Porão: o espaço que está fazendo falta na cultura friburguense

Daniela Santi relembra histórias e personagens do Centro de Arte
sábado, 29 de setembro de 2018
por Daniela Santi, especial para A VOZ DA SERRA*
Porão: o espaço que está fazendo falta na cultura friburguense

“O Centro de Arte sempre foi o reduto dos artistas friburguenses. Para nós, do teatro, era o único espaço que sustentava uma temporada. Era pequeno, não passava de 110 lugares e assim, os grupos podiam se apresentar por dois meses, todos os finais de semana, com uma maior visibilidade. Isso também proporcionava uma formação de plateia e a procura por espetáculos foi se tornando hábito.

Este espaço, para mim, tem um valor inestimável. Por dois períodos – 1986 a 1988 e 2002 a 2008 - fui sua  diretora e pude constatar a grande presença de estudantes e demais cidadãos em apresentações de teatro, música, cinema e exposições.

Com o seu fechamento, houve um esvaziamento nas produções locais, justamente por falta de um espaço pequeno, com público para seus espetáculos. Hoje, temos o Teatro Municipal, mas por ser um teatro de 650 lugares, as produções locais, quando conseguem lotar, não passam de três dias em cartaz.

Se há previsão de reabertura do Bebete Castillo (nome do teatro do Centro de Artes), eu desconheço. Sei que existe a vontade, mas para isso é necessário ter uma boa verba. Por ser abaixo do nível da rua, o teatro foi muito castigado com a enchente de 2011. Não foi à toa que o saudoso Jaburu (Júlio Cesar Seabra Cavalcanti), que coordenou esse espaço nos anos 1970, o nomeou como Porão da Arte. Os mais velhos têm dificuldade em chamá-lo de Centro de Arte, nome que foi resgatado na reforma de 1986, a maior e mais estrutural realizada após a sua criação, na década de 1960.

As salas de exposição, creio que estarão à disposição em breve, mas para reabrirem o teatro, muita coisa terá que ser reformulada. O mofo é um problema recorrente, as saídas para o público, idem. A reabertura do CA (Centro de Arte) é uma reivindicação contínua dos artistas e das gerações que foram criadas frequentando esse espaço. Sem ele, as pessoas perderam a referência cultural, que mantinha a arte viva e presente.

Quando trabalhei lá, na década de 80, a efervescência era notória. Os primeiros aparelhos de videocassete estavam surgindo e a prefeitura adquiriu um deles. Fazíamos sessões de Vídeo Arte, mas só existia um vídeo clube na cidade, então eu ia a Niterói alugar os filmes. A entrada era gratuita, e as filas dobravam a esquina da Rua Ernesto Brasílio. Também havia sessões de cinema, em 16mm, aos domingos. Eu fazia a programação. Ia ao Rio de Janeiro, na extinta Embrafilme, e garimpava, literalmente, filme brasileiros. Tínhamos programação variada e farta.

Convênios com os consulados proporcionavam maravilhosas apresentações teatrais e musicais. Os concertos eram um chamariz para quem apreciava música clássica ou contemporânea. E todos de graça. Muitos artistas plásticos, já consagrados, expuseram no CA, assim como vários iniciantes. Grupos de música, cantores e atores, também deram ali seus primeiros passos.

O Grupo em Grupo de Artes Cênicas, por exemplo, praticamente começou no palco do CA e até hoje está em atividade. O GAMA, capitaneado pelo Jaburu, fez suas primeiras apresentações ali. São muitas histórias. De lá pra cá, alguns grupos acabaram e outros surgiram; geralmente, quando o líder falece, o grupo se extingue.

Foi o caso do Nei Costa, do Carlito Marchon e, mais recentemente, do Jaburu. Outros seguem em frente, como o Teatro Expressão, do Nobel Medeiros e do que já citei, o Grupo em Grupo. Muitos acabaram por dispersão ou outras opções de vida de seus integrantes, como o Theatro D.Eugênia, da Raquel Nader, e o Laboratório Cênico, com a direção do Carlos Pimentel.

Dos que foram criados depois, posso citar a Cia. Arteira, criado por Gabriela Ribas e Silvia Araujo, ativo até hoje. E tem o Bernardo Dugin, que não possui um grupo fechado, mas que produz musicais de boa qualidade, com frequência.

Tem ainda as companhias circenses que são muito boas. O Família Clou, do Dalmo Latini, Thalita e Yan, com um trabalho reconhecido nacionalmente, a Cia. Viva, do Patrick Nogueira, que também é conhecida fora dos limites do município, a dupla Abelhito e Sucata, de primeira qualidade, palhaços vestidos e encarnados pelo Leo Abelha e o Jeferson Cunha. Em Lumiar, entre outros artistas esparsos, o Marcio Cunha se destaca pelo talento e ousadia. Faz uma mescla de artes plásticas, dança e performance e costuma fazer suas estreias no Rio de Janeiro.

É necessário falar da participação do Sesc no cenário teatral local. Não podemos solicitar o teatro para apresentações, mas ele compra nossos espetáculos, investindo e valorizando o trabalho dos artistas locais e oferecendo também peças vindas de outros municípios, a preços simbólicos, o que ajuda na formação de plateia.

E vale lembrar também que em Lumiar existem os espaços Tribuna Cultural e Centro de Artes e Lumiar, CALU, que sobrevivem com o esforço de seus proprietários e artistas, que desenvolvem um lindo trabalho artístico-cultural na comunidade. Nesse aspecto, esse distrito está mais ativo do que o Centro e outros distritos de Nova Friburgo.

A produção de um espetáculo aqui é difícil. Mas isso não é um ‘privilégio’ de Nova Friburgo, em todo o país é assim. Apesar das repetidas crises, nós, artistas, continuamos fazendo nosso papel de criadores.”

*Daniela Santi é atriz e diretora teatral

 

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