O trabalho de duas friburguenses que fazem a diferença

Alice Freitas e Rachel Schettino trocaram vidas pessoais estáveis e carreiras promissoras por negócio social
quinta-feira, 08 de março de 2018
por Ana Borges (ana.borges@avozdaserra.com.br)
Alice e Rachel comandam a Rede Asta, um negócio social que trabalha com associações, cooperativas e grupos produtivos (Arquivo pessoal)
Alice e Rachel comandam a Rede Asta, um negócio social que trabalha com associações, cooperativas e grupos produtivos (Arquivo pessoal)

Elas são friburguenses e trocaram suas vidas pessoais estáveis e carreiras promissoras por um negócio social. Alice estudou no Externato Santa Ignêz, depois se formou em Direito e um dia decidiu conhecer o lado menos turístico, digamos assim, de outros países. Rachel estudou no Colégio Anchieta, depois cursou Relações Internacionais e foi trabalhar numa multinacional, na Suíça. Mas, tal como a amiga, também resolveu botar o pé na estrada para descobrir novas culturas. Ambas estavam em busca de um propósito para suas vidas.

Aos 15 anos, Alice Freitas fez intercâmbio na Tailândia. A experiência despertou sua curiosidade sobre outros povos e suas culturas. Motivada, retomou as viagens, desta vez acompanhada de Rachel Schettino. Mochilas nas costas, foram a Índia, Bangladesh, Tailândia e Vietnã, ansiosas para conhecer os mais diversos aspectos sociais das comunidades locais, e aproveitando para pesquisar os setores de saúde, de geração de renda e de educação. Na volta, Alice trabalhou dois anos no AfroReggae e conheceu as favelas. E a cada novidade, se sentia mais atraída pelo desejo de transformar as vidas das pessoas com as quais passou a se relacionar.

Reencontrou Rachel Schettino, e, já que ambas queriam a mesma coisa, criaram a Rede Asta, um negócio social que atua na economia do feito à mão desenvolvendo artesãs em empreendedoras que transformam resíduos em produtos. Cada uma ficou com um setor: Alice é responsável pela área de impacto social, e Rachel, pela de negócios. A loja funciona na Rua Gago Coutinho, 66, loja A, Laranjeiras, Rio, e tem um escritório em São Paulo.

“Trabalhamos para que pessoas e resíduos tenham a chance de um novo começo. Conectamos grupos de artesãs de todo o Brasil para criação e desenvolvimento de soluções sustentáveis e criativas de reaproveitamento de resíduos”, explicou Alice, acrescentando que hoje o negócio gera uma renda de R$ 5 milhões para 76 grupos de artesãos, com 1.200 pessoas envolvidas, das quais, 90% são mulheres, espalhados por dez estados. Em Nova Friburgo, a Asta apoia um grupo da Oficina das Ervas de Galdinópolis.       

Em resumo, a Rede Asta trabalha com o fortalecimento de empreendimentos produtivos da base da pirâmide pelo acesso a mercados, conhecimentos e criação de redes, com vistas a contribuir para a diminuição da desigualdade social. “As mulheres passam a ter renda própria e, consequentemente, ganham independência financeira. Além de resgatarem a autoestima e a cidadania, essas mulheres geram bons exemplos para os filhos e muitas vezes, contribuem para evitar a violência doméstica”, comentou Rachel, analista de comércio exterior.      

Na Índia, a inspiração

“Eu ganhava bem, tinha uma vida estável e confortável. Mas faltava um propósito na minha vida. Vinha ao Brasil nas férias e pensava: ‘O que adiantava eu estar lá? Não estava fazendo diferença para ninguém, não estava dando oportunidade nem a mim mesma. Estudei nos melhores colégios, viajei, morei no exterior, enfim. Mas, eu queria mais’”, lembrou Rachel.

Por sua vez, foi na Índia que Alice descobriu o que queria fazer. “Ao ver aquelas mulheres indianas, bordando seus saris, lindos, resolvi que queria me dedicar à geração de renda, não queria trabalhar para uma empresa que só tem por objetivo gerar lucro para os acionistas. Não fazia mais sentido. Meus pais são médicos, estabelecidos em Friburgo, tive todas as oportunidades que alguém pode querer. Até tentei seguir um caminho mais fácil, mas não me trazia felicidade, me incomodava. Queria poder proporcionar uma transformação real para as pessoas. Ainda mais num país como o nosso. Eu tinha 23 anos e energia suficiente para iniciar este trabalho”, contou.

No começo, em setembro de 2005, o negócio era voltado para o varejo e o atacado. Não funcionou. Criava uma dependência das sócias em relação à Asta, e aí havia três grandes gaps: falta de comercialização, que gera pouca renda; falta de acesso a um conhecimento específico para o negócio; e isolamento, já que não participavam de nenhuma rede. E elas precisavam de autonomia, o que alcançaram ao vislumbrar um “norte” para ter o seu negócio em suas próprias mãos. E descobriram que precisavam de um tripé baseado em rede, renda e conhecimento. Desde então, não se limitam, por exemplo, a só vender para uma única loja. São vários os canais de venda.

Outra meta que alcançaram foi a criação da Escola de Negócios das Artesãs, batizada de Entusiasta, uma escola off-line e que está sendo lançada também numa plataforma online. “A escola tem como alvo a área de mercado, portanto, não é para o público final, mas para as lojas, as empresas. Já na área de rede, (círculo da empreendedora), estamos trabalhando num piloto, que deve ser formado por pequenos grupos de dez pessoas para formar microredes. "A inovação é dar um destino para aquilo que seria descartado. É a transformação do resíduo", destacou Rachel.

O primeiro foco da Asta são as empresas, que devem contratar a rede, que por sua vez estuda o possível material a ser reaproveitado. Por exemplo: “A sobra de tecidos de uniformes de uma empresa, que iria para o lixo, pode ser transformada em necessaires. Se a empresa prefere que a mão de obra utilizada esteja no seu entorno, a Asta estuda esse local, descobre os talentos que residem ali, e viabiliza o trabalho com aquela comunidade. São inúmeros os materiais que podem ser reaproveitados: jornais, papéis, pets, latinhas, malotes bancários, entre muitos outros. No Brasil, o “normal” é que tudo isso vá parar no lixo, mas, ao contrário, transformou a vida de muita gente simples. Essa é a minha missão, somar experiências e repassar conhecimento para ensinar e capacitar pessoas para a criação," ressaltou Alice, lembrando que um negócio fechado com empresas ou um pool de empresas, pode chegar a 30 ou 40 mil peças produzidas. “São peças inclusivas para quem faz e exclusivas para quem compra. É um consumo com história”, reiterou Alice, lembrando que “as artesãs fazem produtos modernos, coloridos, elegantes, autênticos e de bom gosto”.

 

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TAGS: mulheres