"Os novos infectados não viram seus ídolos morrerem”

Médica infectologista Delia Celser Engel fala sobre a Aids hoje
sábado, 01 de dezembro de 2018
por Alan Andrade (alan@avozdaserra.com.br)

Neste dia 1º de dezembro, comemora-se o Dia Mundial de Combate à Aids – Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, adotado pelo Brasil há exatos 30 anos. Esta é uma data que tem como finalidade alertar e conscientizar a população acerca da prevenção e tratamento da síndrome, que já causou a morte de 35 milhões de pessoas em todo o mundo, de acordo com o relatório de 2018 da Unaids, programa das Nações Unidas, que tem como ousada meta extinguir a contaminação pelo vírus HIV até 2030.

Em 2017, mais de meio milhão de pessoas soropositivas estavam se tratando por meio da terapia antirretroviral (ART), sendo que, só neste ano, outros 70.516 novos pacientes aderiram ao tratamento. De acordo com o relatório da Unaids, 75% das pessoas diagnosticadas com o vírus HIV já estavam em tratamento em 2017. O trabalho de conscientização sobre os riscos da infecção por HIV, que não deveria se restringir ao período de Carnaval e ao Dia Mundial de Combate à Aids, é um instrumento essencial para o efetivo controle da epidemia.

Em entrevista exclusiva ao A VOZ DA SERRA, a infectologista da UFRJ Delia Celser Engel, que trabalha no estudo e tratamento do HIV/Aids desde que se iniciou a epidemia nos anos 1980 e que implantou em Nova Friburgo o Programa de Aids e Hepatites Virais, alerta para a importância da prevenção, tema constante dos programas de combate à epidemia.

“Definimos Aids quando a pessoa infectada passa a ter os sintomas relacionados à doença”, esclareceu, acrescentando que ela pode se manifestar muitos anos depois de a pessoa ter sido contaminada pelo vírus HIV. Não obstante, algumas semanas após o contágio, pode ocorrer o que se chama de síndrome da soroconversão:

“A pessoa tem um leve adoecimento, parece uma virose, às vezes uma febre prolongada, dor de garganta. É o momento em que os anticorpos estão se transformando de negativos para positivos, reativos. Com o tempo, estes sintomas desaparecem, e o infectado pode ficar muito tempo sem voltar a senti-los. O grande risco é que a pessoa infectada pode transmitir o vírus para outras pessoas, embora ainda não se sinta doente. Dependendo da carga viral que ela recebeu, dependendo de questões genéticas individuais, ela (a pessoa infectada) pode demorar um tempo x ou y para adoecer”, ressaltou a especialista.

Alguns sintomas podem trazer indícios de que a doença começou a se manifestar: fraqueza, infecções recorrentes, perda de peso e eventualmente herpes-zóster, “que é uma infecção viral que precede o aparecimento da doença em si”. A infectologista alerta para a importância da detecção precoce, pois, assim, a resposta ao tratamento é melhor, permitindo ao paciente uma expectativa de vida semelhante ao de uma pessoa que não tenha o vírus.

Uma nova fase da epidemia

Segundo o relatório da Unaids, levando-se em consideração o perfil epidemiológico do Brasil, que deixa à mostra a vulnerabilidade dos jovens, o Ministério da Saúde (MS) desenvolveu estratégias para promover a prevenção do HIV neste grupo de indivíduos, com atenção especial ao público gay jovem e travestis. Acerca disso, Delia faz uma interessante análise sobre essa nova fase da epidemia:

“De 1980 a 2017, foram registradas 576.245 casos em homens e 306.444 casos em mulheres. E o que se vê é que, apesar de a taxa de detecção vir caindo nos últimos anos, (…) houve aumento na taxa de detecção em jovens com idade entre 13 e 19 anos. Quer dizer, essas pessoas não viram seus ídolos morrerem. A gente tem Cazuza, Renato Russo, temos agora o filme do Freddie Mercury mostrando tudo o que aconteceu naquela época e que marcou uma geração. Mas hoje, como as pessoas já não estão mais morrendo em virtude do tratamento, percebemos que os jovens não estão se preocupando tanto com a prevenção. E isso não só entre os jovens, mas também entre homens e mulheres com mais de 60 anos. É uma nova fase da epidemia, em que parece que as pessoas não se  assustam mais com o HIV/Aids.”

 Ao fazer uma análise dos dados do MS, a infectologista ressalta que o grupo masculino com maior incidência de infecção pelo vírus está na faixa etária de 35 a 39 anos. Quando se trata especificamente do Sudeste, um fato digno de nota é que 46% destes homens se classificavam como homossexuais, enquanto 54% se declararam heterossexuais. Uma quebra daquele velho estereótipo   disseminado com o surgimento da doença, apelidada à época de câncer gay.

 Já o estudo realizado entre o público feminino mostra que, além das mulheres com mais de 60 anos de idade, outro grupo etário com grande incidência é a de mulheres com idade entre 15 e 19 anos, o que serve como importante alerta:

“Quando a gente vê essas idades tão iniciais, entendemos que é importantíssimo que a escola aborde orientação sexual, que a escola aborde como evitar as doenças sexualmente transmissíveis e o HIV, porque essa população passa a maior parte do seu tempo nas escolas. Lá é um lugar importantíssimo para se abordar isso.”

Desta maneira, um dado interessante chama a atenção: 77% dos portadores do vírus HIV têm mais de 12 anos de estudo formal. Teoricamente, essas pessoas deveriam ter mais acesso a condições de entender as orientações de preservação e tratamento.

Das formas de transmissão do HIV, vale destacar as mais clássicas, como através de relação sexual desprotegida, incluindo sexo oral; contaminação vertical (através da gestação sem tratamento); transfusão sanguínea (embora o controle hoje seja rigoroso e eficaz); compartilhamento de canudo (entre cocainômanos) e de seringas (heroinômanos) etc. Outra questão merece destaque, segundo Delia:

“Vivemos um momento, no mundo e no Brasil, de violência sexual. O número de estupros é muito maior do que as pessoas imaginam. Recebemos frequentemente pessoas que vivenciaram uma violência sexual com estupro, e esta pessoa também tem 72 horas para procurar atendimento médico público e receber a terapia antirretroviral para diminuir a chance de contaminação.”

Contaminação Vertical

Outro tema levantado por ela se refere à “maior epidemia de sífilis da história”, outro agravante para uma eventual contaminação pelo vírus HIV:

“A concomitância de uma infecção sexualmente transmissível favorece a penetração do vírus HIV. A sífilis é um problema hoje nas gestantes, porque as chances de transmissão para a criança é grande. O Brasil gasta muito dinheiro tratando crianças nascidas de mães com sífilis, e quando você fala em aumento de sífilis, você pensa em HIV em gestante também”, enfatizou.

Atualmente, o teste anti-HIV é obrigatório para gestantes, como forma de evitar a transmissão para o recém-nascido (transmissão vertical), levando para praticamente zero o risco de uma criança nascer com o HIV. Neste quesito, Nova Friburgo recebeu um prêmio por ter sido uma das cidades (com mais de 100 mil habitantes) por reduzir a zero as transmissões verticais. Ou seja, este trabalho realizado com as gestantes tem garantido que nenhuma criança nasça com o vírus.

Terapia antirretroviral

A terapia antirretroviral é um mecanismo que contribui significativamente para a supressão da carga viral a níveis indetectáveis. Além de proporcionar qualidade de vida, reduz a quase zero a possibilidade de infectar outras pessoas através de relações sexuais.

De acordo com dados do MS, um estudo brasileiro realizado com mais de 100 mil pacientes em início de terapia antirretroviral comprovou a maior efetividade do medicamento Dolutegravir® (DTG), distribuído gratuitamente para o SUS, para o tratamento do HIV quando comparado a outros antirretrovirais. Os resultados do estudo demonstram que o tratamento com DTG associado ao Tenofovir® e Lamivudina® foi 42% mais eficaz na supressão da carga viral do paciente em tratamento, em relação ao esquema “3 em 1”, combinação dos antirretrovirais Efavirenz®, Tenofovir® e Lamivudina®, esquema utilizado antes da introdução do Dolutegravir®.

“Acho que hoje as medicações são muito melhores do que as do início da epidemia: o número de comprimidos é menor, os efeitos colaterais são menores e mais conhecidos. Os estigmas para quem está tomando a medicação são menores, porque não dão aquela aparência de quem está em tratamento antirretroviral. E temos a oportunidade também de oferecer a medicação para quem teve uma relação sexual de risco: esta pessoa tem 72 horas para fazer o uso da medicação. Com essa medicação de antirretroviral durante 28 dias, você diminui a chance da pessoa se contaminar. Portanto, por outro lado, muita coisa melhorou também, nos tempos de hoje”, avaliou Delia.

Atualmente, ainda não foi descoberta uma cura efetiva, não obstante o incessante empenho da comunidade científica no combate à epidemia.

Realmente, hoje é praticamente uma doença crônica, mas também é uma doença que te obriga a ir ao médico com frequência, fazer exames com regularidade e tomar remédios todos os dias da sua vida, até a descoberta da cura, que sabemos, ainda vai demorar muitos anos”, completou.

Com as medicações modernas das quais dispomos hoje, é de suma importância que qualquer pessoa faça esse exame em algum momento de sua vida, especialmente se a pessoa se expôs em situações de risco. Os exames atuais, mais modernos, conseguem detectar a presença do vírus duas semanas após a exposição. Caso o resultado seja positivo, o início imediato do tratamento pode garantir qualidade e expectativa de vida como a de uma pessoa que não tem o HIV.

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