Guerreiras acima de qualquer preconceito

Frentistas, motoristas de ônibus, garis, ajudantes de pedreiro: elas avançam em profissões dominadas por homens
quinta-feira, 08 de março de 2018
por Jornal A Voz da Serra

A história da mulher que encontrou na adversidade a profissão dos seus sonhos

Por Karine Knust
karine@avozdaserra.com.br

Ajudar as crianças e suas famílias a ficarem juntas. Foi por esse motivo que Elenice Clemente Borges escolheu a assistência social como profissão. Hoje, 12 anos depois de formada, a carioca, que veio parar na Região Serrana em busca de oportunidades de trabalho, tem orgulho de toda a trajetória que a fez chegar até aqui. Mas ela garante: não foi fácil. 

Nascida em uma comunidade do Rio de Janeiro, desde cedo Elenice precisou enfrentar os desafios gerados pela pobreza. “Aos 8 anos eu e minha irmã fomos institucionalizadas. Na Feem (Fundação Estadual de Educação do Menor) passamos a ser acompanhadas por uma assistente social. Ela se tornou uma referência para mim e, quando eu tinha 9 anos, disse que queria ser igual à tia Marilena, ou seja, ajudar a unir as crianças a suas famílias”, conta Elenice.
O desejo poderia ter ficado apenas na memória de uma criança que, assim como tantas outras, sonha crescer e se tornar igual a quem admirava na infância. A vontade, entretanto, era maior do que qualquer brincadeira, e Elenice nunca esqueceu disso. Mesmo trabalhando desde os 13 anos, a única exigência que ela tinha a fazer aos patrões era a de poder estudar. “Começava bem o trabalho, mas logo depois vinha a cobrança de optar entre a escola e o emprego. Sempre optei pela escola, graças a Deus, e foi assim que consegui terminar meu ensino médio”, afirma.

A chance

Com uma realidade tão dura, Elenice estava feliz por ter conquistado essa vitória, mas o desejo de chegar ao curso superior, de ser assistente social, ainda era latente demais. “Não via possibilidade alguma no contexto em que eu vivia. O tempo foi passando, me casei, me tornei mãe, mas o sonho crescia. Foi então que, num dia de domingo, voltando da feira, ouvi um carro de som anunciar as inscrições para um pré-vestibular social voltado para negros e carentes, ali na comunidade, totalmente gratuito e acessível. Era a minha chance! Me inscrevi no projeto”. 

 Apesar da difícil missão de conciliar os estudos nos fins de semana com o trabalho e a família, Elenice conseguiu. Passou para o curso de Serviço Social da PUC-Rio com bolsa integral.  “O pré-vestibular Educafro foi mais do que preparar alunos para ingressar numa universidade. Éramos solidários: a dificuldade de um era a de todos; o problema de um era sentido por todos. E todos que passavam para as universidades tinham o compromisso de voltar e disponibilizar parte do seu tempo para ajudar os outros, para que eles  também conseguissem realizar seus sonhos”. Desse modo, Elenice se tornou coordenadora de um pré-vestibular e fundadora de outro que funcionava na mesma comunidade.

A luta

Mulher, pobre, negra. Não é de hoje que a busca pela igualdade de direitos se tornou bandeira de luta para muitas mulheres, em diversos setores da sociedade. No caso de Elenice, e de boa parte das brasileiras, porém, a luta também é contra o racismo. Para a assistente social, infelizmente, nesse aspecto, a batalha está longe do fim. 

“O papel da mulher negra? Lutar, lutar, lutar… resistir, sempre. É um desafio constante, e confesso que é cansativo. Temos nossa dignidade violada em todas as áreas: educação, saúde, política, justiça, mercado de trabalho, nos relacionamentos e por aí vai. O mais triste é ter as nossas questões tratadas como ‘mimimi’. O racismo, o machismo presente continua excluindo, ferindo, matando, tirando a dignidade não só das mulheres, mas de homens, jovens e crianças negras. Os retrocessos e desmonte das políticas sociais conquistadas pela e para a população negra também é mais uma forma de violência, de tronco, pois elas foram criadas para reparar, equiparar as perdas irreparáveis da população negra por meio da escravidão”, alerta Elenice, acrescentando que “urgimos por uma nova consciência para que possamos avançar, nos equilibrar. Este é um dever de cada um de nós. Somente assim podemos vislumbrar dias melhores”, acredita.

Além de trabalhar como assistente social na Aldeia da Criança Alegre, em Nova Friburgo (ONG que desenvolve trabalho com crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade e risco social por meio de oficinas), Elenice também é membro do Coletivo Negro, organização que busca a igualdade de direitos e a inserção de políticas públicas voltadas à população negra e de baixa renda do município.


“O papel da mulher negra? Lutar, lutar, lutar… resistir, sempre. É um desafio constante...", diz Elenice Borges

Ela largou o escritório para dirigir ônibus em Friburgo

Por Dayane Emrich
dayane@avozdaserra.com.br

Motivar mulheres a irem atrás dos sonhos é uma das missões que a friburguense Aguida Tatiana Torres, de 40 anos, acredita ter. Motorista do transporte público de Nova Friburgo há quatro anos, ela abandonou a antiga profissão, de auxiliar administrativo, para trabalhar com o que sempre sonhou, encarando preconceitos e o assédio de uma área onde predominam os homens. 

“Sempre admirei a profissão de motorista e tinha uma enorme vontade de ser uma. Confesso que não foi fácil conseguir uma vaga, ainda mais porque eu não tinha experiência na direção de ônibus. Durante três meses, todos os dias, das 8h às 15h, participei de treinamentos junto com outros 20 participantes, até, finalmente poder ir para a rua”, conta ela.

Com os cabelos bem penteados, unhas pintadas, um belo anel, uniforme arrumado e o sorriso no rosto, Aguida encara as sete horas de trabalho em seis dias na semana ao volante. Ela é responsável pelo transporte de passageiros da linha Maria Teresa, do distrito de Riograndina, e conta que o respeito dos usuários do coletivo e dos colegas de trabalho foi uma das suas conquistas como motorista do transporte público. A relação diária criou até mesmo laços com eles.
“A gente acaba fazendo muitas amizades, já que encontramos praticamente as mesmas pessoas todos os dias. As mulheres, principalmente as mais velhas, são as que mais elogiam. Dizem que para dirigir um ônibus é preciso ser corajosa, que me admiram. Fico feliz porque, apesar de ainda existir preconceito e um certo tabu, a maior parte das pessoas respeita”, afirma ela. “Aqui na empresa eu também sou muito bem tratada pelos colegas. No próprio treinamento, o instrutor frisava a importância da igualdade no tratamento e o respeito a todos, independente do gênero”. 

Segundo Aguida, as piadinhas não são problema. “Sempre tem um ou outro engraçadinho. Escuto muito aquela frase: ‘Mulher no volante, perigo constante’ ou ‘Uma mulher dirigindo? Então não vou não!’ Mas levo na esportiva e não deixo nada me atingir ou me fazer desistir. Tenho o apoio do meu marido e o incentivo de toda a minha família, que é o que mais importa”. 

Para as mulheres que têm vontade de atuar como motorista, Aguida deixa o recado: “A mulher pode tudo o que ela quiser; se é o que ela tem vontade, tem que correr atrás, perseverar e não pode desistir.  Hoje em dia não existe mais profissão só para homem ou só para mulher. Estamos no mercado para atuar em qualquer serviço, independente do gênero”.


Aguida é uma das quatro mulheres que atuam como motorista do transporte coletivo em Nova Friburgo (Foto: Henrique Pinheiro)

Frentistas mulheres no comando das bombas

Alerrandre Barros
alerrandrebarros@yahoo.com.br

Em meio ao entra e sai de veículos no posto de combustíveis Shell, Juliana Correia e Diene Oliveira correm para fazer a calibragem de pneus, abastecer tanques de carros e motocicletas e emitir notas para pagamento dos serviços. Pela manhã, é intenso o movimento no posto na esquina da Rua Henrique Zamith com a Avenida Presidente Costa e Silva, no Centro. 
“É assim: uma correria este horário”, disse Juliana, com um sorriso destacado pelo batom rosa e óculos de aro retangular no rosto, após calibrar o pneu de uma picape. A equipe de reportagem tentava acompanhar o ritmo dela na última terça-feira, 27. 

Mãe de um menino de 4 anos, ela ficou 2016 inteiro desempregada. Após trabalhar como caixa de supermercado e de padaria, acabou demitida em meio à crise e não conseguiu nenhuma vaga no mercado durante 18 meses. Começou a vender empadas, mas o dinheiro não era suficiente, até que, em abril do ano passado, foi contratada pelo posto. 
“Eu não sabia nada. Aprendi tudo aqui. Abastecer, calibrar pneus, medir o óleo, trocar a água. Tivemos uma capacitação. O meu pai adorou meu novo trabalho porque agora cuido de tudo no carro dele”, disse a frentista moradora do Jardim Ouro Preto, distrito de Conselheiro Paulino. 

Em outra bomba de abastecimento, Diene digita a quantidade de gasolina que vai injetar no tanque de uma Saveiro. Há três anos trabalhando em postos de combustíveis, ela também começou na carreira por necessidade. “Estava desempregada e precisava trabalhar, mas hoje fico porque gosto. Conhecemos muitas pessoas. E a equipe é bastante unida. Todos se ajudam. Não pesa para ninguém”. 
Diene, 29 anos, e Juliana, 26, trabalham entre os turnos da manhã e da tarde. Para elas é o melhor horário, já que o posto funciona 24 horas, sete dias por semana. Os homens batem ponto à noite. “Quando disse à minha família que ia trabalhar como frentista, ficaram com medo, preocupados com assaltos. Nunca passei por isso, e espero nunca passar”, afirma Diene. 

Vaidosas, simpáticas e ágeis, as duas mandam nos colegas frentistas, disse um deles em tom de brincadeira. Dos clientes, Diene já ouviu algumas cantadas, mas afirma que nunca ultrapassaram o limite imposto por ela. “Dou um sorrisinho e a vida segue em frente. Nunca fui desrespeitada”, diz a jovem, que mora no Nova Suíça. 

“Alguns clientes homens se impressionam ao ver que somos mulheres. Mas as clientes mulheres preferem, às vezes, nosso atendimento. Talvez porque somos um pouco mais atenciosas. Não vejo diferenças entre nós (homens e mulheres) aqui. É um trabalho como qualquer outro”, comentou Juliana, depois de entregar a comanda para um cliente.


(Foto: Henrique Pinheiro)

A invisibilidade daquelas que varrem as ruas da cidade

Ana Borges
ana.borges@avozdaserra.com.br

 

De um total de 55 funcionários da Secretaria municipal de Serviços Públicos que atuam como garis, quase a metade - 21 - são mulheres, dedicadas a varrer ruas, praças e parques. A faixa etária dessas trabalhadoras é de 35 a 60 anos, e o salário é mínimo para uma jornada de oito horas diárias. Elas passam quase despercebidas, para muitos são invisíveis, embora algumas reconheçam que muitos passantes as cumprimentam, talvez por se cruzarem, diariamente. 
“Acho que se acostumam a ver a gente sempre no mesmo horário e nos mesmos pontos. Acabam por dar um ‘bom dia’, um “oi, como vai”, falam com a gente. É bom receber um cumprimento”, diz Rosângela, que, embora pareça ter mais idade, informou que tem “50 e poucos”, marido, filhos e netos. 

Já dona Edyr é outra história: tem 67 anos, 30 de serviço e aspecto de uma pessoa desgastada pela árdua jornada. Demonstra cansaço, desânimo. Aliás, ninguém pode achar que esta é uma atividade, digamos, estimulante ou prazerosa. No entanto, todas trabalham com afinco, são compenetradas e dedicadas, sob sol ou chuva.

Edyr anseia pela aposentadoria, programada para este ano. “Tô cansada e, em meados deste ano, paro de trabalhar. A idade está pesando, já não tenho a mesma disposição, olha só as minhas mãos”, diz, estendendo os braços e mostrando as palmas calejadas.

As mais jovens não se intimidaram com o ambiente mais masculino e gracejos nas ruas. “Aceitei esse trabalho porque precisava do emprego e não tenho muito preparo. Sei me defender. Quando algum homem se aproxima ‘tirando onda’, sei como lidar e corto logo o papo. Sou solteira, mas não estou disponível, tenho um filho para sustentar e moro com a minha mãe (aposentada), que me ajuda. A gente divide as despesas e ela curte cuidar do neto. Assim, posso trabalhar tranquila e aproveitar a vida. Sou jovem, né?”, diz Maíra, uma morena vaidosa, com um sorrisão bonito. “Mesmo fazendo esse trabalho na rua, estou sempre arrumada. Gosto de brincão, anéis, colares, maquiagem”, revela, passando os dedos nos cabelos bem pranchados. 

Esse é apenas um esboço dessa classe trabalhadora que merece todo o nosso carinho e respeito. Às garis de Nova Friburgo, nossas homenagens pelo Dia Internacional da Mulher.

Uma ajudante de pedreiro cuidadosa e detalhista

Adriana Oliveira
aoliveira@avozdaserra.com.br

 

Ela põe diariamente a mão na massa - e olha que não é de pão nem de bolo. E, com duas partes de areia e uma de cimento, constrói aos poucos uma carreira tão sólida quanto uma parede de tijolos. Priscila Mira dos Santos, de 28 anos, a Makau, trabalha há dois como ajudante de pedreiro. Primeiro com o Jair; depois com o Odeir; e agora com Felipe. Juntos, os dois vêm reformando imóveis residenciais e conquistando novos e fiéis clientes. 
Moradora do Cônego, Priscila aprendeu o ofício com o pai. Aprendeu de tudo um pouco na prática - elétrica, hidráulica, alvenaria - e acabou construindo a própria casa. Conta que abraçou a construção civil por gosto, e não por falta de opção: “Desde sempre foi o que mais gosto de fazer”, declara.

Priscila trabalhava antes como técnica de iluminação, e não hesitou em agarrar a primeira oportunidade que apareceu na nova profissão. Estranhou, é verdade, o serviço bem mais pesado. Contraiu dores na coluna, se curva um pouco ao levantar um saco de cimento, mas não se arrepende. A obra não pode parar.

Ela diz que nunca sofreu preconceito por ser mulher - possivelmente a única em toda Nova Friburgo a trabalhar profissionalmente na construção civil. Nunca perdeu um serviço por isso - o que conta, na sua opinião, é a qualidade do profissional, independentemente de ser homem ou mulher. Acha, no entanto, que agrega ao ofício qualidades tipicamente femininas, como maior cuidado, detalhismo, capricho. E não esconde sua preferência por acabamento.
“Nunca sofri preconceito, mas as pessoas ainda se mostram muito impressionadas quando me veem trabalhando em obra. E são justamente as mulheres que mais se admiram”, conta, entre orgulhosa e tímida.

Priscila Santos é possivelmente a única mulher de Friburgo a trabalhar na construção civil

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