Nova Friburgo, quem diria, teve dois Monsenhores Miranda

Cem anos separam padre e escritor que dá nome a rua, do sacerdote que ajudou a fundar colônia
sexta-feira, 09 de março de 2018
por Ana Borges (ana.borges@avozdaserra.com.br)
Foto de capa
A placa da rua falando do Monsenhor Miranda mais recente (Fotos: Henrique Pinheiro)

José Silvestre Alves de Miranda, o Monsenhor Miranda que dá nome à conhecida rua transversal à Praça Getúlio Vargas, no Centro, foi uma importante figura no cenário friburguense, que aqui chegou em 1884. Foi vigário da Paróquia São João Batista por 52 anos e escreveu três livros significativos para a história do município. Dois deles estão disponíveis na Biblioteca Digital do Arquivo Pró-Memória.

Editado em 1918, o Centenário de Nova Friburgo - Histórico da Paróquia de S.João Batista retrata o ponto de vista religioso da história da cidade. Nele, o Monsenhor Miranda conta como o catolicismo se estabeleceu em Friburgo. Dois anos depois, em 1920, foi publicado o Centenário Paroquial, em comemoração à “memorável data de criação desta aprazível e muito amada Paróquia de São João Batista”.

Faleceu em 6 de janeiro de 1936, e seu corpo foi sepultado na Matriz São João Batista.

Outra importante figura, igualmente conhecida como Monsenhor Miranda, e ligada à fundação do município, foi Pedro Machado de Miranda Malheiro. Embora 100 anos separem as duas biografias, vale a pena conhecer também esta história:

* Vila Guimarães, Portugal, 1780

+ Rio de Janeiro, Brasil, 1838

Pedro Machado de Miranda Malheiro nasceu na Vila de Guimarães, província do Minho, em Portugal. Era doutor em “Cânones” e bacharel em Filosofia pela Universidade de Coimbra - pela qual foi premiado  -, e substituto da cadeira de História Eclesiástica. Sacerdote, militar e magistrado luso-brasileiro, foi também Monsenhor da Santa Igreja Patriarcal de Lisboa.

Como militar, combateu os franceses em 1808, na condição de sargento-mor do batalhão dos privilegiados voluntários de Nossa Senhora de Oliveira da Vila de Guimarães. Promovido a major, em 1810 foi nomeado desembargador do Paço. Veio para o Brasil junto com a corte de Portugal, e aqui foi nomeado chanceler-mor do reino do Brasil.

De 1819 a 1821 foi inspetor da colônia de Nova Friburgo, responsável pela construção e organização da mesma. Acompanhou D. João VI em seu retorno a Portugal, mas estando seu nome na lista dos proibidos de desembarcar em Portugal por ordem das cortes de Lisboa, retornou ao Brasil.

Proclamada a Independência do Brasil, naturalizou-se brasileiro. Foi um dos maiores defensores da imigração europeia, tendo atuado em sua promoção e organização no Brasil. Encarregava-se pessoalmente dos imigrantes alemães, sendo inclusive responsável por designar alguns, vistos como prejudiciais, para envio a colônias mais distantes, como foi o caso dos enviados para São João das Missões, no Rio Grande do Sul.

Trajetória

Em sua biografia oficial, consta que foram “notáveis e relevantes os serviços que prestou com zelo e patriotismo em sua terra natal, por ocasião da restauração do reino, desde 16 de junho de 1808, até a vinda para a Corte do Rio de Janeiro”. O príncipe regente D. João, reconhecendo os valiosos serviços de Monsenhor Miranda e a distinção com que se portou na restauração e defesa do reino, resolveu, em 24 de junho de 1810, nomeá-lo desembargador do Paço e da Mesa da Consciência e Ordens, concedendo-lhe a comenda da Ordem de Cristo.

Em 1817 foi nomeado chanceler-mor do reino do Brasil e em 6 de maio de 1818, nomeado inspetor da colônia de suíços em Nova Friburgo. O Canton de Fribourg da Confederação Helvética solicitou ao governo, em benefício de seus súditos, a faculdade de estabelecer, em algum ponto do Brasil, uma colônia de suíços, onde vivessem reunidos e desfrutassem da proteção do governo.

Em 16 de maio de 1818, D. João aceitou as propostas do agente do referido Cantão, Sebastién-Nicolas Gachet, permitindo-se o estabelecimento da colônia composta de cem famílias. Para esse fim foi escolhida “a localidade Morro Queimado, na província do Rio de Janeiro, criada em Vila, em 3 de janeiro de 1820, com a denominação de Nova Friburgo”.

“Relevantes foram os serviços de Miranda Malheiro, que revelou grande capacidade, inteligência e tino administrativo na fundação da colônia, escolha do terreno, medições e modo de fazê-las, distribuição das terras, diplomas de títulos, segurança das propriedades e criação do correio”.

Proclamada a Independência, adotou a nacionalidade brasileira e continuou no exercício de chanceler-mor do Império. D. Pedro I ainda agraciou Miranda Malheiro com o oficialato da Ordem do Cruzeiro, em 1825, e a Grã-Cruz da Ordem de Cristo, em 1826. Em 1828, o Conselho de Fazenda concedeu-lhe pensão anual de oitocentos mil réis, sendo em seguida nomeado ministro do Supremo Tribunal de Justiça. Em vista dessa nomeação deixou o cargo de chanceler-mor do Império.

Monsenhor Pedro Machado de Miranda Malheiro faleceu no Rio de Janeiro, em 9 de abril de 1838, e foi sepultado com as vestes de Cavaleiro, em catacumba da Igreja de Sant’Ana, demolida por ocasião da construção da Estrada de Ferro D. Pedro II.

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