Quando a rede é a mensagem

Um saudável (ou perigoso?) ambiente onde se desenvolve uma comunicação multidirecional e interativa
sábado, 09 de fevereiro de 2019
por Alan Andrade (alan@avozdaserra.com.br)
Quando a rede é a mensagem

O sociólogo espanhol Manuel Castells, um dos maiores estudiosos das transformações sociais provocadas pelo avanço da internet, afirma  que atualmente estamos inseridos plenamente numa sociedade digital: “A rede é uma realidade generalizada para a vida cotidiana, as empresas, o trabalho, a cultura, a política e os meios de comunicação”. Mas de que forma os chamados “cidadãos comuns” propagam suas ideias neste espaço público aparentemente democrático?

No Facebook, a maior rede social do mundo, que no ano retrasado atingiu a incrível marca de dois bilhões de usuários, a circulação desse discurso se torna ainda mais complexa, especialmente em virtude do grande alcance desta rede social, onde se admite a exposição de orientações políticas e ideológicas como um espaço público-virtual autônomo. Neste ambiente se desenvolvem uma comunicação multidirecional e interativa, onde os emissores de mensagens são também receptores de mensagens.

Não obstante a valiosa função de promover o debate entre os cidadãos e, consequentemente, fomentar a liberdade de expressão, este ainda é um ambiente sobre o qual não incide uma regulamentação jurídica, o que levou o Facebook a adquirir uma atmosfera inerente ao ambiente doméstico, onde se pode falar sobre quase tudo o que quiser, sem a necessidade de uma argumentação carente de fundamentos teóricos.

As redes sociais possibilitam ao internauta não apenas a manifestação de suas ideias, como também os levam a assumir os mais distintos papéis dentro da sociedade, seja como o de analista político, filósofo, teólogo ou crítico de arte, em apreciações estéticas, éticas e morais.

Aproveitando-se da disseminação de informações pouco (ou nada) criteriosas, observamos estarrecidos a invasão deste espaço por grupos de militância política especializados na desinformação em massa, como pudemos observar nas últimas eleições presidenciais no Brasil, marcadas pela enxurrada de publicações de teor falacioso – as chamadas “fake news”, com um poder inaudito de manipular a opinião de usuários mais desatentos e menos críticos.

Da forma análoga, as últimas eleições nos Estados Unidos, que levaram Donald Trump à presidência, revelaram o poder nocivo do “microdirecionamento”, estratégia utilizada por Steve Bannon, membro da polêmica empresa de marketing político “Cambridge Analytica”.

Trata-se da utilização de um “quiz de personalidade” realizado no Facebook com a finalidade de coletar dados pessoais de usuários e de seus amigos para, em seguida, usar ferramentas de propaganda para levar seu anúncio para o feed destes internautas.

De acordo com um estudo realizado em universidades de Nova York e Stanford, nos Estados Unidos, no qual cerca de três mil usuários selecionadas para a pesquisa se abstiveram do acesso ao Facebook durante um mês, percebeu-se que os usuários da rede passaram a emitir opiniões menos “extremistas” em relação à política norte-americana. Então seria o Facebook, este gigantesco palco para discussão e organização de importantes movimentos políticos, como a “Primavera Árabe”, uma faca de dois gumes?

Segundo Castells, “a comunicação em rede tem a capacidade de oferecer enormes possibilidades de incrementar a participação cidadã ao invés de reduzir a democracia a um voto midiatizado a cada quatro anos.” Contudo, isso só seria possível “se houvesse interesse por parte das elites em promover esta participação política e democrática.”

Uma relação tóxica  

 “Fazia já um tempo que não entrava mais no Facebook. Amigos meus brincavam, dizendo que eu não me decidia se ficava ou não nesta magnética rede social, a maior e mais influente do mundo, uma vez que estava sempre desativando minha conta, deixando sempre uma derradeira mensagem: ‘quem precisar falar comigo, ligue para meu celular’.

O que me levava a esta conflituosa e um tanto tóxica relação com o Facebook era aquela enxurrada de gente chata, que adorava (e ainda ama) exercer a função de filósofos, cientistas políticos e críticos de arte, numa maçante e incessante tentativa de expor todo o seu pretenso conhecimento nestas e em outras áreas, na esmagadora maioria das vezes sem o mínimo fundamento teórico.

Associado a isto, também sentia profundo incômodo o fato de estar sempre sob a eterna vigilância de gente curiosa e ociosa, que dedica parte preciosa de suas vidas no exercício diário de se inteirar da vida alheia. ‘É só você não ler’, aconselhava meu irmão. Nesse sentido, pra que manter minha conta, uma vez que a plataforma existe justamente para ser lida. ‘Então use somente para manter contato com amigos distantes’, argumentava. Este, inclusive, é um dos pressupostos básicos da existência da rede social, criada, a princípio, com a finalidade de apresentar aos novos alunos de Harvard os seus futuros colegas de Universidade.

É inegável que o Facebook seja um mecanismo eficiente no sentido de conectar pessoas que se encontram geograficamente distantes, de receber notícias de familiares e de eventos comemorativos e até de informação, guardando sempre o cuidado para não cair na armadilha perniciosa das ‘fake news’, cada vez mais abundantes nos dias atuais.

Daí talvez surgisse o ‘gatilho’ para minha impaciência diante do que via: uma multidão de usuários que compartilhavam tais informações sem se dar ao trabalho minucioso (e extremamente necessário) de averiguar sua veracidade, exercitando o senso crítico as fontes que servem como alicerces para a exposição de suas ideias.

Quantas vezes não li, especialmente em épocas de campanhas eleitorais, aparentemente o único momento em que esses indivíduos exercitam seu papel de agente político, uma quantidade absurda de desinformação e ‘desserviço social’, que inevitavelmente descambavam pra agressões verbais, rupturas afetivas e até mesmo ameaças!

Quando tive a felicidade de entrar para a equipe deste jornal, me dei conta da importância de me manter conectado a este mundo virtual, especialmente no que diz respeito a colaborar, com todo o respeito às mais distintas opiniões, com uma informação de relevante importância para a sociedade. Só então pude compreender que os benefícios e malefícios de se usar o Facebook dependia do uso que eu fazia dele.

Meu telefone de contato continua lá, para aqueles que quiserem marcar uma conversa real, um almoço ou café, onde não temos que nos desdobrar para decifrar as inúmeras possibilidades de interpretação de uma mensagem mal formulada. Algo físico, real, íntimo, face to face.”

 

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