Teresópolis: contraste entre luxo e realidade

Luxo da Granja Comary conflita com as necessidades de Teresópolis
quarta-feira, 04 de junho de 2014
por Vinicius Gastin, direto de Teresópolis
Teresópolis: contraste entre luxo e realidade
Teresópolis: contraste entre luxo e realidade

Assim como Nova Friburgo, a cidade de Teresópolis ainda luta para cicatrizar as feridas provocadas pela tragédia de 2011. Os locais mais atingidos pelo desastre natural, quase todos afastados do Centro, ainda reproduzem uma realidade conflitante com o luxo e conforto oferecidos à Seleção Brasileira na Granja Comary. O contraste provoca a insatisfação de boa parte dos moradores, especialmente os menos favorecidos, que alimentavam alguma esperança com a presença do time de Felipão no município cinco anos depois.

"Alguns investimentos aconteceram, mas esperávamos muito mais. A população ainda está sofrendo e as pessoas que dependem do transporte público, saneamento básico e outras necessidades estão esquecidas”, reclama Mário Andrade, aposentado de 67 anos.

Teresópolis prevê receber até 100 mil pessoas durante a Copa. A expectativa criada pelo setor turístico e hoteleiro do município — que deve ter 100% de ocupação dos 4.700 leitos em 58 hotéis e pousadas — vai de encontro com a preocupação de moradores por possíveis agravamentos de problemas. Os engarrafamentos no Centro fazem parte da rotina de uma população que observou poucas melhorias desde a tragédia de 2011.

 

 

Enquanto a Seleção recebeu todo o aparato de segurança durante o trajeto e está hospedada num condomínio de classe média alta, os visitantes que desejam acompanhar o time de Felipão e os moradores dependentes do transporte público enfrentam uma realidade completamente oposta. Inaugurado em 1971, o Terminal Rodoviário Dedo de Deus, no Centro, recebeu apenas uma reforma de adaptação, em 1995. O edifício principal está com péssima aparência e a manutenção do local tornou-se cada vez mais rara nos últimos anos, segundo os usuários. O cenário político, conturbado nos últimos anos, não ajuda. Atual prefeito, Arlei Rosa pode perder o mandato por causa de uma acusação de abuso de poder econômico e de meios de comunicação na campanha de 2012. 

"Esperávamos que a Copa fosse a oportunidade para a reforma. Infelizmente não aconteceu, e lamentamos por isso. Esse tipo de evento deveria ser um chamariz para as melhorias”, lamenta o auxiliar de serviços gerais Luiz Cláudio Pereira, 47, morador do bairro Posse.

Algumas obras foram feitas para receber a Seleção, a maioria delas na parte central da cidade. As praças Olímpica, no Centro, e Senta Pua, no Soberbo, passaram por reformas, e a Avenida Delfim Moreira ganhou retoques no asfalto. As praças Higino da Silveira (Alto), Maria Corina Paim (Barra), Balthasar da Silveira (Várzea), dos Expedicionários (São Pedro) e a Calçada da Fama (Várzea) receberam a internet wi-fi com 50 megabites, permitindo que 200 pessoas, ao mesmo tempo, possam usufruir da tecnologia sem problemas de tráfego ou de sinal. As ruas mais movimentadas do município passaram a contar com o serviço de monitoramento, pelo menos durante o período do mundial.

A casa da Seleção Brasileira durante as preparações para os amistosos e torneios é conhecida não apenas pela Granja Comary, mas por alguns outros pontos turísticos. Dentre os principais estão o Dedo de Deus, o Parque Nacional da Serra dos Órgãos e a Feira de Artesanato (Feirarte). Há 16 anos, a friburguense Roseni Bitencourt expõe os produtos de moda íntima que confecciona em casa. A empresária de 57 anos deixou Nova Friburgo — onde vendia as peças na feira do Suspiro — e escolheu Teresópolis como nova casa.

"O meu filho morava em Teresópolis e descia diariamente para o Rio de Janeiro, onde estudava. A minha outra filha foi morar em Niterói. Eu preferi a cidade por ser parecida com Friburgo. Conseguimos uma barraca, mas eu já participava, de certa forma, por fazer uma feira no Rio de Janeiro e voltar para a cidade diariamente.”

A Feira, localizada na Praça Higino da Silveira, no Bairro do Alto (a cinco minutos da Granja Comary), existe desde 1983 — foi regularizada pela Prefeitura em 1985 — e reúne artesãos dos mais variados ramos artísticos nas pouco mais de 700 barracas. A variedade inclui peças de vestuário, alimentação e artesanato. Produtos como móveis e utilidades de bambu, palha, madeira e couro, bijuterias e semijoias, alimentos artesanais (pães, bolos, chocolates, licores, doces e salgados), comidas típicas de vários estados brasileiros e roupas fabricadas em pequenas confecções são encontrados a cada corredor da feira.

Alguns empresários compram para revender nas lojas. Considerada a maior do estado do Rio de Janeiro, gera mais de três mil empregos diretos e indiretos, e atende aos sábados, domingos e feriados. Desde a inauguração, a feira resiste aos investimentos escassos e às poucas melhorias em sua estrutura. "Precisávamos de uma estrutura melhor, pois muita gente vive dela. Falta divulgação, mais organização e que seja apresentável”, reclama Roseni.

De acordo com os feirantes, uma associação foi criada para tentar organizar o espaço e realizar novos investimentos para torná-lo ainda mais atrativo. Os responsáveis recolhiam R$ 5 de cada um dos mais de 800 expositores, mas segundo eles, o dinheiro jamais foi revertido em melhorias. "Nunca mais ouvi falar no trabalho deles. Se existe eu já não participo mais.”

Calcula-se que Teresópolis conte com mais de mil pequenas confecções e facções, e as visitas à Feirarte em um passado não tão distante superavam os cinco mil turistas durante os períodos de férias. No carnaval e semana santa, este número dobrava. "O movimento já foi muito melhor. Eu mantive a minha filha na faculdade e ajudei ao meu filho com o dinheiro da feira. Acho que a situação financeira interfere, mas a feirinha precisa se reestruturar. Sentimos falta dos nossos clientes”, reclama a feirante friburguense.

Embora não exista uma previsão específica, a expectativa é de aumento nas vendas durante o período de Copa do Mundo. Os feirantes investiram no aumento da produção, embora nenhuma espécie de divulgação ou promoção tenha sido feita. "Eles até enfeitaram alguma coisa, mas não melhoraram a divulgação. Investimos para essa época de preparação para a Copa do Mundo. Não dá para calcular uma porcentagem porque as vendas variam muito, mas a expectativa é boa.”

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