“Fui contaminada pelo vírus da solidariedade”, diz coordenadora da Pastoral da Aids da CNBB

Ana Carolina Barbosa de Souza fala da experiência de dar, há 23 anos, assistência a pessoas soropositivas
sábado, 30 de novembro de 2019
por Ana Borges (ana.borges@avozdaserra.com.br)

Desde 1996, Ana Carolina Barbosa de Souza se dedica à causa dos portadores do vírus HIV, como coordenadora da Pastoral da Aids da Conferência Nacional dos Bispos Brasileiros. Em 23 anos de experiências transformadoras, não apenas ela foi afetada, mas o marido, filhos e netos também. Tem sido, desde então, uma trajetória de conquistas e derrotas que, longe de desanimá-la, a fortaleceram ainda mais. Desafios não a assustam, muito pelo contrário.     

“Senti um chamado que me tocou o coração, como se Deus estivesse me dando uma missão. Até então, eu não havia prestado atenção à questão da Aids. Ouvia comentários cheios de preconceitos. Não aceitei essa empreitada assim, digamos, prontamente. Mas, quando decidi abraçar essa causa, a doença em si não me chocou, mas os testemunhos, as histórias que ouvia de cada soropositivo, sim. Descobri uma população adoecida, que vivia de maneira precária, desamparada, marginalizada, rejeitada até pela família. Fiquei profundamente tocada com tanto sofrimento. A dureza que aquelas pessoas enfrentavam era indescritível. Num instante, estava totalmente envolvida. E foi para sempre”, conta, lembrando que o primeiro espaço onde fez contato com essas pessoas foi na sede do Cremerj.    

Para a Pastoral da Aids CNBB, neste Dia Mundial de Luta Contra a Aids, domingo, 1º, “devemos reforçar nossa missão de cuidar do irmão, com compaixão por aqueles(as) acometidos pelo vírus do HIV”. Este ano foi  retomada a campanha “Cuide bem de você e de todos que você ama”, para fomentar a ampliação do diagnóstico precoce e de incentivo ao tratamento das pessoas diagnosticadas com o vírus. Está inserida na estratégia proposta pela Unaids, de “testar e tratar”, tendo em vista a eliminação da epidemia da Aids até 2030, cuja meta, 90-90-90, pretende diagnosticar 90% das pessoas com HIV, vincular ao tratamento 90% das pessoas diagnosticadas e que 90% das pessoas em tratamento alcancem carga viral indetectável.   

A campanha está sendo realizada pelos agentes da Pastoral da Aids e de outras pastorais nas dioceses de todo o Brasil, com dois objetivos: sensibilizar a população para fazer o teste anti-HIV para um diagnóstico precoce e acompanhar e apoiar as pessoas soropositivas.  

Trabalho de convencimento  

A partir do trabalho no Cremerj, onde raramente aparecia alguém, Carolina resolveu ir atrás das pessoas que ela sabia estarem doentes. Pegou uma lista com os endereços e foi visitando um por um, aproveitando para conhecer a realidade e a família de cada paciente. E num trabalho de formiguinha, conseguiu que frequentassem as reuniões, passassem a se tratar, fazendo exames periodicamente, para controlar a doença.  

“Até hoje, dou prioridade às visitas nas residências, porque o trabalho de convencimento não pode parar, tem que ser constante para funcionar. Confiro se estão tomando os remédios, seguindo as orientações médicas, se alimentando bem, dormindo o suficiente, enfim, se cuidando. A minha maior luta é fazer com que não interrompam o tratamento. Alguns desistem, porque não têm disciplina, se esquecem ou, em alguns casos, devido a efeitos colaterais. Com o tempo conseguimos atrair médicos voluntários, distribuir cestas básicas, e assim, passo a passo fomos consolidando esse trabalho”.

A situação financeira dessas famílias em geral é desalentadora. Não há suporte suficiente para enfrentar o sustento de uma pessoa soropositiva, a maioria sem nenhum tipo de renda. Carolina conta que frequentemente se depara com ambientes melancólicos, no qual o paciente vive isolado, sem assistência por mínima que seja. Por preconceito, ignorância ou indiferença mesmo, muitos doentes vivem abandonados e a esses ela se dedica com mais empenho ainda.

“Até hoje, os soropositivos mais necessitados são os que mais nos procuram. Os que têm condições financeiras se tratam no Rio. Às vezes, um dos nossos some, deixa de frequentar as reuniões, aí eu vou atrás. Numa dessas visitas, o rapaz veio me atender no portão e percebi que ele mal conseguia andar. Estava tão fraco, que chamei uma ambulância para interná-lo no Raul Sertã. Ele morreu dois dias depois, de câncer no fígado. Cada vez que isso acontece, que perco um deles, é uma tristeza, fico abalada, porque cada uma dessas pessoas eu tenho como filhos adotivos que Deus me deu. Então, me empenho para que se cuidem, que não desistam de viver, que se importem e deem valor às suas vidas. Todas elas são importantes”, diz, de forma contundente e emocionada. 

Imagens impactantes para  chamar a atenção dos jovens

Atualmente, a Pastoral dá assistência a 186 pessoas soropositivas, sendo que ao longo de 20 anos, Carolina contabiliza mais de 100 mortes. Todo ano ocorrem cerca de três óbitos no município. A faixa etária que mais a preocupa é a dos adolescentes e jovens. Algo em torno de 50% dos infectados têm entre 13 e 24 anos. Para alertar para o perigo da Aids, Carolina faz palestras nas escolas. 

“É alarmante o número de pré-adolescentes com vida sexual ativa e meninas engravidando tão cedo. No início, os alunos se mostravam indiferentes, não demonstravam nenhuma preocupação com a doença. Então, para impactar, chamar a atenção deles, passei a mostrar fotos de pessoas infectadas, com aspecto de doentes terminais. E de maneira enfática, perguntava se eles queriam terminar daquele jeito. Foi como consegui atrair a atenção deles e continuo usando essa ferramenta quando encontro uma turma desinteressada. Essa juventude precisa levar a Aids a sério, porque essa doença ainda não tem cura e pode levar à morte. Os jovens não estão se importando para o perigo que correm. Têm vários parceiros, não se previnem, não pensam. E assim, estupidamente, colocam suas vidas em risco”, lamenta.     

Ela lembra que quem toma o coquetel conforme prescrito pelos médicos, podem levar uma vida normal, estudar, trabalhar. “Atendemos pessoas que têm o vírus já desenvolvido há mais de 40 anos, e no entanto o aspecto é saudável, ninguém percebe que eles têm Aids. Todo cuidado é pouco, e não se deve negligenciar do tratamento. A Pastoral foca muito nisso, insiste no diagnóstico precoce. É importante saber o resultado da sorologia antes da doença aparecer, para manter a carga viral inicial estável, deixando-a indetectável e a transmissão mais difícil”.     

De acordo com Carolina, o trabalho da Pastoral vai além do cuidado com a saúde. O primeiro foco é o amor, é estender a mão. “Não julgar, não importa como o indivíduo viva, se é casado, se é homossexual, que tipo de vida leva. Nada disso interessa, não fazemos julgamento de ninguém nem de como vive. O credo também não nos importa, temos pessoas que professam as mais diferentes religiões, e são acolhidos da mesma forma, com o mesmo amor. O ser humano é o foco. É como Jesus pregava, não fazer acepção de pessoas. É uma população muito diversa, mas dentro da diversidade a gente se une”, diz.

“A missão que Deus me deu”

Apesar das perdas, sempre dolorosas, Carolina se sente abençoada pela missão que lhe coube. Sua satisfação vem do fato de ver os que sobrevivem, trabalhando, tocando suas vidas. “Ter atividades, tira o foco da doença, alivia o espírito das angústias que a doença traz, formam famílias. Considero que este trabalho da Pastoral é algo precioso, bonito. Me enriquece, me faz sentir melhor como ser humano, me transforma a cada experiência vivida. Seja qual for, boa ou não, tudo vale a pena. Presenciei momentos de perdão, de aceitação, as mais lindas lições de vida que alguém pode ter. Do que posso reclamar, diante do que sou e tenho para oferecer a essas pessoas, que precisam de tão pouco para seguir em frente?”  

Comovida, conclui: “Entre essas 186 pessoas que assistimos, muitos deles têm alegria de viver, se divertem, sorriem. Diante de cenas assim, eu penso que só tenho que agradecer a Deus pela oportunidade de fazer parte desse trabalho, que aquece o meu coração e me faz pensar, a cada dia, pela vida que tenho com a minha família, que também foi transformada. O que posso querer mais? Nada, nada, nada! Às vezes, meu marido pergunta se eu não tinha uma pastoral mais ‘alegrezinha’ pra cuidar (conta rindo). Ai, respondo: meu filho, a missão que Deus me deu foi essa, então… ”.   

Em Nova Friburgo, o Escritório Nacional funciona juntamente com o Diocesano, situado na Rua Major Marques Braga,18, sl.101, Centro, tel. (22) 2533-0089.

 

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TAGS: Aids | saúde