Rios sem limpeza deixam 4 mil friburguenses à beira do perigo

Com mato alto e sem dragagem, cursos d’água são ameaça para quem ainda vive em áreas com risco de inundação
sábado, 11 de maio de 2019
por Alerrandre Barros (alerrandre@avozdaserra.com.br)
O Córrego Dantas, no Jardim Califórnia, no trecho que margeia a Rua Lafayette Bravo Filho (Fotos: Henrique Pinheiro)
O Córrego Dantas, no Jardim Califórnia, no trecho que margeia a Rua Lafayette Bravo Filho (Fotos: Henrique Pinheiro)

Ninguém mora no primeiro andar da maioria das casas da Rua Lafayette Bravo Filho, no trecho que margeia o Córrego Dantas, no Jardim Califórnia, distrito de Conselheiro Paulino. Em dias de chuva forte no bairro, o rio avança facilmente a margem de menos de um metro de altura e inunda a rua. É assim desde sempre, afirmam moradores.

“Observe as casas que ainda restam na rua: elas têm dois andares ou foram construídas sobre uma estrutura que as mantêm um pouco distantes do rio. Há casas no primeiro andar que possuem comportas para evitar que a água entre no imóvel”, disse o aposentado José de Almeida, que não mora na via, mas passa por lá quase todos os dias para fazer compras em um supermercado próximo.

Do número 223 da Rua Lafayette Bravo Filho à esquina da ponte da Rua Matilde de Queiróz da Silva, há trechos onde só passa um carro por vez, tamanha a proximidade do rio com algumas casas. Segundo moradores, a última vez que o Córrego Dantas invadiu a rua foi em janeiro, durante um temporal.

“A água veio até os portões, mas não invadiu as casas”, conta a costureira Rose Elis, que vive no segundo andar de um sobrado há oito anos. “Moradores que têm carros não podem deixar os veículos na rua. Por causa das inundações, as garagens são altas”, disse a moradora.

Rose vive numa casa que foi desapropriada pelo Instituto Estadual do Ambiente (Inea). O órgão vem desde a tragédia de 2011 retirando dos imóveis moradores que vivem em áreas de risco. O trecho da Rua Lafayette Bravo Filho que margeia o rio é uma delas. Nos últimos anos, casas foram desapropriadas e demolidas na via. Outras estão abandonadas e teriam sido invadidas.

“Vivo aqui porque necessito. O proprietário cedeu a casa para mim. Não pago aluguel”, contou Rose. “Moro há oito anos nesta rua e não me lembro de inundações que tenham causado grandes prejuízos. As que aconteceram causaram transtornos. Recentemente tive que andar em meio a água suja, me escorando no muro”, contou.

As inundações na rua diminuíram devido às obras de canalização do Rio Bengalas, onde deságua o Córrego Dantas, na altura do Prado. O governo do estado aumentou a calha do Bengalas, medida que ampliou o escoamento das águas que correm para o rio. Contudo, o assoreamento do leito do Córrego Dantas somado ao excesso de mato em suas margens continua provocando inundações no Jardim Califórnia.

Imóveis desvalorizados

Em outro ponto crítico do rio no bairro, no loteamento Canto do Riacho, a queixa se repete. “Em janeiro, o rio invadiu a Rua Arizona. A água ficou represada na ponte por causa do lixo. A prefeitura precisa fazer a limpeza desse rio. Se não limpar, há o risco da água invadir as casas. Tem que prevenir. Em poucos meses inicia o período de chuvas”, afirmou o motorista Carlos Rodrigues, que mora na localidade há 30 anos.

No Canto do Riacho a situação é semelhante a da Rua Lafayette Bravo Filho. Terrenos onde havia um bar, um salão de beleza e casas estão vazios desde a tragédia de 2011. Imóveis que foram destruídos à época seguem abandonados e ainda não foram demolidos. De acordo com moradores, há pouco interesse de compradores pelos terrenos devido aos riscos de inundação e deslizamentos de encostas.

A bacia do Córrego Dantas,‭ ‬cujas águas correm pelas localidades de Córrego Dantas,‭ ‬Cardinot,‭ ‬São Geraldo,‭ ‬Floresta dos Mendes,‭ ‬Granja Spinelli,‭ ‬Solares e Jardim Califórnia,‭ tem outros trechos críticos. O Inea informou que vem trabalhando na retirada de famílias que vivem nas áreas com risco de inundação, mas não detalhou em que fase está a ação.

Inundações de norte a sul

Em outro lado do município, no distrito de Mury, moradores de Debossan e Theodoro de Oliveira também convivem com riscos de inundação do Rio Santo Antônio. Em fevereiro, uma forte chuva que caiu sobre a região fez o curso d’água avançar sobre a RJ-116, num dos acessos ao município. O trânsito chegou a ser interrompido. A água invadiu casas, comércios e encheu de lama o campo de futebol.

“É sabido por todos que o problema no Rio Santo Antônio é falta de limpeza do seu leito. A água traz sedimentos que se depositam no fundo do rio. Isso reduz a profundidade do rio, tornando-o mais raso e consequentemente aumentando a possibilidade de inundações”, disse Aécio Acioli, da associação e moradores do distrito.

Em Conquista, no distrito de Campo do Coelho, o que também preocupa os moradores é a falta de limpeza e dragagem em trechos do Rio São Lourenço. Em abril, um temporal elevou o nível do rio, que transbordou, alagando grandes áreas, destruindo plantações de verduras e legumes e causando prejuízos a produtores rurais na localidade de Salinas.

“Perdemos cerca 30 mil pés de alface e 30 mil de couve. Também perdemos oito mil pés de coentro. Tivemos prejuízo estimado de R$ 70 mil. Há anos não víamos uma chuva tão forte nessa região. O rio precisa ser limpo para evitar transbordamento”, disse a agricultora Alaíde Corrêa da Silva, do Sítio Roseiral.

Quatro mil em áreas de risco

Ambas as regiões, Mury e Conquista, registraram fortes chuvas nos últimos meses que não foram captadas pelo sistema de monitoramento da Defesa Civil municipal devido a características geológicas das localidades. O órgão planeja instalar medidores pluviométricos e sirenes nessas regiões para alertarem aos moradores dos riscos, mas falta verba.

Em Friburgo, cerca de quatro mil pessoas ainda vivem em áreas de risco de inundação segundo a Defesa Civil. Outras 22 mil moram em regiões passíveis de deslizamentos. Procurado por A VOZ DA SERRA, o Inea informou que trabalha para retirar moradores desses locais. Muitos, porém, insistem em permanecer nas áreas de risco. O órgão ambiental disse que iniciará outra fase de obras no Rio Bengalas e no Córrego Dantas.

Já a Prefeitura de Nova Friburgo informou que a realização de qualquer tipo de intervenção nos rios é de competência do Inea. “A respeito do mato alto, a Subprefeitura de Conselheiro Paulino disse que já capinou uma parte da Rua Lafayette Bravo Filho e que dará sequência em toda a extensão da via”.

 

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