"Jornalistas são raça em extinção"

quarta-feira, 08 de janeiro de 2020
por Marcio Madeira
Equipe de reportagem de A VOZ DA SERRA em Friburgo (Arquivo AVS)
Equipe de reportagem de A VOZ DA SERRA em Friburgo (Arquivo AVS)

Quando passei no vestibular para a cursar jornalismo – à época o segundo mais concorrido entre todas as carreiras, apesar de ser, muito provavelmente, a profissão de nível superior que pague a menor média salarial –, imaginava que não teria muito a aprender ao longo dos quatro anos de faculdade. Afinal, o que pode haver de tão especial assim em se narrar fatos? Qualquer um pode fazer isso, não?

O equívoco dessa impressão, todavia, ficou claro logo nas primeiras aulas. É somente quando nos dedicamos e estudar que temos a dimensão de tudo que não sabemos, tudo que não imaginávamos existir. Estudar, especialmente em meio a mestres tão preparados e colegas de classe tão fascinantes, é se deparar com a própria pequenez, a própria ignorância, e desenvolver uma sadia desconfiança a respeito das próprias certezas, das próprias convicções, das próprias inclinações.

Exerço a profissão desde 2003, e já perdi as contas das vezes nas quais vi o jornalismo ser desvalorizado. Não posso esquecer, por exemplo, de quando telefonei para uma pessoa amada contando que havia passado no vestibular, e em vez de parabéns ouvi a frase inesquecível: “você vai mesmo largar a engenharia, não é?”.

Naturalmente, quem não estudou jornalismo não faz a menor ideia da imensa responsabilidade envolvida na profissão, nem tampouco poderá avaliar a dimensão da diferença que um profissional devidamente preparado pode fazer, ao se deparar com histórias que tantas vezes são mais – ou diferentes – do que parecem ser.

Mas mais do que isso, o analfabetismo geral em relação à análise de discursos faz com que manjadas ferramentas de convencimento e manipulação encontrem grande parte da população sem qualquer anticorpo que seja capaz de evitar o contágio. Em especial o mito de que as redes sociais vieram para libertar a população das mentiras de uma grande mídia agora “desesperada” seduz ao se sustentar sobre o poderoso pilar do autoengano. Todo mundo, afinal, toma a si mesmo como referência de isenção, de tal modo que é muito fácil tratar como verdade aquilo que se deseja ouvir. A opção de viver numa bolha oferece histórias muito mais confortáveis do que a verdade jamais poderia ser. Quem, afinal de contas, quer ver a própria imagem quando olha para o espelho?

Todo jornalista experiente sabe que muitas vezes o processo de apuração frustra expectativas, e por isso mesmo aprende a abandoná-las com o tempo. O que parecia um caso escandaloso pode ter uma explicação justa. O personagem do qual você desconfia pode estar agindo de boa-fé, e aquele em que você confiava pode se revelar corrupto. Buscar a verdade exige coragem e desapego, pois muitas vezes o fim da apuração representa a constatação de que a realidade não é o que parece, ou o que gostaríamos que fosse.

Minhas redes sociais estão cheias de pessoas agressivas e cheias de “verdades”, que não fazem pela sociedade uma parcela mínima do que venho fazendo há muitos anos. Através de minha atuação já ajudei a frustrar planos de corrupção milionários, e em razão disso já sofri ameaças e fui confrontado com propostas que teriam permitido multiplicar minha renda. Nada disso me fez parar até agora. Quantos, entre os que espumam ao atacar o jornalismo, suportariam o nível de estresse que eu suporto? Quantos teriam rejeitado a oportunidade do enriquecimento ilícito? Quantos teriam aberto mão das possibilidades de se aproveitar da influência adquirida, ou teriam continuado a honrar o juramento após serem ameaçados? Tenho certeza que poucos, muito poucos.

O jornalismo já errou, continua errando e certamente vai errar no futuro, intencionalmente ou não. Mas não está sendo perseguido por seus erros – até mesmo porque errar pode ser muito conveniente e elogiável para alguns –, mas pelos seus acertos, que são igualmente abundantes. Os erros, usados como justificativa, são apenas a parte visível do iceberg. Porque o jornalismo sério limita tanto a liberdade criativa de quem quer reinventar a realidade, quanto a suspensão da descrença de quem quer agarrar-se a algo mais aconchegante que a verdade.

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