Friburgo perde a museóloga Lilian Barretto, aos 74 anos

Professora e ex-diretora de museus que amava a cidade foi indicada duas vezes para ministra da Cultura
sexta-feira, 02 de março de 2018
por Ana Borges (ana.borges@avozdaserra.com.br)
Foto de capa
Lilian Barretto (Arquivo AVS)

Faleceu na noite da última quinta-feira, 1º, vítima de um AVC, a museóloga Lilian Barretto, aos 74 anos, no Rio de Janeiro. Carioca de nascimento, Lilian passou sua infância e juventude em Nova Friburgo, que ela costumava dizer que só não era seu berço natal porque sua mãe entrara em trabalho de parto durante descida da serra. Na década de 1990, Lilian voltou a residir na cidade, quando passou a se dedicar a projetos de sua área profissional.

Desde 2010, ocupava o cargo de gerente do Departamento de Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural de Nova Friburgo, responsabilidade que lhe foi confiada em reconhecimento pelo seu trabalho em prol da cultura brasileira. Formada em História da Arte pela UFRJ e diplomada em cursos de arte decorativa na França, Lilian construiu uma trajetória respeitável ao longo de sua vida: foi professora da PUC-Rio; idealizadora de programas culturais para o Movimento Brasileiro de Alfabetização (Mobral); coordenadora adjunta do Programa Nacional de Museus da Fundação Nacional Pró-Memória; diretora da Fundação Casa de Rui Barbosa e da Fundação Biblioteca Nacional; além de ter sido indicada duas vezes para ministra da Cultura.

Foi diretora do Museu da República por seis anos (1983-89), e durante sua gestão, desenvolveu o projeto de aproximação da instituição com os cidadãos, possibilitando que a comunidade vivenciasse e participasse da história do museu. Foi também responsável pelo restauro integral da edificação, tal como a conhecemos hoje. Em 2010, Lilian recebeu a Medalha Comemorativa do Cinquentenário do Museu da República, por seus relevantes serviços. Entre outras, Lilian Barretto recebeu as seguintes homenagens: título de cidadã benemérita do Estado do Rio de Janeiro; Medalha Martim Affonso do Estado de São Paulo – Comemorativa do Mérito Cultural; título de Cidadã da Paz – Comunidade Bahaih da ONU; e foi a primeira mulher do país a receber a Medalha do Pacificador – honra máxima do Exército Brasileiro.

Uma de suas máximas preferidas era o lema do Mobral: “Cultura é a passagem do homem pelo mundo: ele mesmo, sua sombra, seu rastro, seu eco”. Lilian Barretto não se limitou a adotá-la, mas a praticá-la: passou pelo mundo, mas, acima de tudo, deixou sua marca na história brasileira e na vida de todos que tiveram a felicidade de privar de sua agradável e sempre instrutiva companhia. O velório será realizado neste sábado, dia 3, a partir das 13h, no Cemitério São João Batista, em Botafogo, no Rio de Janeiro. O sepultamento será às 16h no mesmo local.

Mensagens

Roosevelt Concy, presidente do Country Clube:

“Nós nos conhecemos em 1998, quando eu era vice-prefeito. Naquela época, Lilian Barretto nos deu uma ajuda preciosa na restauração da Fonte do Suspiro. Quando assumi a secretaria de Cultura, no governo Heródoto Bento de Mello, a convidei para  criar a gerência de Patrimônio Histórico e ser a titular da entidade. Já sabíamos de seu prestígio e o respeito que lhe era devotado, no Rio e em Brasília, por sua atuação.

Assim, com a criação do Patrimônio Histórico, foi possível fazer o tombamento de 150 imóveis, e organizar tudo que havia em relação à preservação histórica, material e imaterial. Lilian foi a grande líder desse movimento. Também convidamos para integrar a equipe, por sua capacidade profissional, o historiador e pesquisador Luiz Fernando Folly, que, acredito, deve muito de sua ascensão na carreira, ao aprendizado que teve junto a Lilian.

Agora, com essa perda irreparável, Friburgo fica mais pobre. No entanto, ela nos deixa um grande legado para as próximas gerações. Na comemoração dos 200 anos da cidade, ainda poderemos apreciar um pouco da Friburgo antiga, com alguns de seus imóveis preservados, como as residências de Galdino do Valle, da família Sertã, dos Celles Cordeiro, do dr. Salim, além de vários outros imóveis arquitetonicamente históricos.

Em nossa gestão, todas as placas solicitadas para as fachadas comerciais passava por sua criteriosa avaliação. Nas unidades tombadas, ela não permitia excessos: mandava retirar ou adequar aos padrões de cor e tamanho que não ferisse a estética do prédio e da cidade.

Houvesse meia dúzia de outras Lilians e nossa Friburgo seria outra e muito melhor. Afinal, por sua iniciativa e perseverança, ela conseguiu interditar obras da loja Bota Preta, cujo prédio quase foi demolido, entre outros que porventura estivessem na mira da especulação imobiliária. Ela era competente, arrojada e destemida.”

Vanessa Melnixenco, historiadora:

“Das lembranças que tenho com a Lilian, essa é uma das minhas preferidas: um almoço na churrascaria, em 2014. O cachorrinho faminto apareceu na janela e ela não sossegou mais! Lilian era um desses grandes seres humanos que não cabem em si. Passava seu conhecimento adiante com autoridade, leveza e, sobretudo, humildade. Aprendi muito com essa mulher fantástica, de trajetória invejável, de uma vida dedicada à cultura brasileira: trabalhou no Mobral, no Programa Nacional de Museus, foi diretora da Fundação Casa Rui Barbosa, Biblioteca Nacional, Museu da República. Ganhou inúmeros prêmios e homenagens, inclusive da ONU, além de ter sido a primeira mulher do país a receber a Medalha do Pacificador, honra máxima do Exército Brasileiro.

Uma de suas máximas preferidas era o lema do Mobral: “Cultura é a passagem do homem pelo mundo: ele mesmo, sua sombra, seu rastro, seu eco”. Lilian não somente proferia esta frase, como também a tomou como sua: passou pelo mundo, mas, acima de tudo, deixou sua marca na história brasileira e na vida de todos que tiveram a felicidade de conviver ao seu lado.

Tenho o maior orgulho de ter sido sua pupila. Dói muito saber que vou ter que seguir sem ela, mas sei que ela vai continuar sempre me olhando e me protegendo. Saudade pra sempre, pecadinho!”

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