Precursor da moda sustentável, Geová Rodrigues relembra sua trajetória

Lixo recolhido nas caçambas do East Village inspirou coleções que encantaram celebridades em Nova York
sábado, 11 de maio de 2019
por Ana Borges (ana.borges@avozdaserra.com.br)
Geová em ação na Galeria KM7 (Fotos: Regina Lobianco)
Geová em ação na Galeria KM7 (Fotos: Regina Lobianco)

 

Geová Rodrigues é um adepto nato da sustentabilidade, um artista que se fez seguindo seu instinto, sua herança genética, sua natural maneira de ser. Ele cresceu percebendo a importância do reaproveitamento das coisas, ainda que na época nem soubesse disso, observando a mãe, Dona Tica. “Até o jeito como ela mexia na máquina de costura herdei dela”, revela.

Aos 33 anos, lançou em Nova York sua primeira coleção de reutilizados. Era outubro de 1998. Os looks foram criados com materiais descartados que ele recolhia em caçambas espalhadas pelas ruas do East Village, além do que lhe repassavam amigos que trabalhavam nos ateliês de grifes famosas como Gucci, Versace, Armani, Calvin Klein.

À medida que suas criações se destacavam e a divulgação boca a boca crescia, seu público aumentava, na mesma proporção. Gente ligada às artes e à moda, como Emma Hepburn Ferrer (neta da atriz Audrey Hepburn), que se tornou uma amiga querida e curadora de algumas de suas exposições.

Sua carreira se consolidou ao chamar a atenção dos editores de revistas como a Vogue, entre outras. O jovem brasileiro e suas criações únicas e recicladas eram divulgados em diversas publicações, dando início à sua escalada rumo ao sucesso.  

Celebridades internacionais, atrizes e cantoras se tornaram clientes fiéis, como Gisele Bündchen, Linda Evangelista e outras top models. Suas criações estavam/estão nas capas de revistas americanas e europeias. Ele chegou lá: a marca Geová Rodrigues se consolidou e seu nome passou a ser referência na moda sustentável, na reconstrução de peças a partir da fusão de retalhos. Bem antes de a customização ser considerada uma das ferramentas mais charmosas do universo fashionista.

Ano passado, após o encerramento da exposição Ideas to get Dress, na Galeria Sapar Contemporary, com curadoria de Emma Ferrer, Geová doou parte da venda de uma coleção de bonecas vestidas com refugos de outras peças, leiloados pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados. Na ocasião, recebeu uma das personalidades mais importantes no universo das artes, a presidente do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), Agnes Gund.

Geová por Geová

“Cada peça que faço é única. A partir da textura do tecido, desenho, costuro, customizo, realizo. Gosto de trabalhar sozinho, não tenho assistente. Trabalho com rendas, bordo, crio adereços, boto brilho. Corto, desmancho e transformo saias, vestidos, calças em novas peças. Pode ser um Givenchy, um Saint Laurent. Não elaboro muito, sigo meu instinto, sinto a textura do que tenho nas mãos e dou vazão à minha imaginação”, vai revelando, enquanto começa a pintar uma porta retirada de uma demolição realizada pelo amigo Marcelo Brantes, proprietário da galeria Km7, idealizador desse encontro.   

Fácil perceber esse talento em ebulição. Em menos de uma hora, ele foi dando vida e serventia àquele pedaço de madeira, que um dia já foi porta, e que certamente iria parar dentro de um rio, ou às margens de uma estrada. Não corre mais esse risco, graças à arte de Geová, que se sente “surreal”, apesar de recusar fazer parte da “escola surrealista”, pelo simples prazer de desenhar sem se preocupar com regras. Será uma das obras da próxima exposição do KM7.

“Meu ateliê é uma galeria. É meu showroom, meu estúdio, minha casa. Meu foco é a moda, mas entendo que moda é moda, e arte é arte. Eu pinto em tela, madeira, papelão, tecido, o que for. Essa é minha maneira de levar arte para a moda. Entendo que moda passa, é descartável. A arte, não, ela fica, é eterna. Na minha loja tem de tudo. Tenho peças de arte, quadros, luminárias. Eu garimpo, reciclo, observo tudo. Quando visito minha terra natal, vou à praia, me inspiro. Fico pleno, feliz, presto atenção nas pessoas, no que vai acontecendo. Olho a natureza, o céu, as nuvens, as sombras, os desenhos que as nuvens formam e que vão se desmanchando e se transformando. É disso que me alimento, desse movimento constante da vida ao meu redor”.

“Em NY, onde me sinto em casa, o tempo não para, as coisas funcionam 24 horas por dia e gosto disso. Já vivo aqui mais tempo do que passei na minha terra natal. Posso sair na rua de madrugada se estiver com vontade e isso vai renovar minha energia, me inspirar. Eu tô sempre seguindo em frente, o que não quer dizer que o passado não conta. Conta para me fazer ser quem eu sou hoje, quem serei amanhã. A gente vai caminhando e acumulando vivências, experiências, encontros, desencontros, momentos. E tudo isso importa muito para mim. Gosto de gente, de conversar, de estar aberto para o mundo. Há muita coisa legal para ser vista e sentida por aí”.

De Barcelona para o mundo  

O cenário agreste da cidade de Barcelona (RN/Brasil) nada tem a ver com o glamour fashion da Barcelona espanhola. No entanto, o município potiguar de pouco mais de 4.000 habitantes, tem orgulho de ser o berço de um dos 100 estilistas mais influentes da atualidade.

Geová Rodrigues é um entre 12 irmãos de uma família simples. Filho de um agricultor e uma mãe dona de casa, criativa. Dona Tica transformava as roupas dos irmãos mais velhos para os mais novos – uma prática comum entre tantas famílias, mas que para ele, deu sentido à sua vida. O Geová menino guardou para sempre em sua memória e que o levaria à fama através de seu talento.

Em 1981, com apenas 16 anos de idade, ele foi se juntar aos irmãos mais velhos, em São Paulo. Nascido artista e com muita energia para dar asas à sua imaginação, lhe bastaram pincel e tinta. Foi a pintura e alguns contatos após exposições de seu trabalho em SP que o levaram a Paris, em 1988. Aos 23 anos.

Dois anos depois, partiu rumo aos Estados Unidos. Aterrisou na Carolina do Norte, onde ralou por mais dois anos, até seguir para NY, onde fazia bicos ao mesmo tempo em que observava o seu redor, principalmente… o que jogavam fora. E como americano produz “lixo”, não é mesmo?

Ele conta que caminhando por Manhatan achava restos de tecidos jogados em conteiners colocados em frente de ateliês de grifes famosas. Um dia, já com um bom estoque deles, teve a ideia de trocar um de seus quadros por uma máquina de costura para criar uma roupa. O resto dessa caminhada, já é conhecida. E ele relembra, com simplicidade:

“Tinha época em que cinco revistas, simultaneamente, publicavam capas com minhas criações e eu não tinha nem dinheiro para comprá-las. Hoje já são mais de 400 matérias com meu trabalho espalhadas pelo mundo”.

Geová Rodrigues vive no East Village há 25 anos, onde mora e trabalha em seu ateliê.  

 

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