“Não vejo Friburgo como uma cidade preconceituosa”

“Você tem que estudar, se formar, escolher uma boa profissão”, diz Mestre Fred a alunos que se queixam de racismo
quarta-feira, 20 de novembro de 2019
por Adriana Oliveira (aoliveira@avozdaserra.com.br)

 

 friburguense Paulo Frederico dos Santos Bandeira, o Mestre Fred, parece o atual time do Flamengo quando entra em campo: é gol atrás de gol. Atualmente lecionando para cerca de mil alunos, Fred dá aulas de música, canto coral e percussão em sete escolas, públicas e particulares, por todos os cantos de Nova Friburgo: Ponto de Cultura de Olaria, Canadá, Dante Magliano, Pontinha do Sol, Afape, Casarão de Riograndina e Templo do Saber. 

Só pelo projeto Ponto de Cultura, já ganhou 13 troféus este ano, em concursos estaduais. Atualmente com 380 alunos (a meta de Fred é 500), o Ponto de Cultura é uma importante ferramenta de socialização: formou cinco mil jovens desde 2007.

Aos 42 anos, desde os 9 na Imperatriz de Olaria, onde comanda a bateria nota dez, Fred driblou as dificuldades da vida e marcou um gol de placa quando, formado em contabilidade, decidiu trancar direito e se diplomar em música. Antes, num momento difícil, foi balconista do McDonald’s, ganhando 74 centavos por hora. Logo já virava funcionário do mês, com direito a fotografia na parede, e acabou ficando na empresa por cinco anos.

Nesta entrevista, com vídeo, e exclusiva para A VOZ DA SERRA, em homenagem ao Dia da Consciência Negra, ele fala de preconceito racial, cotas e o que considera mais importante: garra, estudo, foco e superação.

A VOZ DA SERRA: Fred, você mesmo já foi vítima de preconceito racial alguma vez? Ou, pelo contrário, a cor da pele de alguma forma reforça a sua identidade cultural, o orgulho, a brasilidade no mundo do samba, da percussão?

Mestre Fred: Por incrível que pareça, sofri preconceito fora do Brasil, no Paraguai, onde estava passando férias com a minha mulher. Parei o shopping, foi muito embaraçoso. Mas no Brasil nunca tive esse problema. Acho que você tem que se fazer presente, ser um profissional, com atitudes. Claro que preconceito existe em qualquer lugar, mas você não pode se agarrar a essa questão. 

Você acha Friburgo, fundada por suíços, uma cidade racista? Já testemunhou episódios de racismo contra outras pessoas?

Não. Meu pai conta, brincando, que quando veio de Niterói morar aqui os amigos diziam: quando chegar em Friburgo, presta atenção, porque lá negros andam numa calçada e brancos, em outra. Foi uma pegadinha! Não vejo Friburgo como uma cidade preconceituosa não.

E seus alunos,  sobretudo os mais humildes, negros, se queixam de sofrer preconceito no seu dia a dia? Em caso positivo, o que você diz a eles, que conselhos dá?

Já tive reclamações sim, de um olhar diferenciado em relação a eles. Eu digo: você tem que estudar, se fazer presente, se formar, escolher uma boa profissão. A única coisa que o governo não pode te tirar é seus estudos. Se você deixar a vida te levar, na música é bonito, mas na vida real a coisa não acontece dessa forma. 

O que você acha da celebração do Dia da Consciência Negra? Acha que efetivamente ajuda a conscientizar as pessoas, ajuda na luta contra o racismo?

É importante sim, é maravilhoso. É um dia especial, mas seria importante ter o dia da consciência negra, o dia da consciência branca, o dia da humanidade, não ter essa divisão de olhar. Nosso país teve uma história massacrante, mas a gente teve a força de mudar esse contexto. 

Você é a favor do regime de cotas, seja nas universidades ou nas empresas, ou acha desnecessário?

Sim, sou favorável, mas desde que a pessoa se esforce para estar lá. Eu, por exemplo, ingressei em vários cursos, concursos, e não me utilizei de cotas. Fui com a cara e a coragem. É preciso a pessoa estar a fim de estudar. 

 

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