Supermercado de Friburgo emprega dois refugiados venezuelanos

Milagros e o sobrinho Juan Carlos encontraram anjos da guarda e oportunidade de emprego na cidade
sábado, 22 de junho de 2019
por Ana Borges (ana.borges@avozdaserra.com.br)
Juan Carlos e Milagros na lanchonete do supermercado onde trabalham (Fotos: Henrique Pinheiro)
Juan Carlos e Milagros na lanchonete do supermercado onde trabalham (Fotos: Henrique Pinheiro)

Os venezuelanos Milagros Josefina Montoya Ruiz, 40, e o sobrinho Juan Carlos Montoya, 19, partiram de Ciudad Bolívar, em direção a Santa Elena de Uairén, em abril deste ano, onde chegaram após uma viagem de ônibus que durou 12 horas. Para seguir até Pacaraima, em Roraima (Brasil), atravessaram uma rota alternativa, que significa caminhar mato adentro, já que a fronteira, na época, estava fechada por ordem do governo de Nicolás Maduro.

“Deixar a Venezuela, na condição de refugiado, foi duro”, diz Milagros, com forte sotaque, olhos marejados. Não raro, quando citava situações vividas e as consequências de seu ativismo, não conseguia disfarçar as lágrimas. São visíveis as marcas em seus braços provocadas por querosene jogado contra ela, durante manifestação nas ruas de Caracas.  

“De 2013 em diante, a vida na Venezuela foi ficando cada vez mais difícil, principalmente para quem não apoiava o governo. Eu era funcionária pública, formada em desenho gráfico e professora universitária. Também integrava o Conselho Nacional Eleitoral, onde organizava eleições para definir os candidatos aos governos  municipais e estaduais. Este era um cargo de confiança que acabei perdendo porque as indicações passaram a ser políticas. Fui demitida, fiquei desempregada, sem perspectivas. Meu sobrinho, já seguindo a carreira de bombeiro, também começou a sofrer com a situação de penúria que se alastrava por todo o país. Enfim, a Venezuela onde nasci, cresci e vivi durante 40 anos, estava desaparecendo”.

Ano passado, sua irmã, mãe de Juan Carlos, veio sozinha para o Brasil. Milagros ficou com os três sobrinhos, entre eles Juan, de quem cuida como um filho, alimentando a expectativa de que a irmã conseguisse emprego e se estabelecesse no Rio. Morando em São Gonçalo, a irmã incentivou os dois a virem, mas Milagros não conseguiu trabalho. Alguns amigos tentaram ajudar, mas foi a irmã que lhe conseguiu um trabalho temporário numa pousada em Lumiar. Foi um sopro de esperança, que durou apenas um mês, ao fim do contrato. Mesmo assim, Milagros preferiu ficar em Friburgo.

“Gostei da cidade e não queria voltar pro Rio sem antes tentar arranjar algum trabalho aqui. Por acaso, ou talvez por destino mesmo, andando por aí encontrei uma pessoa que acredito seja meu anjo da guarda. Começamos a conversar, contei minha história e ela - seu nome é Alice Gomes, disse que ia me ajudar. Me acolheu em sua casa, arranjou um emprego pra mim com um amigo empresário, dono de uma rede de supermercados. Não satisfeita, pediu pro meu sobrinho também, que ainda estava com a mãe. Hoje, trabalho na cozinha e o Juan, na lanchonete. E a Alice continua cuidando da gente, nos acolhendo em sua casa. Já fazem três semanas, e nesse pouco tempo ela arrumou emprego para a gente”, revelou Milagros, reiterando seu “eterno agradecimento à generosa amiga brasileña”.  

Êxodo venezuelano

Segundo estudo da agência da ONU, Acnur (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados), divulgado na quarta-feira, 19, a crise na Venezuela impulsionou os números brasileiros, em 2018: mais de 75% dos requerimentos de refúgio ao Brasil foram feitos por venezuelanos, alcançando o número de 80 mil novas solicitações. Ainda de acordo com reportagem também publicada no site do jornal espanhol El País, na última quarta-feira, “os venezuelanos encabeçam a lista mundial de novas petições de asilo. O relatório Tendências Globais (Acnur), estima em 5.000 a média de cidadãos que se veem forçadas a abandonar a Venezuela. O Brasil é sexto país em recepção de novos pedidos de asilo.

Vida nova

Para melhor resumir a situação dos venezuelanos, em relação à sobrevivência, Juan Carlos revela que, em termos de moeda brasileira, um real vale 1.599 bolívares. “O salário mínimo é 40 mil bolívares, que equivale a uns 35 reais por mês. Então, não é difícil concluir que a população venezuelana está passando fome”, enfatiza.   

Ao contrário de sua tia, Juan não conhece outra forma de governo que não seja o de Hugo Chávez. Eleito em 1998, Chávez assumiu em 1999, ano em que ele nasceu, sendo sucedido por Maduro. Sua relação com a terra natal é bem diferente de que teve Milagros, e talvez por isso, ele não pense em voltar. Ele, a mãe e a tia têm documentos brasileiros como residentes temporários, por dois anos, renováveis. Juan não se cansa de repetir, como que tentando exorcizar o que ainda adolescente sentiu no corpo e alma: o desalento.

“Lá, não há comida nos supermercados, não há remédios nas farmácias, não sabemos o que fazer para sobreviver. Não sabemos como será o dia seguinte, para onde vamos, que futuro a Venezuela terá. Então, se aqui consigo trabalhar, estudar, dar um rumo à minha vida, poder mandar algum dinheiro para ajudar parentes que ainda estão lá, não tenho porque voltar. Se o governo brasileiro permitir, vou escolher viver no Brasil”.

Por sua vez, Milagros faz questão de aproveitar a entrevista para expressar seu agradecimento a todos que estão ajudando os seus, em especial a família de Alice. Comovida com a acolhida que tem recebido, reitera:

“Eu quero mandar um abraço sincero aos nossos irmãos brasileiros. Pela oportunidade de poder ficar neste país, de estar trabalhando, de ver meu sobrinho dando os primeiros passos numa nova vida, num lugar como o Brasil, e com a possibilidade de um dia poder reunir toda a nossa família. Se um dia eu quiser, ou puder regressar à Venezuela, há uma canção antiga que resume bem o que sinto”, diz, para em seguida cantarolar, em espanhol, naturalmente, os versos que lhe tocam fundo o coração:

“Levo tua luz e teu aroma na minha pele / … eu carrego no meu sangue a espuma do mar e seu horizonte nos meus olhos / ... / Eu sou como o vento na colheita / Eu sinto o Caribe como uma mulher / ... É deserto, selva, neve e vulcão / E quando eu saio eu deixo uma trilha / ... da planície em uma canção / ... Fogo e esporão com a pele tostada como uma flor / ... Com suas paisagens nos meus sonhos / eu passarei por aqueles mundos de Deus / E suas memórias ao pôr do sol me farão / Eu cortei a estrada mais curta / … / E se um dia eu naufragar ... enterrem meu corpo / Perto do mar / Na Venezuela!

Em tempo: Já finalizando esta matéria, no dia seguinte à entrevista, encontro Alice, uma pessoa discreta, solidária por natureza, que conta a novidade: conseguiu trazer para Friburgo, a mãe de Juan, também com emprego à vista. Não satisfeita, agora tenta viabilizar a vinda dos outros dois irmãos de Juan (um casal) que ainda vivem na Venezuela.

“Sozinha, eu não conseguiria fazer nada por essa família, a não ser dar casa e comida. Eles merecem ter a dignidade que lhes foi tomada, de volta. E isso, só o trabalho pode dar. Por isso, agradeço, do fundo do meu coração, a ajuda dos empresários de Friburgo que não hesitaram em ajudá-los. Obrigada!”

 

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TAGS: refugiados