Guarda compartilhada muda radicalmente as relações familiares

Divisão equilibrada de responsabilidades leva pais a descobrirem o prazer da paternidade
sábado, 09 de dezembro de 2017
por Alessandro Lo-Bianco
Alessandro e Valentina: relação de confiança reconstruída com a filha (Arquivo pessoal)
Alessandro e Valentina: relação de confiança reconstruída com a filha (Arquivo pessoal)
Antes da guarda compartilhada ser sancionada, não havia entre eu, minha filha e a mãe (depois que nos separamos) uma divisão equilibrada de responsabilidades e de tempo de convivência com cada um dos pais. Depois do divórcio, por exemplo, não pesava sobre meus ombros, como pai, na prática, a escolha do colégio. Se a mãe resolvesse, por exemplo, mudar de cidade e levar minha filha junto, só me restaria autorizar a mudança.

“Esse novo pai que ganha espaço na sociedade quer mais tempo de convivência com os filhos e participação nas decisões sobre ele”

Alessandro Lo-Bianco

Segundo o IBGE, com base em estatísticas do Registro Civil, apenas 7,73% dos filhos de casais separados vivem sob regime de guarda compartilhada. Na maioria dos casos a criança ainda fica com a mãe. Isso significa dizer que a guarda materna sempre foi algo natural.

Logo que me separei, recebi a notícia de que poderia voltar a conviver com a minha filha apenas de 15 em 15 dias, em fins de semana alternados. Com o tempo, a falta de convívio refletiu, por parte da minha filha, em falta de confiança e intimidade ao lado do pai. Depois que busquei e obtive judicialmente a guarda compartilhada, as coisas mudaram: tive a oportunidade de voltar a conviver quase diariamente com a Valentina e todo esse elo de confiança foi restaurado. Consequentemente, acabou melhorando a minha relação com a mãe, pois os pais precisam ter um relacionamento mais afinado para que o juiz conceda um regime 50% com um e 50% com outro.

Como pai, passei a ter o direito de decidir coisas simples, mas que foram moldando a formação da minha filha, como: que horas Valentina irá para a cama? Quantas horas de TV ela pode assistir por dia? Pode beber refrigerante de segunda a sexta? As regras passaram a ser as mesmas nas duas casas.

Além de pegá-la nos fins de semana, voltei a conviver com minha filha durante a semana: como a mãe, passei a buscá-la na escola um dia e levar para jantar em outro, por exemplo.

Os benefícios eram vistos em respostas simples, como, por exemplo, a obrigatoriedade do colégio dela me tratar exatamente como a mãe. Passaram a me ligar também, a prestar a mim também informações sobre o comportamento e o desempenho dela no colégio.

Em pouco tempo, aquele pensamento conservador de que essa divisão poderia criar um efeito negativo na cabeça da criança caiu por terra. Pude perceber isso no dia em que Valentina me abordou com seus 4 anos e disse: “Pai, estou com pena da Júlia. O papai e a mamãe dela moram juntos. Tadinha, ela só tem um quarto, pai. Acho que ela queria ter dois, como eu”.

Na cabeça da minha filha, aquela imagem do pai que a buscava a cada dois fins de semana já parecia “antiquada” diante das novas formas que as famílias – e a Justiça – encontraram para estabelecer as regras de convivência entre casais separados.

Esse novo pai que ganha espaço na sociedade quer mais tempo de convivência com os filhos e participação nas decisões sobre ele. Ele é reflexo também de uma mudança social marcada pela saída de cena da mãe dedicada integralmente à criança e à casa. Isso permitiu uma nova configuração para muitas famílias, pois muitas mulheres passaram a se dedicar mais para elas, tanto pessoal  quanto profissionalmente.  Ao dividir tarefas, obrigações e tempo de lazer dos filhos, o homem acabou, em muitos casos, descobrindo os prazeres da paternidade.

No dia em que a decisão foi expedida pelo juiz, simbolicamente aquela família já havia mudado, por colocar os dois em igualdade. Lembro exatamente o que pensei saindo do fórum naquele dia e como isso já mudava meu conceito sobre família: “o juiz me deu, como pai, esta condição: sou tão importante quanto a mãe, a minha filha ama tanto a mim como a mãe”.

(Por Alessandro Lo-Bianco)

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