Fica a dica: descasque mais, desembale menos

Nutricionista comenta aspectos positivos e negativos de duas dietas da moda
sábado, 31 de agosto de 2019
por Juliana Monnerat*
Fica a dica: descasque mais, desembale menos

Não existe fórmula mágica, o que precisamos aceitar é que a nutrição precisa ser individualizada! Acredito que todos saibam que é essencial comer legumes, verduras, frutas e beber bastante água. Mas será que ser nutricionista é só isso? Garanto que não! Durante a consulta temos que fazer diversas perguntas para o paciente, analisar exames bioquímicos, detectar possíveis deficiências de nutrientes e então montar o plano alimentar. Será que todo mundo precisa comer a mesma coisa? Será que o seu problema ou objetivo é o mesmo que o do seu amigo que recomendou o nutricionista?

A partir desses questionamentos entro em um assunto muito polêmico: dietas da moda! Até que ponto fazer o que é propagado em revistas, televisão e redes sociais te possibilitará ser saudável ou até mesmo emagrecer? Como uma foto ou matéria sucinta vai determinar o que você vai comer ao longo dos próximos meses? Com essas perguntas fica mais fácil entender que não é tão simples assim. Escolhi duas dietas da moda para explicar um pouco e apontar alguns efeitos positivos e negativos.

Dieta isenta de glúten: o glúten é uma rede elástica formada a partir do contato da gliadina e glutenina, duas frações proteicas presentes em alguns cereais, como o trigo, com a água. É o glúten que confere a elasticidade dos pães e massas de modo geral. A retirada do glúten se tornou muito popular, mas por quê? Se pararmos para analisar, as principais fontes de glúten são alimentos processados/ultraprocessados e com uma alto teor de calorias, dentre eles os pães, bolos, biscoitos e salgadinhos.  

 

Com a retirada desses tipos de alimentos do dia a dia existe uma grande chance da pessoa emagrecer, porém não pela presença do glúten. Por serem processados ou ultraprocessados, esses alimentos possuem uma grande quantidade de açúcar, sal, corantes, conservantes e adoçantes. São esses os responsáveis pelo ganho de peso e o aparecimento de doenças crônicas não transmissíveis como diabetes, obesidade, hipertensão e alguns cânceres. 

Então retirar glúten é bom? Depende! De um modo geral, o consumo de processados e ultraprocessados deve ser pequeno, mas isso não quer dizer que você nunca mais vai comer um pão porque engorda e faz mal para a saúde. Devemos buscar uma vida equilibrada, sempre priorizando os alimentos de verdade na nossa rotina e optando por aqueles mais processados em momentos de correria ou de prazer. Vai dizer que você não sente vontade de comer um bolo de vez enquanto!? Mas atenção: lembra que a Nutrição é individualizada? 

Em casos de Doença Celíaca, intolerância e alergia ao glúten o mesmo deve ser retirado para evitar a progressão da doença e/ou os sintomas como diarreia, flatulência e distensão abdominal. Também é necessário um olhar diferenciado para aqueles pacientes que consomem grande quantidade de alimentos com alto potencial alergênico, podendo ser necessária a retirada do glúten.

Dieta Low carb: o carboidrato é a fonte imediata de energia para o nosso corpo, sendo essencial para inúmeras reações no nosso organismo. O termo “low carb” é caracterizado como uma dieta com baixa quantidade de carboidratos. Existem diversas vertentes da dieta low carb, passando por restrição radical ou quantidades menores/moderadas do nutriente. A linha de raciocínio é bem parecida com a dieta isenta de glúten: retirando carboidratos, a caloria da dieta diminui e o indivíduo emagrece. 

Também devemos seguir no mesmo pensamento com relação à frequência do consumo de alimentos processados e ultraprocessados, que são fontes de carboidratos. O importante ao adotar esse estilo alimentar é priorizar o tipo de carboidrato ingerido. Preferencialmente, basear a alimentação em frutas, verduras, legumes, raízes, cereais integrais e leguminosas, que são fonte de carboidratos de excelente qualidade, além de terem uma grande quantidade de fibras, ajudando no funcionamento do intestino e trazendo mais saciedade. 

Sempre que restringimos determinado nutriente, consequentemente compensamos naqueles que não foram restringidos, nesse caso proteína e lipídeos (gordura). Para que a dieta seja equilibrada caloricamente e nutricionalmente, as fontes de proteínas e lipídeos também devem ser selecionadas de forma qualitativa. Então vem o questionamento: a low carb serve para todo mundo? Não, quando o objetivo é o ganho de massa muscular ou para atletas de elite a dieta low carb deve ser repensada. Quando aplicar? É uma ótima estratégia para pacientes com esteatose hepática (gordura no fígado) e Síndrome do Ovário Policístico (SOP), por exemplo. 

Me despeço resumindo essas duas dietas da moda com uma frase que está muito na moda: “descasque mais e desembale menos”! A base da longevidade e saúde é o que ingerimos. Sejamos mais conscientes ao nos alimentar. 

Não posso deixar de agradecer a oportunidade de falar sobre nutrição e desejar um feliz Dia do Nutricionista a todos os colegas de profissão. 

Sobre a autora

Juliana Arruda de Souza Monnerat nasceu e morou em Nova Friburgo até completar 18 anos, “graças aos meus pais excepcionais, Andréa e Roberto, que são os verdadeiros responsáveis por eu ser a profissional e a pessoa que sou”. No último ano de colégio decidiu ser nutricionista para ajudar pessoas. 

Ainda no ensino médio visitou o campus Valonguinho, da Universidade Federal Fluminense, conversou com professores e conheceu o Laboratório de Nutrição Experimental (LabNE): “o pouco que vi foi suficiente para me apaixonar. Com muito estudo e apoio dos meus professores, amigos e familiares, eu consegui concretizar a minha vontade. Passei para a tão sonhada UFF”. 

Durante os cinco anos e meio de graduação Juliana viveu experiências em diversas áreas de atuação como Saúde Pública, Unidade de Alimentação e Nutrição, e Iniciação Científica. 

Segundo ela, a experiência em Iniciação Científica a levou ao mestrado no Programa de Pós-Graduação em Ciências Cardiovasculares da Faculdade de Medicina – UFF: “foi com a pesquisa que eu passei a valorizar ainda mais o ensino superior e percebi que ter acesso à educação de qualidade é algo transformador. E por último, e não menos importante, foi por ela que pude entrar para o LabNE... Aquele laboratório que conheci e me apaixonei na visita que fiz quando ainda cursava o terceiro ano do ensino médio”. 

Atualmente, Juliana faz pós-graduação em Nutrição Funcional pela Vp - Centro de Nutrição Funcional, onde tem contato com nutricionistas, farmacêuticos e biólogos, “ratificando cada vez mais a importância de uma equipe multidisciplinar”. 

Também atende em Nova Friburgo e Niterói, e é nutricionista voluntária no projeto social Nutrir o Amanhã – NOA. “Sem dúvida, o que me motiva a estudar mais e buscar coisas novas é atender, tanto no consultório quanto na comunidade. Vivenciar e escutar sobre a realidade de cada um, ter um olhar crítico e ao mesmo tempo humano é desafiador e gratificante. É prêmio para dias mais conturbados e inspiração para continuar seguindo minha jornada, independente dos percalços que encontro no caminho”. 

 

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