O exemplo de Vieira

Localidade‭ ‬vizinha,‭ ‬em Teresópolis,‭ ‬é lição de renascimento e iniciativa popular
quarta-feira, 13 de janeiro de 2016
por Jornal A Voz da Serra
Foto de capa
(Foto: Henrique Pinheiro)

Texto:‭ ‬Márcio Madeira
Produção:‭ ‬Henrique Pinheiro

Passados cinco anos desde as chuvas de janeiro de‭ ‬2011,‭ ‬beira o inacreditável constatar que nenhuma residência foi entregue às vítimas em Teresópolis‭ ‬— ‬ainda mais quando é de conhecimento geral que várias delas chegaram a ser construídas.‭ ‬Também não são poucas as denúncias a respeito de falhas na aplicação de programas de auxílio como o aluguel social,‭ ‬seja no pagamento a quem não precisa,‭ ‬seja na falta de pagamento a quem faz por merecer e necessita.‭ ‬Da mesma forma,‭ ‬uma apuração mais aprofundada em relação ao número de vítimas sugere que em Teresópolis pode existir sim uma discrepância significativa entre as listas de domínio público e a realidade observada em campo.‭ ‬Basta dizer,‭ ‬a este respeito,‭ ‬que dos‭ ‬13‭ ‬nomes levantados pela equipe de A VOZ DA SERRA,‭ ‬nada menos do que sete não constavam em cadastro algum.

A aparente falta de‭ ‬apoio institucional,‭ ‬no entanto,‭ ‬convive com‭ ‬— ‬e talvez até mesmo explique‭ ‬— ‬uma série de bons exemplos de união e iniciativa comunitária,‭ ‬que,‭ ‬somados,‭ ‬proporcionaram à localidade de Vieira,‭ ‬nas palavras dos próprios moradores,‭ ‬mais qualidade de vida atualmente do que antes da catástrofe.

Alguns personagens foram centrais para o sucesso desta mobilização,‭ ‬e um deles é o jovem advogado Renato Schuenck,‭ ‬à época com apenas‭ ‬28‭ ‬anos.‭ ‬“A comunidade se reuniu logo após a tragédia,‭ ‬e eu orientei a população a usar o que recebiam do aluguel social para comprar um terreno e erguer novas casas.‭ ‬Também recebemos muitas doações,‭ ‬e o trabalho em mutirão rendeu‭ ‬16‭ ‬novas residências para famílias que haviam ficado desabrigadas.‭ ‬Foi um trabalho muito gratificante‭”‬,‭ ‬relembra.

E o suporte não parou por aí,‭ ‬uma vez que Renato dedicou-se pessoalmente a dar andamento a processos de morte presumida,‭ ‬ajudando diversas famílias a passar pelo momento mais difícil de suas vidas.‭ ‬Da mesma forma,‭ ‬houve diversos casos de apoio externo,‭ ‬como um pastor de Santa Catarina,‭ ‬cujo nome os moradores ouvidos não souberam informar,‭ ‬que organizou doações e conseguiu proporcionar um lar para pessoas duramente atingidas pela desgraça,‭ ‬como o agricultor Ezequias Simpliciano,‭ ‬que perdeu nove familiares‭ ‬na madrugada daqueloe fatídico‭ ‬12‭ ‬de janeiro.

Como resultado a localidade acabou por renascer,‭ ‬mais bonita e diversificada.‭ ‬“A melhor metáfora é a da Fênix,‭ ‬que renasce das próprias cinzas.‭ ‬Vieira era um lugar bem parado.‭ ‬Quase não tinha comércio,‭ ‬a maior parte era composta por bares e mercearias.‭ ‬Mas depois da tragédia as pessoas se mobilizaram e começaram a trazer coisas novas para cá.‭ ‬Não havia uma farmácia,‭ ‬hoje tem.‭ ‬Hoje tem‭ ‬até‭ ‬uma boa academia de ginástica...‭ ‬O comércio diversificou.‭ ‬Lamento apenas que uma catástrofe tenha sido necessária para gerar este tipo de mobilização‭”‬,‭ ‬avaliou Rondineli da Silva Oliveira Moreira,‭ ‬responsável pela barbearia local.

Opinião parecida foi manifestada pela comerciante Varlene Canto,‭ ‬cujo restaurante é apropriadamente chamado de Vitória.‭ ‬“Vieira ficou num estado terrível...‭ ‬Muita lama,‭ ‬muitas pessoas chorando sem saber o que fazer.‭ ‬Estávamos isolados,‭ ‬não havia como sair.‭ ‬Foi algo desesperador,‭ ‬as pessoas precisando de ajuda,‭ ‬muita gente morta...‭ ‬Toda hora passavam aqueles carros carregados de corpos,‭ ‬foi terrível.‭ ‬E,‭ ‬para enfrentar aquela situação,‭ ‬todo mundo se uniu,‭ ‬um ajudou o outro,‭ ‬todo muito foi reconstruindo as suas casas e se ajudando mutuamente.‭ ‬Todo mundo limpou,‭ ‬todo mundo se ajudou,‭ ‬e nós também recebemos muitas doações.‭ ‬Hoje está melhor do que era.‭ ‬Várias lojas novas,‭ ‬um mercado maior,‭ ‬e as próprias casas ficaram mais bonitas.‭ ‬Infelizmente tudo isso aconteceu a partir de uma tragédia que foi terrível,‭ ‬mas ela obrigou a população a se unir e a fazer acontecer‭”‬.

Sempre ao lado‭ ‬do restaurante,‭ ‬faça chuva ou faça sol,‭ ‬um bravo sobrevivente da tragédia incorpora na própria carne um resumo do que foi a disposição do povo de Vieira para renascer conjuntamente a partir do desafio,‭ ‬sem esperar por apoio externo.‭ ‬Trata-se do cachorro Bocão.

‭“‬Na tragédia,‭ ‬todo o distrito estava cheio de lama,‭ ‬e ele veio junto com a enxurrada e ficou às margens do rio.‭ ‬Eu vi que tinha um cachorro por lá,‭ ‬e fui ver por que ele não saía de onde estava.‭ ‬Levei comida e percebi então que ele tinha uma abertura‭ ‬enorme no corpo,‭ ‬que já estava até dando bicho.‭ ‬Eu não tinha remédio,‭ ‬então tivemos que improvisar a limpeza com produtos que haviam sido doados para desinfetar objetos.‭ ‬Sua dor foi tremenda e eu chorava junto com ele,‭ ‬mas felizmente o ferimento fechou e‭ ‬ele está com a gente até hoje,‭ ‬não nos deixa por nada.‭ ‬Fizemos um lugar para ele,‭ ‬e quando precisamos sair por algum motivo ele não para de chorar.‭ ‬As pessoas dizem que preciso me desfazer dele,‭ ‬por ter um restaurante.‭ ‬Mas não claro que não faremos isso nunca.‭ ‬Ficamos amigos e ele já entrou para a família‭"‬,‭ ‬afirma Varlene,‭ ‬que preferiu não ser fotografada,‭ ‬ao narrar uma entra tantas histórias inspiradoras ocorridas num dos epicentros da maior tragédia já registrada no Brasil.

A propósito,‭ ‬o fiel Bocão hoje sofre com o que foi diagnosticado como ácido úrico,‭ ‬e está com dificuldades para andar.‭ ‬Caso alguém deseje ajudar e queira fazer parte desta bela história,‭ ‬ele é muito fácil de se encontrar.

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Bocão (Foto: Henrique Pinheiro)
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