Glauber Braga chama Moro de “juiz ladrão”, que rebate: “deputado despreparado”

Sabatina na Câmara terminou depois que deputado friburguense atacou ministro da Justiça e causou bate-boca
quarta-feira, 03 de julho de 2019
por Alerrandre Barros (alerrandre@avozdaserra.com.br)
Glauber se exalta durante a sabatina de Moro na Câmara (Foto: Gabriela Bilo/ Estadão)
Glauber se exalta durante a sabatina de Moro na Câmara (Foto: Gabriela Bilo/ Estadão)
A sabatina do ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, na Câmara dos Deputados foi encerrada por volta das 21h50 desta terça-feira, 2, após o deputado friburguense Glauber Braga (PSOL) afirmar que Moro será lembrado “como o juiz que se corrompeu, como um juiz ladrão”. Sérgio Moro foi ouvido pelos parlamentares para explicar as mensagens vazadas pelo site The Intercept Brasil. 

"Se teve de encerrar a sessão a culpa é desse deputado absolutamente despreparado, Clauber, acho, Glauber alguma coisa, sabe Deus lá de onde veio isso aí”

Sergio Moro

"O senhor vai estar sim nos livros de história, vai estar como um juiz que se corrompeu, com um juiz ladrão. É isso o que vai estar nos livros de história", disse Glauber Braga. 

A fala do deputado causou reação de deputados aliados ao governo Bolsonaro que reagiram, aos gritos. Outros partiram para cima de Glauber. A mesa da presidência da audiência, comandada pela deputada Marcivania Flexa (PCdoB), foi cercada por alguns deputados que exigiam o encerramento da sessão. Ela encerrou a sabatina após Moro deixar a audiência escoltado por seguranças. Enquanto se retirava, deputados da oposição gritavam “fujão”.

Moro foi sabatinado por deputados por quase oito horas, para explicar as mensagens vazadas pelo site The Intercept Brasil, envolvendo o então juiz federal e o chefe da força-tarefa da Operação Lava Jato, Deltan Dallagnol. O ministro da Justiça e Segurança Pública foi ouvido por parlamentares de quatro comissões: de Constituição e Justiça; de Trabalho; de Direitos Humanos; e de Fiscalização Financeira e Controle.

A estratégia dos deputados ficou clara desde o início da audiência. Os aliados de Moro e do governo Bolsonaro alegaram que a Lava Jato foi responsável pela maior investigação de combate à corrupção e lavagem de dinheiro da história do país. Já os parlamentares de oposição, por sua vez, questionaram a imparcialidade do então juiz federal na condução dos processos da força-tarefa. A analogia sobre um árbitro de futebol atuando a favor de uma das equipes foi utilizada diversas vezes por oposicionistas.

Após a confusão que levou ao fim da audiência, o ministro Sérgio Moro atribuiu o encerramento a ofensas do deputado Glauber Braga. “Acho que prestei informações, respondi, houve até alguns ataques, acho que a gente respondeu tudo. No final um deputado absolutamente despreparado, que não guarda o decoro parlamentar, fez uma agressão, umas ofensas que são inaceitáveis. E infelizmente se teve de encerrar a sessão e a culpa é desse deputado absolutamente despreparado, Clauber, acho, Glauber alguma coisa, sabe Deus lá de onde veio isso aí”, disse Sérgio Moro ao se despedir da Câmara, na única fala aos jornalistas, sem admitir perguntas.

Glauber Braga respondeu. “O Moro me chamar de desqualificado, para mim, é um elogio. Porque alguém como ele que se vendeu, que se corrompeu e que, depois, recebeu um cargo no ministério de Jair Bolsonaro exatamente por ter se vendido, o nome disso é corrupção. Ele mente quando diz combater a corrupção, ele tem um projeto de poder próprio”, disse o deputado a jornalistas na saída da sessão.

Glauber no Twitter

A discussão levou nome de Glauber Braga aos assuntos mais comentados do Twitter. Na manhã desta quarta-feira, 3, por volta das 10h, havia mais de 80 mil menções ao deputado na rede social, com críticas e elogios à sua fala. 

Eduardo Cunha: “gângster”

Esta não foi a primeira vez que Glauber Braga se envolveu em discussões na Congresso que repercutiram nacionalmente. Em 2016, por exemplo, o deputado friburguense votou contra a abertura do processo de impeachment de Dilma Rousseff e fez duras críticas ao presidente da Câmara, deputado federal Eduardo Cunha (MDB), em seu discurso, chamando-o de “gângster”.

“Eduardo Cunha, você é um gângster. E o que dá sustentação a sua cadeira cheira a enxofre. Eu voto por aqueles que nunca escolheram o lado fácil da história. Eu voto por Marighella, eu voto por Plínio de Arruda Sampaio, eu voto por Evandro Lins e Silva, eu voto por Arraes, eu voto por Luís Carlos Prestes, eu voto por Olga Benário, eu voto por Brizola e Darcy Ribeiro, eu voto Por Zumbi dos Palmares, eu voto não”, disse na ocasião. No mesmo ano, Cunha foi preso pela Lava Jato.

Discussão com Bolsonaro

Pouco tempo depois, Glauber Braga e o então deputado federal Jair Bolsonaro trocaram acusações durante sessão do Conselho de Ética da Câmara sobre o caso do ex-deputado Jean Wyllys (Psol), que durante a sessão do impeachment cuspiu em Bolsonaro. “Está na cara que é perseguição política. Já respondi a uns 30 processos aqui, o suficiente para me rotular como mau-caráter. Eu peço renúncia do meu mandato se aparecer algo que eu tenha chamado ele (Wyllys) disso ou daquilo”, disse Bolsonaro.

O clima esquentou quando Glauber Braga afirmou que Bolsonaro mentiu quando disse que nunca insultou Jean Wyllys. O deputado friburguense leu uma nota em que o deputado do PSC teria ofendido Wyllys com um comentário homofóbico durante sessão, em maio de 2015, na Câmara, e lembrou que mentir durante sessão pode derrubar um deputado, como aconteceu com o ex-presidente da Casa, Eduardo Cunha. Bolsonaro não gostou e insinuou que Braga e Wyllys “vivem um caso de amor”.

“O deputado não precisa ficar nervoso por ter feito aqui uma colocação de uma mentira. Eu presenciei por inúmeras vezes o deputado Jair Bolsonaro em comissões, atrás do deputado Jean Wyllys, falando todo tipo de xingamento fora dos microfones, exatamente para fazer com que provas contra si não existissem. O senhor está mentindo, as palavras proferidas pelo senhor aqui são mentirosas”, acusou Glauber Braga.

Bolsonaro disse que Glauber não teria moral porque era defensor da guerrilha armada do período da ditadura e reclamou da forma como ele o encarava. “Não faça essa carinha, não... Jean Wyllys vai gostar”, provocou. Glauber rememorou polêmicas envolvendo o deputado do PSC, como quando disse que Maria do Rosário (PT) “não merecia ser estuprada”. Irritado, Bolsonaro atacou o parlamentar do Psol, dizendo que ele “não tem caráter”.

“Não vais me tirar do sério. Ser acusado de qualquer coisa tendo em vista o seu caráter é motivo de orgulho para mim. Faça esse biquinho quando estiver com o Jean Wyllys, ele vai gostar muito dessa carinha”, debochou Bolsonaro, novamente fazendo insinuações de cunho homofóbico. “A mentira levou ao nervosismo”, rebateu Glauber Braga.

 

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