“Queremos dar aumento aos professores, mas faltam recursos”

Em entrevista, secretário Renato Satyro fala sobre os desafios de gerir a Educação com um orçamento menor
sexta-feira, 09 de fevereiro de 2018
por Alerrandre Barros
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Renato Sayro: "O professor no Brasil ganha muito mal e isso incomoda a mim, que sou professor" (Foto: PMNF)

O professor Renato Satyro parece satisfeito em relação aos seus últimos meses como titular da Secretaria municipal de Educação de Nova Friburgo. Ele assumiu o posto em junho do ano passado, depois de duas trocas de comando na pasta, e conhece bem a função. Foi secretário de Esportes e Educação no governo anterior, tem ampla experiência como professor e foi gestor do tradicional Colégio Anchieta. Nessa entrevista, feita na primeira semana da volta às aulas, Renato fala da inauguração de novas creches e escolas, da contratação de mais professores, dos desafios com o orçamento menor e o legado do bicentenário.

AVS: Como foi a primeira semana de volta às aulas?

Estamos felizes com o início do ano letivo porque tivemos êxito nas licitações de janeiro, que costumam sofrer atrasos. Licitamos a merenda, o fornecimento de gás e o transporte escolar. Esta semana vamos licitar o material didático. Os alunos devem recebê-lo após o carnaval. As escolas e creches, portanto, não vão ter problemas no início deste ano, como aconteceu em anos anteriores com a falta de alguma coisa.

Como estão as obras nas creches e escolas?

Houve avanços. Estamos prestes a inaugurar a creche Iolanda da Silva, no Santa Bernadete, a escola Vitorino Bento Toledo, em São Lourenço. As obras na creche João Batista Faria, na Vilage, estão avançadas. Para o meio do ano, esperamos inaugurar a nova sede da creche Otelina Condack, em Conquista. No final do ano, teremos a nova creche Isabel Monteiro, no Rui Sanglard. Também conseguimos transformar a escola Américo Ventura, no Alto de Olaria, em creche, e vamos reinaugurar a escola Padre Rafael, no Cordoeira. Estamos também fazendo obras de manutenção e melhorias em outras quatro unidades escolares, em Olaria e  Mury, e vamos começar obras de reforma em mais sete, nos próximos meses.

Quando assumiu a pasta, o senhor disse que a falta de vagas nas creches era um dos principais problemas na educação do município. Avançamos?

Em 2016, a gente tinha cerca de 1.800 alunos fora das creches. Com as inaugurações de unidades naquele ano, diminuímos essa carência para algo em torno de 1.200, em 2017. Com a abertura de turmas ano passado, a carência diminuiu para cerca de 900 crianças, sendo que, com as inaugurações durante o ano e novas aberturas de turma, caiu ainda mais essa demanda por vagas. Ou seja, houve grande avanço, mas ainda não conseguimos atender a todos. Temos cerca de 5 mil matriculados nas creches e pré-escolas, mas esse número pode aumentar porque há alunos saindo das creches particulares e vindo para as públicas. Este ano tivemos menos vagas porque uma decisão da Justiça proibiu a prefeitura de renovar convênio com a Creche Colmeia do Senhor, no Prado. Com isso, 280 crianças foram tiradas da Colmeia e alocadas nas unidades públicas. A fila de espera seria menor, cerca de 500 crianças.

Você disse que alunos têm saído da rede particular e se matriculado na pública. Friburgo consegue absorver essa demanda?

Atendemos quase 100% da demanda, exceto casos específicos do 6º ao 9º do ensino fundamental, porque o responsável pelo aluno, em geral, quer uma escola mais perto de casa. O estado também é solidário nesse caso.

Alguma escola estadual pode ser municipalizada nos próximos anos?

Não há essa previsão. Em 2016, eu quis municipalizar o Ciep Glauber Rocha, no Jardim Ouro Preto, para fazer uma grande creche no local, mas houve movimentos contrários à municipalização. Agora, fecharam o Ciep, que será federalizado e transferido para o Cefet, que funciona ao lado, no antigo Departamento de Estradas de Rodagem do Estado do Rio de Janeiro (DER-RJ).

Pretende convocar este ano aprovados no concurso público de 2015?

Em março, a gente deve convocar cerca de 50 professores para os anos iniciais e alguns professores para os anos finais. Temos também carência de merendeira, auxiliar de serviços gerais e cuidador de alunos com necessidades especiais. Mas o orçamento é um empecilho. Temos que fazer convocações bem planejadas para não enfrentarmos dificuldades financeiras depois, como outros municípios ou o governo do estado, que, às vezes, ficam 4, 5 meses sem pagar salários.

Há cuidadores nas unidades?

Deveria haver em todas as salas onde há criança com deficiência. Ano passado havia 200 crianças necessitando de mediador exclusivo na rede. Atualmente, essas crianças são atendidas por professores ou auxiliares de creche da rede, mas nosso objetivo é fazer um processo seletivo para que profissionais temporários com formação específica para desempenhar esse trabalho de inclusão e socialização da criança com dificuldade de aprendizado. Não seriam, no momento, concursados, porque a demanda é sazonal. Temos uma fila de espera de 600 crianças especiais.

Como a educação do município tem sido avaliada?

No fim do ano passado, aplicamos aos alunos da alfabetização a Aprova Friburgo, um programa que criamos para avaliar o aprendizado dos estudantes nessa fase, porque entendemos que uma criança bem alfabetizada vai ter menos dificuldades nas próximas fases do ensino. Ainda estamos avaliando os resultados da prova, são muitos relatórios. Vamos ter um quadro geral da nossa rede para poder intervir onde houver falhas, seja no aprendizado do aluno, na atuação do professor e do diretor da escola, no acompanhamento dos pais, que são fundamentais nesta fase da educação, e até mesmo se houve falha da Secretaria de Educação. Já vimos através da avaliação que na mesma escola uma turma foi bem e outra foi mal. Algumas escolas, localizadas em áreas com vulnerabilidade social, no entanto, tiveram bons resultados.

O transporte escolar atende a todos?

O transporte escolar é feito para quem tem difícil acesso à escola e mora na zona rural. Recebemos uma verba pequena do governo federal, que não chega a 10% do total gasto. A licitação do transporte foi feita na última sexta-feira, 2, e a empresa Caminhos Dourados venceu novamente. Três empresas participaram da licitação. O valor licitado no ano passado, para 200 dias letivos, foi de R$ 10 milhões. Este ano, foi R$ 9,3 milhões, ou seja, houve uma redução do gasto com transporte escolar. Em média, transportamos cerca de 2.800 alunos. Cada um custa cerca de R$ 280 por mês, ao município. Não temos recebido reclamações à empresa que presta o serviço. Alguns problemas pontuais aconteceram com nosso próprio ônibus, porque também fazemos o transporte com 7 veículos. Aliás, temos mais 104 veículos licitados. Esse transporte é realizado em estradas ruins, às vezes num percurso de 6 km. Se não tivesse esse transporte, muitas crianças estariam fora da escola. Teriam que andar 4, 5, 6 km para chegar à escola.

O orçamento este ano é menor que o de 2017, pouco mais de R$ 117 milhões. É suficiente?

Quase 80% desse valor são destinados à folha de pagamento. Praticamente 10% são usados para alimentação dos alunos. São oferecidas 60 mil refeições por dia para cerca de 18 mil alunos, da creche ao 9º ano. Quase 10% vai para o transporte escolar. Além de todas as obras (em torno de R$ 10 milhões), temos que pagar material didático, insumos, água, luz. Enquanto não tivermos aumento no repasse de verbas federais e na arrecadação própria, não podemos projetar grandes investimentos.

A conta fecha no final?

Tem fechado, porque a gente se esforça para isso. É por falta de recursos suficientes que nós não damos aumento para os servidores. O professor no Brasil ganha muito mal e isso incomoda a mim, que sou professor, e a todos os outros profissionais.

Quais são os projetos para a festa do bicentenário de Friburgo?

Ao mesmo tempo que temos as atividades curriculares, vamos executar vários projetos com as concessionárias de serviços públicos, com os Rotarys, com a Polícia, as colônias. Estamos tentando viabilizar uma escola de tempo integral este ano, como legado dos 200 anos, além das inaugurações. Também projetamos concluir este ano uma casa de formação do profissional de educação. Já fomos conhecer, junto com a primeira dama Cristina Bravo, imóveis onde esse espaço terá auditório, biblioteca, sala de informática, espaço para assessoria jurídica e outros ambientes para que o profissional tenha uma formação continuada. Não é promessa, é trabalho.

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