Mão de Luva: nem nobre nem nascido em Portugal

Historiadora conta como era o líder do bando que se encontrava nos Sertões de Macacu (Cantagalo) garimpando ouro na Serra dos Órgãos
sábado, 21 de abril de 2018
por Sheila de Castro Faria*
Mão de Luva: nem nobre nem nascido em Portugal

A história de ocupação de Cantagalo tem um mito de origem, por ter sido lugar de garimpo ilegal de ouro, com um chefe de alcunha “Mão de Luva”. Pouco se sabia sobre sua origem, a não ser seu nome: Manuel Henriques.

Consolidou-se uma memória romântica sobre sua vida: teria sido um nobre português (duque de Santo Tirso), apaixonado pela princesa D. Maria, filha do rei D. José I, que se aliou à família Távora na conspiração contra o rei, em 1758. Os envolvidos foram enforcados, a mando do futuro marquês de Pombal, mas o duque teria sido poupado por interferência da princesa junto ao pai e condenado somente ao desterro para o Brasil.

Antes da partida, D. Maria teria ido ao calabouço onde o duque se encontrava e lhe dado um beijo na mão, motivo pelo qual passou a usar uma luva, para manter a memória da amada. Foi por isso alcunhado de “Mão de Luva”, e assim referido em documentos da segunda metade do século XVIII no Brasil. Mas, nada disso era verdade.

O historiador Rodrigo Oliveira (no seu mestrado, defendido em 2008 na Universidade Federal de Juiz de Fora (“Mão de Luva” e “Montanha”: bandoleiros e salteadores nos caminhos de Minas Gerais no século XVIII - Matas Gerais da Mantiqueira: 1755-1786) encontrou o seu processo matrimonial, datado de 1775, que o indica como nascido na freguesia de Ouro Branco, mas morador, no momento do casamento, na freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Guarapiranga, capitania de Minas Gerais.

Era filho de Manuel Henriques Malho, este, sim, natural de Lisboa, Portugal, e de Maria da Silva, natural de Guaratinguetá, capitania de São Paulo. Portanto, nem nobre nem nascido em Portugal. Manuel Henriques foi, mesmo, um contrabandista de ouro, ou seja, explorava ouro sem pagar imposto (o quinto real). Tudo indica que estava na região desde meados da década de 1770.

Foi nomeado como líder do “bando” que se encontrava nos Sertões de Macacu (Cantagalo) garimpando ouro, na serra dos Órgãos, por todos que a ele se referiam, sejam os administradores coloniais (vice-rei do Brasil, governador de Minas, etc.), sejam pessoas comuns que a ele se referiram quando presas na época da captura do bando.

Há um processo contra ele, da Inquisição portuguesa, de 1781, no qual várias testemunhas afirmaram ouvir do próprio Manuel Henriques muitas façanhas, como as que realizava com seus cavalos (saltar sobre casas, torná-lo bravíssimo com somente uma palavra sua), com a retirada de presos de cadeias, em fugir de oficiais que o queriam prender, em portar uma bolsa de mandinga, com a qual, dizia, estava protegido de qualquer mal que quisessem fazer a ele, etc.

Caso ele tenha realmente contado essas façanhas para os que estavam com ele nos Sertões, era uma forma de se fazer respeitar, que o temessem, mas para os inquisidores era uma demonstração clara de que tinha pacto com o demônio. Não há relatos que aludam a castigos ou mal tratamento infligidos por ele aos seus companheiros. Aparentemente, todos os respeitavam e o seguiam. Também não há relatos que o indiquem como assaltante, como outros de seu tempo, como o bando de Montanha, na Serra da Mantiqueira, este, sim, com seus camaradas, assaltava, roubava e matava viajantes que por lá passavam. Manuel Henriques era um garimpeiro ilegal, um contrabandista, aos olhos da Coroa Portuguesa.

Em 1786, as milícias enviadas pelo governador de Minas Gerais prenderam quase todos que estavam nas rancharias dos sertões, inclusive Manuel Henriques. Não se conhece seu destino, pois os processos criminais dos bandoleiros não foram encontrados. Daí não termos conhecimento da sentença pelos crimes cometidos. Mas, esperamos, muitos documentos sobre Mão de Luva ainda podem ser achados, como ocorreu com o processo da Inquisição e seu processo matrimonial, ambos descobertos há pouco tempo.


*Sheila Siqueira de Castro Faria é professora aposentada como titular em “História do Brasil” (UFF). Graduada em bacharelado e licenciatura em “História” (UFF 1980/1983) e mestrado e doutorado em “História” (1986/1994). Temas principais: escravidão, alforria, História da família, cultura material, história do cotidiano e cafeicultura escravista, no Brasil Colonial e Imperial.

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