Jogos Florais, dos “Quatro As” ao Z, tudo é uma questão de Amor...

Friburgo recebe neste fim de semana cerca de 70 trovadores para a 59ª edição do evento
sábado, 26 de maio de 2018
por Elisabeth Souza Cruz*

A Casa da Bahia (Rio de Janeiro), em 1958, organizou um concurso de trovas. J.G. de Araújo Jorge classificou-se em 1º lugar, e Luiz Otávio em 2º. Sem que um soubesse da participação do outro, pois os concorrentes usavam pseudônimos, para surpresa de ambos, acabaram viajando juntos, para Salvador, onde receberiam seus prêmios. No álbum, organizado por Luiz Otávio, ofertado à nossa União Brasileira de Trovadores-UBT, pela família Abbud, ele relatou:

“No navio, o tema de nossas conversas tinha que ser, forçosamente, Friburgo. A imagem de suas montanhas, de suas manhãs de céu azul, de suas flores, estava sempre em nossos olhos. Propus ao J.G.: vamos fazer um concurso de trovas para Friburgo. Poderíamos dar o nome de Jogos Florais. A aceitação foi imediata. Ele anteviu o grande interesse que o certame poderia despertar e a sua importância cultural e turística. Assim, esquematizando, escrevi:

Viagem à Bahia + trovas + Friburgo = Jogos Florais

Luiz Otávio – Dezembro de 1958”

Os dois apaixonados por Nova Friburgo não mediram esforços para que os Jogos Florais criassem suas raízes em solo friburguense. O Berço dos Jogos Florais acordava para um sonho que nos levaria, em meio às comemorações dos 200 Anos da cidade, a compor o tema do Caderno Z, de forma carinhosa e abrangente. Não sem razão, o Jornal A VOZ DA SERRA, na modernidade dos tempos, não perde suas raízes no legado de seu fundador, Américo Ventura.

Por isso mesmo, com base nos relatos de Luiz Otávio, os Jogos Florais emergiram em Nova Friburgo com o abraço de “Quatro As”: Academia Friburguense de Letras, Associação Comercial Agrícola e Industrial de Nova Friburgo, Associação Friburguense de Imprensa e A VOZ DA SERRA.

Esses “Quatro As” estão no primeiro cronograma, datado de 22 de fevereiro de 1959, onde Luiz Otávio começava a delinear as primeiras pautas para a execução do sonho que traria para Nova Friburgo, por Lei Municipal, o título de Cidade da Trova. É bem verdade que se fossemos contar o tempo, a partir da “pedra fundamental” do pensamento de Luiz Otávio, poderíamos já festejar os 60 Anos dos Jogos Florais com as comemorações dos 200 anos da cidade. Entretanto, consideramos “abertos os festejos” para maio de 2019 com essa edição do Caderno Z.

Poderia alguém nos perguntar se não estamos adiantando pauta. – De forma alguma! – Nós estamos antecipando a nossa alegria, porque dos “Quatro As ao presente Z”, no abecedário das emoções, não nos faltará assunto para o ano que vem.    Este tema é como cavar a terra – quanto mais se cava mais aparece terra.  E, nesta terra onde a poesia floresce em toda a sua plenitude, a trova germinou, cresceu, deu flores e frutos, que saboreamos na magia dos mais belos versos da criação magistral dos trovadores.

A UBT-Nacional, atualmente presidida pela trovadora paulista Domitilla Borges Beltrame, que veio prestigiar nossa festa, cria condições, orienta e promove ações para que o legado de Luiz Otávio se cumpra e se harmonize com as demandas da atual era dos avanços tecnológicos, que nos cobra a rapidez das comunicações. A trova tem essa proposta de nos dizer muito em 28 segundos poéticos.

Nesse turbilhão de transformações, onde tudo muda a cada instante, nossa trova se engalana para ganhar um caderno especial. Estamos em traje de gala no “Z”, vestindo o orgulho de tanto prestígio, porém com a humildade de Rodolpho Abbud que, pelo sobrenome, vem a ser o quinto “A” – o A de Amor.  Nesta coletânea de “As” temos a “Ventura” de Américo no passado e a felicidade do A de Adriana, no presente, de Ana Borges, de Antonio, de Alegria, de todas as letras que compõem a nossa Voz, essas letras que fazem a nossa história na história da cidade.

Um brinde aos 200 anos!

Que magia é essa que envolve Nova Friburgo e torna os ares serranos tão propícios ao encantamento poético? Não há duvidas de que é a mesma poção mágica que tomou o coração de todos os trovadores que ao longo dos anos vêm descobrindo o fascínio de nossa cidade. A sementeira de sonhos se fez provavelmente quando Luiz Otávio se perguntou – “Não sendo minha Friburgo, como posso amar-te tanto?” Ou teria sido quando J. G se admirou com as nossas belezas naturais do  “Jardim Suspenso na serra dentro da Serra do Mar”? Quem há de responder essas questões de forma precisa, se na história dos Jogos Florais as declarações de amor por Nova Friburgo se avolumam cada vez mais?

Por esse mesmo fascínio, o trovador Otávio Venturelli, de tanto vir receber seus prêmios aqui, acabou firmando residência nessas plagas, onde descobriu que “nós aqui no alto da serra plantamos versos de amor”. O mesmo aconteceu com o trovador Edmar Japiassú Maia, “porque à luz de um céu bordado, Friburgo se faz um sonho que a gente sonha acordado”.

Sérgio Ferreira da Silva, de São Paulo, não perde tempo e quando chega para os festejos é decisivo – café da manhã na Superpão e A VOZ DA SERRA na mão. Assim ele se sente um verdadeiro friburguense e afirma que nos tornamos “a Terra Natal de todos os trovadores”. José Ouverney, descendente da imigração suíça, porém nascido em Pindamonhangaba, não tem dúvidas de que  “Friburgo é um ato de amor consumado nas alturas...”.

 Amar nossa cidade é torná-la a “Meca dos Trovadores” como carinhosamente nos intitula Pedro Melo, acrescentando que Nova Friburgo é a cidade sagrada onde todo trovador tem o sonho de vir ao menos uma vez na vida para receber um prêmio. Talvez por isso, João Costa, de Saquarema, tenha se glorificado quando confessou – “Classifiquei-me em Friburgo... agora sou trovador!”.

“Povo amigo, caloroso, alegrias... trovas... flores... (e um friozinho gostoso)...”.  Nesses versos de Waldir Neves, que vinha do Rio de Janeiro doido para almoçar na Dona Mariquinha, estão contidas definições que não se perdem no tempo. Waldir, como tantos apaixonados, era um exemplo das constatações de Linda Brandão Dias – “Quem chega e tem que voltar já vem sentindo saudade”.

Neste ano do Bicentenário, por intermédio do Concurso Paralelo, surgem novas pérolas para o grande colar de amores que circunda a nossa cidade. Renata Pacolla, de São Paulo, deixa a mensagem de que “Nova Friburgo garante a eternidade da trova”. Podemos, sim, confiar nessa revelação, porque temos um compromisso de zelar pelo legado que nos fora confiado.

Temos parceiros, temos uma Voz que nos leva além da serra. Temos agora uma exposição permanente de trovas na Alameda da Praça Getúlio Vargas. O Comitê 200 Anos não hesitou diante dos desafios do projeto de mostrar o valor que têm os Jogos Florais.

Disse bem Rodolpho Abbud: “Nas majestosas colinas de Friburgo reina o amor...”. E reina mesmo um amor tão grande que Clenir Neves Ribeiro não exagerou afirmando que “essa terna menina esbanja sol pelas ruas!”.

Poesia alguma pode ser redundante quando se trata de enaltecer essas brenhas do Morro Queimado. Seja aqui, seja no âmbito nacional, Delcídio Sobrinho, de Juiz de Fora,  nos ajuda neste mosaico poético, pois, “Nova Friburgo é a menina dos olhos dos trovadores!”.

A menina capaz de, em tempos de mensagens curtas, receber uma carta de amor, à moda antiga, de  Renato Alves, do Rio de Janeiro. Venha Therezinha Diegues Brisolla, de São Paulo, nos auxiliar num fecho triunfal – “Um brinde aos 200 Anos! Friburgo é de todos nós!”...

A origem mitológica das musas

(Por Ana Borges)

As musas (em grego antigo: Μοῦσα, Mousa), na mitologia grega, eram entidades a quem era atribuída a capacidade de inspirar a criação artística ou científica. Eram as nove filhas de Mnemósine ("Memória") e Zeus. O templo das musas era o Museion, termo que deu origem à palavra museu nas diversas línguas indo-europeias como local de cultivo e preservação das artes e ciências.

Após a vitória dos deuses do Olimpo sobre os seis filhos de Urano, conhecidos como titãs, foi solicitado a Zeus que se criassem divindades capazes de cantar a vitória e perpetuar a glória dos Olímpicos. Zeus então partilhou o leito com Mnemósine, a deusa da memória, durante dez noites consecutivas e, um ano depois, Mnemósine deu à luz nove filhas, próximo ao monte Olimpo.

As musas cantavam o presente, o passado e o futuro, acompanhados pela lira de Apolo, para deleite das divindades do panteão. Eram, originalmente, ninfas dos rios e lagos. Seu culto era originário da região a leste do Olimpo, de cujas encostas escarpadas desciam vários córregos produzindo sons que sugeriam uma música natural, levando a crer que a montanha era habitada por deusas amantes da música. Nos primórdios, eram apenas deusas da música, e posteriormente, suas funções e atributos se diversificaram. Entre elas, estava a musa da poesia lírica.

A Euterpe - a que dá júbilo - era a musa da poesia lírica e tinha por símbolo a flauta, sua invenção. Ela é uma jovem, que aparece coroada de flores, tocando o instrumento de sua invenção. Ao seu lado estão papéis de música, oboés e outros instrumentos. Por estes atributos, os gregos quiseram exprimir o quanto as letras encantam àqueles que as cultivam.

Uma eterna lembrança...

Dilva sonhava com os 200 Anos de Nova Friburgo. Sonhava muito! Aliás, entre o sonho e a realidade, para ela tudo era questão de arregaçar as mangas e trabalhar com determinação. Não havia sonho que colocasse limites no entusiasmo de nossa querida artífice do bem. Envolvida com a vida de Nova Friburgo, não foi pouca a sua atuação nas áreas da educação, do turismo, nos setores administrativos, na Academia Friburguense de Letras e em tantas outras instituições. O que não lhe faltava era boa vontade de ajudar.

Para nossa UBT-Nova Friburgo, não apenas presidiu os Jogos Florais, durante oito anos na década de 80, mas também esteve atuante, incansavelmente, por longos anos de dedicação. Torna-se difícil enaltecer os seus pendores, porque, em tudo que empreendia, Dilva colocava as mãos de ouro e fazia reluzir o fruto de ideias criativas.

Era incrível no jeito de sempre fazer o melhor do melhor. Conviver com sua personalidade marcante era uma experiência rica para todos nós. Ao mesmo tempo em que nos fragilizamos com sua partida, preenche-nos um sentimento de responsabilidade perante sua memória. Devemos seguir avante, com firmeza, porque temos exemplos de sobra de como deve ser o nosso trabalho – pautado nos rastros de sua luz.

 

Dilva foi, por excelência,

um exemplo de nobreza...

 Das mães, teve a paciência

e dos pais, a fortaleza!

 

Elisabeth Souza Cruz

 

*Elisabeth Souza Cruz é presidente da UBT-Nova Friburgo

 

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