Sejamos idiotas

Dostoiévski apresentou ao mundo um personagem “positivamente belo, raro sobretudo nos dias de hoje” e ridicularizado por sua natureza gentil
sábado, 17 de novembro de 2018
por Alan Andrade (alan@avozdaserra.com.br)
Sejamos idiotas

Talvez seja a gentileza uma das formas mais puras de expressão do amor pelo outro, em toda a sua simplicidade. Pequenos atos podem trazer alegria para um dia nebuloso – e até mesmo transformar uma vida. Dar “bom dia” e “boa noite” antes de iniciar uma conversa pode parecer muito difícil, ainda mais em meio à pressa cotidiana, e podemos ainda cair no erro de imaginar que o outro tampouco faça questão da cordialidade, mesmo que este gesto permita descortinar ao menos um sorriso no rosto de quem ouve.


Ainda, quantas vezes não “quebramos” a grosseria de uma pessoa com uma resposta sinceramente c​ arinhosa, gentil? Podemos constatar imediatamente o desconcerto daquele que talvez nem tenha sido rude por reflexo de sua natureza, mas apenas por atravessar um dia ruim, como inevitavelmente ocorre com todos nós. Quando você responde uma palavra “atravessada” com gentileza, você tem o poder de mudar o humor desta pessoa, podendo até interferir positivamente no restante de seu dia. No entanto, mais do que sermos um exemplo de “homem cordial”, do qual Sérgio Buarque de Hollanda trata em seu clássico ​Raízes do Brasil​, onde essa cordialidade “pode iludir na aparência”, através de uma espécie de “mímica deliberada de manifestações”, a gentileza nunca deve vir da obrigação no cumprimento de um contrato social, mas do amor.


Na história da humanidade, existem belíssimos exemplos de seres iluminados, que pregavam o amor como a mais íntima manifestação do divino. Jesus Cristo, por exemplo, dizia que “amar ao próximo como a si mesmo” é o maior dos mandamentos; já o S​atyagraha ​(força da verdade) de Mahatma Gandhi consistia na não-violência, mesmo diante da força bruta e opressora dos colonizadores britânicos.


Já no Brasil, José Datrino, conhecido como “Profeta Gentileza”, inscreveu nos muros e pilastras da zona norte do Rio de Janeiro palavras que marcam com simplicidade um conceito inequívoco: “Gentileza gera Gentileza”, uma crítica às nossas relações sociais que inspirou composições de grandes nomes da música popular brasileira, como Marisa Monte (“Gentileza”), Arnaldo Antunes (“Rua da Passagem”) e Gonzaguinha (“Gentileza”), onde este último cantava: “Feito louco | pelas ruas | com sua fé | Gentileza | O Profeta | e as palavras | calmamente | semeando | o amor”. A​ o retratá-lo como “louco”, Gonzaguinha retratava a opinião de uma massa desprovida de compaixão, que não era (e ainda não é) capaz de compreender a manifestação de amor e generosidade em tempos de egocentrismo institucionalizado.


Em ​O Idiota,​ uma das mais célebres obras do gênio russo Fiódor Dostoiévski, a proposta central foi apresentar ao mundo um homem “positivamente belo, raro sobretudo nos dias de hoje”, como o próprio autor descreveu em uma correspondência de 1868. Trata-se do humanista e epiléptico Príncipe Míchkin, indivíduo de incrível pureza, um “paradigma do sacrifício de Cristo”, que acaba sendo ridicularizado em uma sociedade injusta e corrompida, tratado como um verdadeiro idiota por sua natureza gentil, fora dos padrões.


Um século e meio depois, não é raro testemunharmos ações de caridade, generosidade e gentileza sendo menosprezadas por aqueles incapazes de fazê-los. São chamados de “babacas” aqueles que têm a capacidade e a iniciativa de ajudar o próximo pelo simples fato de sentirem compaixão. Ajudar o “outro” é ajudar a si mesmo, não só pela “preservação da humanidade”, como também por uma futura constatação de que todos que nos cercam sejam representações e projeções de nós mesmos.


Existem vários “exercícios” diários que podemos praticar no nosso apressado cotidiano, como cumprimentar as pessoas, pedir licença, se desculpar, ceder a vez na fila ou o assento às pessoas idosas ou com deficiência, respeitar a opinião alheia e nossas diferenças, entre tantas outras ações  construtivas. Atitudes simples, gratuitas e que podem trazer alegria para o dia de alguém que porventura passa por um momento de dor. Talvez tenhamos que frear um pouco nosso ritmo acelerado para prestarmos mais atenção àqueles que dormem sob marquises, quase sempre invisíveis aos nossos olhares tão distantes do ​agora.​
Anos depois de Marisa cantar “Gentileza”, as mensagens pintadas pelo Profeta nos muros e pilastras cariocas foram apagadas, num ato de extrema insensibilidade. No entanto, sua ideia persiste, a gentileza continua gerando gentileza. Jamais podemos deixar que a indiferença e a apatia cubram com uma tinta cinza, sem vida, sem sentido, o mais puro dos sentimentos.

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