Ibelga: uma cultura de pais para filhos

Pedagogia da Alternância permite que alunos aprendam na prática ofício dos pais
sábado, 25 de maio de 2019
por Guilherme Alt (guilherme@avozdaserra.com.br)

Com boa parte dos estudantes oriundas de famílias cuja principal fonte de renda é o campo, a proposta educativa do Instituto Bélgica-Nova Friburgo (Ibelga) mescla a capacitação agrícola com o currículo regular aplicado nas demais unidades de ensino estadual. Através da ‘pedagogia de alternância’, os alunos estudam em tempo integral, mas têm um ano letivo diferenciado, já que passam um período na escola e outro atuando na produção rural, sempre com acompanhamento dos professores.

“Nós somos uma escola da rede pública, mas temos uma parceria com o Instituto Ibelga. Trabalhamos com as duas pedagogias, a tradicional e da alternância, voltadas para o público de agricultura familiar, do produtor rural”, explicou a diretora do Colégio Municipal Ceffa Flores de Nova Friburgo, Lúcia da Silva Ferreira (foto), há um ano no cargo.

“Dentro da pedagogia da alternância nós temos algumas ferramentas e uma delas é o PE – plano de estudo. Ele é ligado a um tema que favoreça o trabalho da comunidade. Temos as aulas de agricultura teórica e prática. Vamos desenvolver um trabalho nas estufas com mudas de lúpulo, e estamos começando uma horta, em forma de mandala”, acrescentou.

Na filosofia de ensino da escola, os alunos participam de tudo. De acordo com os professores Maria Clara Estoducto e Gabriel Braga, os próprios alunos fizeram uma horta, ajudaram a instalar o sistema de irrigação, realizam a limpeza do local, o plantio dos produtos, além da prática de confecção de vasos de cimento e de madeira. Por fim, coleta de solo para a produção de tintas naturais.

"A gente não aprende a nadar, a andar de bicicleta, lendo a teoria, é na prática. Com agricultura é a mesma coisa. Você absorve melhor quando coloca a mão na massa. O formato da hora em mandala tem uma razão de ser. A ideia é fazer um consórcio integrado, ter várias culturas, em um espaço mínimo, para poder maximizar a eficiência dessa área. Ao invés de termos uma monocultura, teremos 15 culturas folhosas, mais duas árvores e frutas. O formato é pra conseguir comportar várias plantas de tamanhos e formatos diferentes", explicou o professor Gabriel (foto), que ensina práticas agrícolas.

“Mostramos às crianças novas formas e tecnologias para se trabalhar com a terra, sem agredi-la. Agroecologia, sistemas agroflorestais, extratos vegetais, a vida no solo, e na prática, a produção de alimentos sem uso de agrotóxicos", contou a professora Maria Clara, que ensina técnicas agrícolas.

A filosofia, de acordo com os professores, é aproveitar o contexto familiar em que vivem a maior parte dos alunos, e inserir o conhecimento sobre atividades do campo, tendo como base, a inserção de novas ideias e a não utilização de agrotóxicos.

"Queremos trazer para o cotidiano dessas crianças uma cultura diferente do que elas costumam ver em casa. O foco é mostrar que é possível produzir alimentos sem o uso de agrotóxico. A melhor forma até agora de explicar na prática é a nossa horta em forma de mandala. As crianças vão ver que é possível realizar uma colheita sem uso de insumos químicos. É um sistema novo, moderno", completou Gabriel.

Segundo os alunos, a diferença entre essa escola e a convencional é a ausência de muro. “Os muros são as árvores, eles se sentem mais livres e menos intimidados, de certa forma”, explicou Maria Clara.

De acordo com a diretora, a ausência de muros intensifica o contato com a natureza. “A ideia de não ter muros é justamente a inserção em uma área rural, nós temos essa comunhão com a natureza. A escola é rodeada de estufas, queremos trabalhar esses princípios e valores. É uma via de mão dupla. O que os alunos aprendem em casa eles trazem pra escola e o que eles aprendem na escola, aplicam em casa”.

De pai pra filho

Grande parte dos alunos são filhos de produtores de flores, da região de Vargem Alta. Muitos, inclusive, pensam em seguir na mesma profissão e continuar os negócios da família. A cultura de utilização de agroquímicos por parte de alguns produtores é constantemente combatida, apresentando aos alunos alternativas que não agridem o meio ambiente e não são prejudiciais à saúde.

"Alguns desses alunos já chegam com uma bagagem maior em relação aos outros e eles inclusive pensam em seguir os passos dos pais. Nosso trabalho, entre outras coisas, é mostrar soluções que não envolvam o uso de venenos. Algumas famílias de locais mais distantes também têm essa preocupação”, acrescentou Maria Clara.

 

LEIA MAIS

Antes “invisível”, local agora tem até bancos e canteiros ornamentados por pequenas árvores, flores e plantas de todos os tipos

Veículos reforçarão frotas das oito Unidades de Policiamento Ambiental (UPAm) para operar em todas as regiões do estado

Leitores denunciam descarte irregular próximo à Igreja de São Bento Abade

Publicidade