Os friburguenses que desbravaram Rio das Ostras

Pioneiros contam suas lembranças
sábado, 02 de fevereiro de 2019
por Jornal A Voz da Serra
Os amigos Fátima, Nubia, Edser e Ângela nas areias de Rio das Ostras no início dos anos 80 (Fotos de arquivos pessoais)
Os amigos Fátima, Nubia, Edser e Ângela nas areias de Rio das Ostras no início dos anos 80 (Fotos de arquivos pessoais)

Angela Schuabb

“A primeira vez que fui a Rio das Ostras, eu tinha uns 8 anos. Saímos de madrugada, da casa do meu avô. Éramos uma turma grande, entre pais, irmãos, tios, primos, divididos em vários carros, levando sanduíches. Como um amigo do meu tio Valter fez muitos elogios, dizendo que era um lugar maravilhoso, perto de Friburgo e bem mais tranquilo que Cabo Frio e outras praias, fomos conhecer.

Ficamos na Praia do Cemitério, para passar o dia e voltar à noite. Adoramos o lugar, o mar sem onda, uma maravilha. A gente comia e corria para a água, era como um piquenique na praia. Éramos uma turma animada, lembro do Tulinho e vários amigos do Cesar, meu primo, Marquinho Felga, uma cambada! À tardinha, meu pai achou melhor a gente ficar num hotel ali próximo, porque a turma adulta já estava toda bêbada. Só voltamos no dia seguinte.

A partir dessa primeira vez, acho que foi em 1965 ou 66, a família passou a se juntar para alugar casa, pra gente ficar mais tempo, inclusive uma no Bosque, do dr. Bussinger, que era advogado. A gente adorava, era uma delícia, perto de tudo. Depois de um tempo, resolveram comprar uma casa na Costa Azul, que na época não tinha nada, nem uma barraca de água ou de picolé. Nossa família foi pioneira ali na Costa Azul. Muitas amigas chegaram a ir conosco, antes de seus pais comprarem suas casas também. A gente chegava em casa morrendo de sede, porque era difícil pra garotada carregar água ou qualquer alimento.

Daí pra frente se tornou um hábito ir pra Rio das Ostras. Íamos no Natal e em janeiro a gente ficava o mês inteiro. Depois comecei a namorar meu ex-marido, que ia pra lá também, e quando nos casamos, passamos a alugar pra temporada, até comprarmos a nossa casa. Levávamos nossos filhos, assim como eu ia com minha família. Passei uma infância e juventude maravilhosa em Rio das Ostras.

Era tanta liberdade... a gente andava pelas ruas de terra à noite, cantando, tinha a boate Canto da Sereia. Naquela época não tinha esse negócio de ficar controlando se tinha menor bebendo, não, todo mundo bebia, descansava na praia e depois ia pra casa. Era muito bom! De manhã, sempre tinha um primo sacaneando a gente, escondendo os nossos biquínis de manhã … essas coisas. Naquela época, Rio das Ostras era muito legal, tinha muito mineiro, paulista, então, para paquerar era ótimo. Rio das Ostras marcou muito a minha vida!”

Nubia Thedim

“Eu vou para Rio das Ostras desde 1975. Meu pai tinha uma casa perto da lagoa da Coca Cola, o que era maravilhoso, porém naquela época não tinha celular, ou seja, quando chegávamos, tínhamos que enfrentar uma fila enorme no orelhão para mandar notícias para nossos familiares. Quando queríamos comer um hambúrger ou pizza tínhamos que ir para Macaé, pois Rio das Ostras não tinha nada disso. Era muito bacana, chão de terra batida, pessoas diferentes de todos os lugares, Rio, Niterói, Minas Gerais etc... Nas praias não existiam quiosques ou bares, só algumas casas. Adorava passar minhas férias lá. Voltar das férias “preta” de Raíto de Sol, era um luxo. Agora, minha casa é na praia Boca da Barra, está tudo muito mudado, mas continuo indo para a praia Costa Azul.”

Marga Farah

“A aventura que era ir daqui até Rio das Ostras começava na estrada Serra Mar. Era um atalho e posso dizer que desbravamos um pouco esse trajeto. Era uma trilha, e se o carro saísse do caminho, caía. Muitas vezes desci do carro e fiz percursos a pé com lama até o joelho, tamanho era o perigo. A viagem era longa, com paradas obrigatórias para beber (não havia lei seca). Desde Lumiar, no Bar do Vovô, passando por Sana, Casemiro, Rio Dourado e, finalmente, Rio das Ostras.

Eram quase oito horas de aventura, e mesmo assim, era uma alegria só. Podíamos desfrutar da tranquilidade que aquela cidade praiana nos oferecia, com suas deliciosas moquecas e peixes fritos em restaurantes nativos. E sem nos preocuparmos com o ‘footing’ dos nossos filhos à noite.

Íamos à Praia do Cemitério, onde ficava a barraca da Nilzete e do Juscelino que tinha o melhor peixe e camarão. Já na Praia do Bosque tinha a barraca do senhor Zezinho, com o melhor bolinho de aipim. Maurício fechava a barraca do Pica-Pau e pagava a conta de todos. Comprava o isopor de picolé e distribuía para as crianças. E perguntava: ‘Quem quer caipirinha?’ O picolé de limão era o seu coadjuvante.

Maurição chegou a ir de Rio das Ostras até quase Macaé, de quadriciclo, pela areia. Um dia tentou atravessar a Lagoa da Coca Cola, quando a maré estava baixa. O veículo afundou e acabou ficando por lá. Eram muitas loucuras!”

Marília Ruiz

“Rio das Ostras era como um bairro de Friburgo para os adolescentes dos anos 1980. Praia sem hora, sem protetor, com os amigos do colégio, depois, da faculdade. Encontrávamos todo mundo: velhos, adultos, jovens e crianças. Muitos tinham casas por lá, outros se hospedavam em qualquer lugar. De fato, Friburgo morava na praia no verão.

A barraca do Pica Pau, na Praia do Bosque (apelidada de Praia do Oi, pelos friburguenses), era a nossa cozinha. Tínhamos talão de tíquetes para bebida e comida, para o mês inteiro. Sem internet, jogávamos Master, Imagem e Ação, Banco Imobiliário, que rolava noite adentro, assim como sorvetes e pizzas no ‘Paradinha’, onde também, quem queria beber, bebia! Foram momentos felizes, muito alegres. Hoje, fica claro que o lugar onde estão os amigos é sempre o melhor lugar para se estar.

Como anfitrião, o Maurição, meu pai, foi sempre exagerado. E Marga, minha mãe, deixava o melhor esquema do mundo pra nós: apê completamente abastecido e uma funcionária que fazia limpeza e ainda deixava nossos lanches prontos. Também podíamos levar amigos e primos. Eu amava andar de bicicleta de biquíni, magrinha, assistir futebol de praia feminino, no qual minha irmã, Marcia, além de ter o corpo mais lindo da praia, era a líder de Friburgo. Sem nostalgia, mas com alegria, vale pensar em Rio das Ostras 80’s!”

Roberto Galvez, conhecido corretor de Friburgo, é proprietário de uma casa na Praia das Tartarugas, desde 1977. Ele preferia ir para a Região dos Lagos pelo caminho tradicional, evitando a Serramar. Lembra que a cidade era toda de chão batido, com praias quase desertas, bem diferente dos tempos atuais. Galvez compara a Praia de Costa Azul, atualmente toda asfaltada, com a região da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Diz que até hoje, aquele pedacinho do litoral do Estado é seu refúgio para descansar e passar as férias. E confessa: é um apaixonado por Rio das Ostras.

Dileia Rangel e o marido, Luís, construíram a primeira casa em 1973, no Centro, perto da Praia do Cemitério. Antes disso, se hospedavam na casa de seu irmão, Gilson Rangel, no bairro Mariléia. Ela conta que a família ia após o Natal e ficava até o início das aulas das crianças, que na época era em março. Como Rio das Ostras era frequentada em sua grande maioria, por fribuguenses, quase todo mundo se conhecia e acabava se encontrando na praia. Ali, na tranquilidade daquele espaço e diante da mansidão do mar, as famílias desfrutavam das férias, sem maiores preocupações: as crianças brincavam e se divertiam à vontade. Em sua casa, como em tantas outras, recebiam os amigos como se fossem da família. Hoje, seu imóvel está alugado, mas Dileia ainda se lembra com saudade de um flamboyant, motivo constante de admiração das pessoas que aproveitavam a ocasião para fazer fotos da bela árvore.

A rica história de Rio das Ostras

A história de Rio das Ostras é comprovada por meio de relatos de antigos navegadores que por lá  passaram, como o sapateiro da expedição de Villegagnon, em 1510, Jean de Lery; o naturalista Augustin François César, Prouvençal de Saint Hilaire; o príncipe alemão Maximilian Alexander Philipp Zu Wied Neuwied; e, em 1847, o imperador D. Pedro II, que descansou à sombra da hoje centenária figueira à beira-mar, após ser recebido com bandas de música e folguedos, conforme noticiaram os jornais da época.

Situada na Capitania de São Vicente e habitada pelos índios tamoios e goitacases, Rio das Ostras tinha a denominação de Rio Leripe (molusco ou ostra grande), ou Seripe. Parte das terras da Sesmaria cedida pelo capitão-mor governador Martim Correia de Sá, em 1630 foi delimitada com dois marcos de pedra, colocados em Itapebussus e na barreta do rio Leripe, com a insígnia do Colégio dos Jesuítas.

Os índios e os jesuítas deixaram suas marcas nas obras erguidas, como o da antiga igreja de Nossa Senhora da Conceição, o poço de pedras e o cemitério, com ajuda dos índios e dos escravos. Após a expulsão dos jesuítas em 1759, a igreja foi concluída no final do século 18, provavelmente pelos Beneditinos e Carmelitas. Em ruínas, o que restou do prédio desmoronou totalmente no século 20. Próximo ao local onde se situava, foi construída uma nova igreja, em 1950.

Como rota de tropeiros e comerciantes rumo a Campos e Macaé, Rio das Ostras teve um progressivo desenvolvimento com a atividade da pesca, que foi o sustentáculo econômico da cidade até os meados do século passado. A construção da Rodovia Amaral Peixoto, a expansão turística da Região dos Lagos pela instalação da Petrobras em Macaé, foram de extrema importância para o crescimento e desenvolvimento de Rio das Ostras, que viu sua população crescer até chegar ao momento de sua emancipação político-administrativa, do município de Casimiro de Abreu, em 10 de abril de 1992.

Sal e sol a gosto

Com 230 km² de área total, a cidade oferece atraentes caminhos para quem curte a natureza. Atualmente, está entre os municípios de maior taxa de crescimento demográfico no estado, cerca de 10% ao ano, assegurando uma boa infraestrutura para todo tipo de turista: 60 hotéis e pousadas oferecem mais de 2.500 leitos, além de uma infinidade de bares, restaurantes e quiosques com o melhor da gastronomia regional, onde festivais como os de frutos do mar, pizza e petiscos, se destacam. A cidade também realiza eventos que estão no calendário nacional, como carnaval, réveillon, além de shows musicais que atraem milhares de visitantes, ao longo do ano.

Em 15 praias, que se estendem por 28km, o visitante encontra águas calmas, ideais para banhos e para  brincadeiras das crianças. Mas, quem prefere emoções radicais também conta com praias perfeitas para esportes como o surfe e o bodyboard. É neste paraíso que friburguenses repõem as forças e voltam para casa ainda mais energizados.

Museu de Sítio Arqueológico Sambaqui da Tarioba

Inaugurado em 1998, o museu é um dos únicos “in situ” do Brasil. Está aberto à visitação pública com exposição permanente de peças catalogadas por época, origem e denominação pelo Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB), em reconstituição da pré-história da região.

Possui uma área escavada com restos de esqueletos e exposição de objetos de adorno, ostras gigantes, conchas, pedras (batedores e quebra-coquinhos), que caracterizam a ocupação de uma antiga civilização estimada entre 4 mil anos.

O Sítio Arqueológico foi registrado com o nome Tarioba pelo próprio IAB em 1967. O termo sambaqui é de origem tupi-guarani e significa acúmulo de conchas. Em 2003 recebeu importante revitalização com instalação de sistema interno de som, vitrines e projeto de iluminação novos para melhor visualização do material exposto.

Localização: Rua Dr. Bento Costa Júnior, 70. Funcionamento: de terça a sexta-feira, de 9h às 18h.

 

 

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