Secretaria de Saúde já tem nova titular: a assistente social Emmanuele Marques

Tânia Trilha lamenta falta de apoio do prefeito, que classificou declaração como "infeliz". Paciente envolvido na polêmica foi operado, mas morreu dias depois
quarta-feira, 12 de junho de 2019
por Guilherme Alt (guilherme@avozdaserra.com.br)
Emmanuele Marques é a nova secretária de Saúde (Reprodução da web)
Emmanuele Marques é a nova secretária de Saúde (Reprodução da web)

A Prefeitura de Nova Friburgo informou na noite desta quarta-feira, 12, que Emmanuele Marques é a nova titular da Secretaria Municipal de Saúde. Ela assume a pasta já nesta quinta, 13.

Emmanuele é a quarta secretária da pasta. Ela estava à frente da Secretaria de Assistência Social há exatamente um ano. Além de ser formada em assistência social, Emmanuele tem no currículo certificação de auditora em processos de saúde. À frente da nova pasta, vai atuar "com foco na humanização dos processos do SUS e centralidade no paciente", segundo a prefeitura. 

De acordo com a nota do munic[ipio, à frente da Assistência Social Emmanuele "contribuiu para o fomento de projetos de estímulo à profissionalização através da Acessuas Trabalho, firmando grandes parcerias, reativando o programa de erradicação do trabalho infantil em Nova Friburgo e elevando o município ao título de Gigante da Assistência 2019, sendo o 1º lugar no Estado em Gestão Estratégica e Co financiamento do SUAS".

Por meio de sua gestão, a Prefeitura de Nova Friburgo destaca que aderiu ao Programa Brasil Amigo da Pessoa Idosa, elevando a integralidade no atendimento ao idoso. Firmou parcerias com a sociedade civil para melhorias no atendimento à criança e ao adolescente institucionalizado (ou seja, que foram para a casa de acolhimento). Além disso, ampliou a equipe de abordagem especializada em população de rua. 

Yanes José Martinez assume a subsecretaria de saúde. De 2009 a 2016, realizou assessoria técnica administrativa na assistência social. Retornou em 2018 para a gerência de processos administrativos da secretaria de assistência social.

Na secretaria de Assistência Social, assume Cláudia Mara Barbosa. Ela também é assistente social por formação e durante 20 anos foi concursada na Prefeitura de Nova Friburgo. Aposentou-se pelo município e foi convidada a retornar à pasta no ano passado, ocupando o cargo de gerente de proteção especial.

Falta de apoio

Em entrevista nesta quarta-feira, 12, ao telejornal RJ-TV, da InterTV, um dia depois de pedir exoneração da Secretaria Municipal de Saúde, Tânia Trilha mostrou-se decepcionada com o prefeito Renato Bravo, disse que não queria sair e cobrou apoio dele, no que considerou ser um momento difícil. “O prefeito me informou que ele estava sendo muito pressionado e eu, certamente, gostaria que ele estivesse junto ao meu lado, para desmascarar isso tudo, um áudio retirado de um contexto, mas cada um tem as suas escolhas. Ele disse que seria melhor para ele me exonerar, então eu disse: ‘Eu me exonero’ e eu quero que essa exoneração saia a pedido meu”, frisou. A exoneração de Tânia está publicada no Diário Oficial do município, em A VOZ DA SERRA, na edição desta quinta, 13.

Renato Bravo não aprovou a declaração da ex-secretária e tranquilizou a população quanto o andamento do Hospital Raul Sertã . “A frase foi infeliz, porque não havia mais clima para a permanência da dra. Tânia Trilha. Eu fiz a minha parte e ela resolveu colocar o cargo à disposição. O hospital opera normalmente e tem profissionais capacitados. A luta é pela vida”, garantiu Bravo à reportagem da TV.

Exoneração a pedido

No início da noite da última terça, 11, a Prefeitura de Nova Friburgo anunciou a exoneração de Tânia Trilha do cargo de secretária de Saúde, após o vazamento do áudio em que ela cobrava de forma contundente a resolução do caso de um paciente em caráter emergencial apelando ao diretor do hospital para que viabilizasse a cirurgia de um paciente ou o deixasse morrer, pois havia uma determinação judicial cobrando solução para o caso. Logo após o anúncio oficial de sua saída, a ex-secretária se pronunciou em uma rede social: “Comunico que pedi minha exoneração do cargo de secretária municipal de Saúde de Nova Friburgo. Em 23 de janeiro de 2019, recebemos um mandado judicial para internação de um paciente no CTI. Como de costume, falamos no grupo restrito da direção do Hospital Raul Sertã, em que participavam eu, o diretor médico na ocasião, Arthur Mattar, a diretora geral e a subsecretária de Atenção Hospitalar, e sempre conversávamos de forma privada sobre o direcionamento das condutas. Ressalvo que as condutas médicas não eram de minha competência, pois o médico dirigente, era o dr. Arthur”.

Tânia continua dizendo que no caso do paciente, o então diretor médico do hospital havia informado a situação de risco de morte e que só teria vaga no CTI se alguém morresse, ou seja, se tivesse “alta celestial”, segundo ela, palavras frequentes do dr. Arthur. O paciente, segundo o diretor médico, necessitava de cirurgia e o mandado judicial determinava a internação no CTI. “Nosso hospital não tinha leito de CTI vago. Autorizei a internação dele em um hospital privado, arcando a administração pública com o custo, uma prática reiterada, pois nossa gestão prima sempre pela vida”, sustentou a ex-secretária.

Após discussão que se prolongou até o dia seguinte, sobre se primeiramente se faria a cirurgia e depois a remoção para o CTI, ou vice versa, Tânia conta que aguardou um posicionamento do diretor médico quanto ao contato com os cirurgiões e a decisão se o paciente suportaria o procedimento. “Eu disse com ênfase às frases veiculadas no áudio de forma isolada, buscando não a morte do paciente, mas a resolutividade da circunstância. Divulgar um áudio de um grupo privado de direção descontextualizada, é um ato criminoso e antiético que não merece crédito, pois se vale de um momento político e de julgamento daqueles que desconhecem a minha postura íntegra, profissional e acima de tudo humana. As medidas judiciais cabíveis serão tomadas”, frisou Tânia.

Paciente foi operado e morreu

A prefeitura divulgou informações detalhadas sobre todo o procedimento do paciente envolvido. De acordo com a prefeitura, “o paciente, segundo a direção do hospital, deu entrada na unidade no dia 14 de janeiro para primeira internação com lesão infectada em ambos os pés, apresentando necrose. No dia 16, foi dada a indicação médica de amputação. No dia 18, seria realizada a cirurgia vascular com indicação de amputação, porém ela foi contraindicada pelo anestesista, dado o quadro clínico do paciente. Diante disso, a cirurgia foi reagendada para o dia 23, já com pedido de leito no CTI para o pós operatório. Neste mesmo dia, o hospital recebe mandado judicial solicitando vaga de CTI para o paciente. Como o Hospital Rual Sertã não possuía vaga naquele dia, o paciente foi transferido para uma unidade particular com os custos arcados pelo município. No dia 24, ele retornou para o Raul Sertã, onde fez a cirurgia indicada e foi internado novamente no CTI. No dia 29, foi dada alta para a enfermaria. Os médicos registraram piora clínica no dia 3 de fevereiro, quando foi novamente solicitada vaga no CTI do Raul Sertã. No dia 5, o paciente foi internado no CTI. No dia 7, o paciente teve nova piora clínica e morreu no dia 8”.

Por conta da demora em anunciar o afastamento de Tânia Trilha, a prefeitura informou que julgou necessário definir a situação como um todo antes de qualquer pronunciamento. Após a saída de Tânia da administração municipal, a prefeitura entendeu não ter o direito de emitir posicionamentos de ex-secretários. Ainda de acordo com o Executivo, o áudio nunca circulou internamente na prefeitura. “O conteúdo que o prefeito conhece é exatamente o mesmo que circulou nas redes sociais”. A nota afirma ainda que com relação ao substituto de Tânia, o município informa que está em busca de um novo gestor. “Preferencialmente um com perfil técnico. Contudo, sem ventilar nomes nesse momento.”

Análise política

O jornalista de A VOZ DA SERRA e especialista em assuntos políticos Márcio Madeira foi convidado a comentar sobre os desdobramentos do caso. Perguntado sobre a implicação política do fato de Tânia Trilha pedir pra sair e a decisão não partir do Prefeito, Márcio afirma que toda a situação “pegou mal”.

“Diante da demora da Prefeitura se pronunciar, deixa claro que estava acontecendo um embate de bastidores e expõe uma estranha autonomia que os secretários de saúde vem tendo sobre a prefeitura. Lembrando que há pouco mais de um ano e meio a justiça teve que interferir e afastar a então titular da pasta, Suzana Menezes, no final de 2017, quando todo mundo sabia das causas, dos motivos. Falando em um português claro a impressão que fica é a de chantagem”.

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“Todos os lados tem que se ouvidos, fica claro que a situação, o áudio foi retirado de um contexto, mas imagina para alguém que perdeu um parente, uma pessoa próxima, dentro do Raul Sertã, sem ter tido o melhor atendimento possível ouvir um áudio como esse, é uma invenção, armaram contra ela, alguém fez alguma escuta, hackearam o Whatsapp de alguém? Você manda um áudio assim pra um grupo e fica indignado com o grupo? Faltou empatia e não há contexto que mude isso. Tanto que chocou parte da grande mídia como a redação do jornal O Globo, da TV Bandeirantes, especula-se que a matéria saia no Jornal Nacional. Negar o óbvio nos prende ao áudio, quando na verdade o contexto é maior”.

O jornalista considera que a discussão sobre o áudio só prejudica o debate por se tratar de um caso com implicações ainda maiores. “A gente tratar essa situação deixando a Tania Trilha como bode expiatório, como se fosse ela a culpada pela situação da saúde estar do jeito que está, perde foco. Existe muito mais. Eu já publiquei muita coisa a favor da Tania, quando era merecida essa publicação”.

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