Ibelga: uma escola sem muros

Pedagogia leva alunos a colocar a mão na massa
segunda-feira, 01 de outubro de 2018
por Guilherme Alt (guilherme@avozdaserra.com.br)

Com boa parte dos estudantes pertencentes a famílias que têm o campo como principal fonte de renda, a proposta educativa do Instituto Bélgica Nova Friburgo (Ibelga) mescla a capacitação agrícola com o currículo regular aplicado nas demais unidades de ensino estadual. Através da ‘pedagogia de alternância’, os alunos estudam em tempo integral, mas tem um ano letivo diferenciado, já que passam um período na escola e outro atuando na produção rural, sempre com acompanhamento dos professores.

“Nós somos uma escola da rede pública, temos no nosso sistema de ensino as disciplinas de núcleo comum, como língua portuguesa, matemática, geografia, etc, mas temos uma parceria com o Instituto Ibelga, e por conta disso nós trabalhamos com as duas pedagogias, a tradicional e da alternância que é voltada para o público de agricultura familiar, do produtor rural”, explicou a diretora do Colégio Municipal Ceffa Flores de Nova Friburgo, Lúcia da Silva Ferreira, há um ano no cargo.

“Dentro da pedagogia da alternância nós temos algumas ferramentas e uma delas é o PE – plano de estudo. Esse plano é sempre ligado a um tema que vá favorecer o trabalho da comunidade. Temos as aulas de agricultura teórica e prática. Vamos começar um trabalho nas estufas com mudas de lúpulo, que vamos desenvolver e estamos começando uma horta, em forma de mandala”, contou a diretora.

Na filosofia de ensino da escola, os alunos participam de tudo. De acordo com os professores Maria Clara Estoducto e Gabriel Braga, os próprios alunos fizeram a horta, ajudaram a instalar o sistema de irrigação, fazem a limpeza do local e o plantio dos produtos.

"A gente não aprende a nadar, a andar de bicicleta, lendo a teoria. É na prática. Com agricultura é a mesma coisa. Você absorve melhor quando coloca a mão na massa. O formato da hora em mandala tem uma razão de ser. A ideia é fazer um consórcio integrado, ter várias culturas, em um espaço mínimo, para poder maximizar a eficiência dessa área. Ao invés de termos uma monocultura, teremos 15 culturas folhosas, mais duas árvores e frutas. O formato é pra conseguir comportar várias plantas de tamanhos e formatos diferentes", explicou o professor Gabriel (foto), que ensina práticas agrícolas.

Novas culturas no cotidiano

A filosofia, de acordo com os professores é aproveitar o contexto familiar em que vivem a maior parte dos alunos, por serem filhos de produtores locais, e inserir o conhecimento sobre atividades do campo, tendo como base, a inserção de novas ideias e a não utilização de agrotóxicos.

“Nós mostramos às crianças novas formas e tecnologias para se trabalhar com a terra, sem agredi-la. Nós puxamos pelo lado da agroecologia, trabalhar os sistemas agroflorestais, a questão dos extratos vegetais, da vida no solo e mostrar na prática a produção de alimentos sem o uso de agrotóxicos", contou a professora Maria Clara, que ensina técnicas agrícolas.

"Queremos trazer para o cotidiano dessas crianças uma cultura diferente do que elas costumam ver em casa. O foco é mostrar que é possível produzir alimentos sem o uso de agrotóxico. A melhor forma até agora de explicar na prática é a nossa horta em forma de mandala. Com ela as crianças vão ver de fato que é possível realizar uma colheita, sem utilizar insumos químicos. Esse é um sistema novo, moderno", completou Gabriel.

Segundo os alunos, ao explicar a diferença entre essa escola e a convencional, ressaltaram que ali não tem muro. “Os muros são as árvores, eles se sentem mais livres e menos intimidados, de certa forma”, explicou Maria Clara.

De acordo com a diretora Lúcia (foto), a ausência de muros intensifica o contato com a natureza. “A ideia de não ter muros é justamente a inserção em uma área rural, nós temos essa comunhão com a natureza. A escola é toda rodeada de estufas, queremos trabalhar esses princípios e valores. É uma via de mão dupla. O que os alunos aprendem em casa eles trazem pra escola e o que eles aprendem na escola, eles aplicam em casa”.

De pai pra filho

Grande parte dos alunos são filhos de agricultores, produtores de flores, da região de Vargem Alta. Muitos, inclusive, pensam em seguir na mesma profissão e continuar os negócios da família.

A cultura de utilização de agroquímicos por parte de alguns produtores é constantemente combatida, apresentando aos alunos alternativas que não agridem o meio ambiente e não são prejudiciais à saúde.

"Alguns alunos, por serem filhos de produtores, já chegam com uma bagagem maior em relação aos outros e eles inclusive pensam em seguir os passos dos pais. Nosso trabalho, entre outras coisas, é mostrar soluções que não envolvam o uso de venenos. Algumas famílias de locais mais distantes também têm essa preocupação”, disse Maria Clara.

Primavera

A chegada da primavera, de acordo com a professora, torna ainda mais especial o trabalho realizado no Ceffa Flores.

“Por trabalharmos com agricultura, somos pautados pelas estações do ano e a primavera marca o tempo de semear, o solo está bem vivo. Na Festa da Flor, todo mundo sai daquele tempo de hibernação, as sementes começam a germinar, começa o horário de verão. A gente muda o jeito de dar aula, por conta da primavera".

No próximo dia 29, o colégio vai realizar um evento para comemorar a chegada da nova estação. “Vamos realizar a Festa da Primavera. Vamos ter fartura de comida, bebida, shows, parquinho de diversão para as crianças, será um evento completo, com a presença das famílias em um momento de confraternização com a comunidade. Quem quiser, pode vir prestigiar, convidou”.

 

LEIA MAIS

Promotoria tem recebido muitas queixas de pais e quer saber a demanda real por vagas em unidades de ensino infantil

Em mestrado na University College London, Gisele Malhard Breder pesquisou e chegou a uma nova classificação para a pronúncia da letra R

Evento não tem inscrições prévias e é aberto ao público

Publicidade