro, além de atrair ratos, baratas e moscas.

Para melhorar a situação do bairro quanto ao lixo, alguns moradores sugerem que a Empresa Brasileira de Meio Ambiente (EBMA), responsável pela coleta do lixo doméstico disponibilize compartimentos maiores para que o descarte não tenha que ser feito nas calçadas.

Bom exemplo

Em Varginha, nem tudo é lixo. Há esperança, pelas mãos de José da Costa. Enquanto constatávamos o descarte irregular de lixo, encontramos uma área muito bonita, bem decorada, com banquinhos, feitos de materiais encontrados no lixo, como latas de tinta, ripas de madeira, azulejo e concreto.

“Sempre procuramos deixar esse espaço o mais bonito possível. Isso pode ser confundido com ponto de ônibus, mas não é. É um espaço para a pessoa sentar, poder apreciar a vista. Minha esposa sempre deixa isso bem cuidado, bem limpo. Pena que esse trabalho não inspirou outros moradores a fazerem o mesmo”.

Para fechar a reportagem com “chave de ouro”, enquanto estávamos gravando e fotografando, o funcionário de uma obra exatamente em frente a um dos pontos de acúmulo de lixo, esperou calmamente nossa equipe encerrar o trabalho para, logo após nossa saída, jogar entulhos de obra no meio do mato.

Vale dos Pinheiros

Assim como nos bairros do Cônego, Olaria, Varginha e por onde mais nossa equipe passou, “martelando” todas essas denúncias, no Vale dos Pinheiros, várias placas de proibido jogar lixo nas ruas estão espalhadas. São pontos já conhecidos de descarte.

Como um cachorro que precisa ser adestrado, o Homem precisa de placas para lhe ensinar o óbvio: não jogar lixo na rua, não jogar no meio do mato, contratar um serviço especializado para recolher os materiais de obras, jardinagem e lixo doméstico.

Uma moradora que passava pela localidade em que estávamos e que não quis se identificar, nos disse que acabara de flagrar um homem despejando lixo na encosta da subida para a Granja Spinelli. Ela se disse cansada de ver outros moradores da região fazendo obras e manutenção nas casas e jogando os restos no meio da rua, na mata e até em terrenos de casas vizinhas. “Uma total falta de civilidade e de respeito ao próximo”, comentou, indignada.

Quem precisar utilizar um serviço para recolhimento de entulho, lixo de jardinagem, móveis, entre outros, mas não tiver condições de pagar o serviço, pode fazer um pedido às secretarias de Assistência Social e de Serviços Públicos.

Para uma população que viu o terror de janeiro de 2011, encontrar um simples papel de bala no chão, é inadmissível.

Prefeitura

A Prefeitura de Nova Friburgo informa que as lixeiras tipo containers foram colocadas no Centro do Município pela Empresa Brasileira de Meio Ambiente - EBMA e a expectativa é que esse mesmo tipo de equipamento seja colocado também em outros bairros. Por enquanto, não há data definida.

A empresa também forneceu, recentemente, 50 lixeiras de poste para a municipalidade, conforme rege o contrato de concessão para execução do serviço de coleta de lixo na cidade. As unidades foram colocadas no Centro. A expectativa é receber outras novas unidades para atender outras localidades, em breve.

 

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  • Olaria

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  • Cônego

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  • Varginha

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  • Em Varginha, há também um bom exemplo: essa área foi feita com aproveitamento de materiais encontrados no lixo

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  • Vale dos Pinheiros

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