Grupo de amigas cria projeto cultural sobre negritude em Friburgo

Império das Negas promove dança, teatro, palestras e aulas de História
quarta-feira, 20 de novembro de 2019
por Vitória Nogueira*

Criado em 2015, com o intuito de dar poder à população negra de Nova Friburgo, o Império das Negas é uma iniciativa de Maiara Felício, que desde os primeiros passos, tinha como meta dar perspectiva e trabalho para a vida de jovens meninas e meninos negros da cidade. O projeto envolve cultura, empreendedorismo, dança, teatro, palestras abertas, atendimento psicológico e ensinamentos históricos que marcam e ressignificam as vidas dos que por ali passam. 

O nascimento do projeto veio sobretudo por meio do reconhecimento, como disse Maiara, ao contar que o Império surgiu casualmente, via cinco amigas, jovens e negras: Maiara Felício, Michelly Felício, Jheniffer Andrade, Leticia Santos e Marielle Vieira. Elas curtiam juntas a noite de Friburgo e sempre chamavam atenção das pessoas pela estética de seus cabelos crespos soltos e dançantes que exaltavam o orgulho negro.

“A gente se reconheceu. Por conta da etnia, cor da pele, aspereza do cabelo. E decidimos criar alguma coisa a partir daquilo. Chamávamos atenção e não entendíamos o porquê. O motivo era que a gente ocupava espaço da elite sendo negras. Íamos para essas festas, começávamos a tirar fotos e colocávamos a hashtag Império das Negas, porque era só pretinha tudo junto. E a gente falou que não podia perder essa chance, de criar alguma coisa que não existia ainda em Friburgo. Então quisemos criar um projeto de orgulho negro”, completou Maiara. 

O Brasil foi o último país a adotar o fim da escravidão e não só por ideais que desconheciam a humanidade e importância do povo negro, mas também por conta de um ideal comercial. Em consequência, a comunidade negra brasileira sofre ainda hoje com os efeitos históricos dos séculos de escravatura, como o estigma social, pobreza, violência e falta de representatividade política. Em Nova Friburgo, por exemplo, a história da população negra na cidade foi apagada, sendo substituída por uma narrativa branca e romantizada da época colonial.

O racismo estrutural, desde o período escravocrata, limita a população negra a permanecer às margens do que se acredita ser igualdade social. Realidade essa que ainda é viva nas estatísticas de pobreza e delata a falta de ocupação do povo negro em locais de destaque na sociedade

“Eu Sou Resistência”

O professor de História que participa do projeto, Carlos Bessa, explica como é importante educar a juventude negra sobre seus direitos fundamentais e ancestralidade. Segundo ele, conhecer os direitos e como se comportar em relação a isso é muito importante, já que somos remanescentes de uma sociedade escravista. Os encontros e aulas promovidas no Império das Negas têm como propósito a inclusão e o combate ao racismo, dentro da temática afro-brasileira. Tudo isso através de temas como cidadania e identidade, que fortalecem a autoestima de jovens negros.

“A sociedade tenta apagar a todo custo a população negra. Seja na sua cultura, na sua forma de agir, forma de pensar ou estruturalmente. Porque a gente sabe que os pretos têm os piores lugares na sociedade, hoje. Então, passar essa informação e educar de forma que eles conheçam a sua história é fundamental para que se situem e não sejam mais invisibilizados. Que nós lutemos por nossos direitos, não para sermos melhores do que os outros, mas para sermos iguais definitivamente. Falamos aí de preto e imediatamente remetem a desigualdade, mazela, pobreza, criminalidade e não queremos passar essa imagem. Queremos desconstruir isso e mostrar o que a cultura negra tem de bom”, resumiu o historiador.

As aulas de história com o professor Bessa e as rodas de conversa com o psicólogo Matheus Sampaio, acontecem às quintas-feiras quinzenalmente, intercaladas para cada atividade, às 19h30, no Clube de Xadrez. O projeto também mantém uma Feira Afrodescendente que inclui moda, artesanato, acessórios, maquiagens, tranças e muito mais com identidade afro, uma vez ao mês, das 9h às 18h, na antiga rodoviária Leopoldina, ao lado da prefeitura. 

Com intuito de incentivar e ajudar o empreendedorismo de mulheres negras, o Império também organiza a Tarde das Pretas, encontro com produções de vários nichos, que inclui roda de conversa, música e influencia a iniciativa comercial preta. A 1ª edição do evento aconteceu no último sábado, 16, na Curadoria, Espaço Arp.

Nesta quarta-feira, 20, Dia da Consciência Negra, o Império das Negas se reúne sob o lema “Eu Sou Resistência”, na quadra da Imperatriz de Olaria, Rua Manoel Lourenço Sobrinho, 26, Olaria, a partir das 14h. Maiara acrescentou que os ensaios do coral estão parados, por enquanto, mas, devido as demandas que o Império está tendo e a proximidade do Natal, planejam voltar em breve. Entre as novidades, haverá palestras nas escolas com o objetivo de "levar informação sobre racismo e questões pertinentes à negritude", finalizou Maiara. 

(* Texto da estagiária Vitória Nogueira com a colaboração dos colegas de turma da Estácio de Sá, Thiago Muniz, Letícia Medeiros, Yuri Schuab e Silvia Furtado, sob supervisão de Ana Borges).

Mensagem da professora Wilma Villaça

“Porque se lembram do negro em novembro, onde tentam debater em função do Dia da Consciência Negra, embora essa preocupação tenha que ser feita todos os dias do ano. 

Racismo não pode ser mais asusnto só de preto. O racismo tem que ser enfrentado com inteligência, conhecimento, para rebater os preconceituosos. Nunca vou saber o que é viver a experiência de sentir  preconceito em relação a mim.

Sofro em saber do sofrimento dos outros quando escuto alguém relatar situações humilhantes por questões de cor da pele, por sua etnia. Ajudo sempre que possível, e meu sentimento é de revolta. 

O preconceito não é o mesmo para homens e mulheres, mas a dor é a mesma. Não vejo cor, o daltonismo social é pior, é absurdo.

O negro é um povo maravilhoso e torço para que brilhe cada vez mais. Que a pele negra e a cabeleira afro, típica, sejam valorizados e respeitados. Que nosso povo se fortaleça, se imponha e continue na luta pelos seus direitos e ocupe os espaços que merece na sociedade brasileira”. 

 

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