Feminicídio em Friburgo: Rodrigo tinha ameaçado Alessandra de morte

Confidência foi feita a amiga poucas horas antes do crime. Abuso de drogas teria tornado relacionamento insustentável
sexta-feira, 18 de outubro de 2019
por Adriana Oliveira (aoliveira@avozdaserra.com.br)
Rodrigo e Alessandra: relacionamento com desfecho trágico (Reprodução da web)
Rodrigo e Alessandra: relacionamento com desfecho trágico (Reprodução da web)

Na mesma noite em que foi vítima do incêndio criminoso que lhe custou a vida, a artista plástica Alessandra Vaz confidenciou a uma amiga de longa data, empresária em São Pedro da Serra, que vinha sendo ameaçada de morte por seu ex-companheiro, sócio e algoz, Rodrigo Marotti. A confissão, ao pé do ouvido, foi feita num centro espírita em São Pedro, onde Alessandra reapareceu no último dia 7, depois de algum tempo sumida, em busca de alento. Poucas horas depois, ao sair dali, começaria o pesadelo em sua casa no distrito de Mury, na qual Rodrigo ateou fogo, com Alessandra e a amiga Daniela Mousinho trancadas dentro. Ambas tiveram queimaduras em mais de 80% do corpo. Daniela morreu dois dias depois e Alessandra, no último dia 11. 

A informação da ameaça, obtida com exclusividade por A VOZ DA SERRA, foi passada por amigos das vítimas à Promotoria Criminal do Ministério Público em Nova Friburgo e à Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam), onde a empresária prestou depoimento na última quarta-feira, 16. A Promotoria confirmou ao jornal a informação, obtida através de outros testemunhos, e aguarda provas documentais, como um suposto áudio contendo a ameaça explícita, para acrescentar aos autos do processo. 

Como se trata de um duplo feminicídio e houve prisão em flagrante, com confissão do crime, o caso já está na 1ª Vara Criminal de Nova Friburgo. Caberá à Promotoria acusar o réu perante um júri popular, e detalhes como o da ameaça a Alessandra poderá servir como mais um qualificador (premeditação) do crime, aumentando ainda mais a pena de Rodrigo, que está detido num presídio no Rio. Outros agravantes, até agora, seriam: motivo fútil, emprego de fogo, impossibilitar a defesa das vítimas e o próprio feminicídio em si. 

Triste e deprimida

Na noite o último dia 7, segundo a amiga - cuja identidade o jornal prefere preservar -, Alessandra dirigiu a sessão no centro espírita e fez questão de receber um passe espiritual. Daniela, que a acompanhava, preferiu esperar do lado de fora. Na conversa, Alessandra contou à amiga que não estava bem. Disse que vinha se sentindo ultimamente triste e deprimida por causa do ex-companheiro e que estava decidida a procurar um advogado para cuidar da dissolução da sociedade com Rodrigo.

Abuso de drogas

Ainda segundo esta amiga, Alessandra era muito apaixonada por Rodrigo, e ela confidenciou que o relacionamento dos dois começou a ruir devido às dificuldades dela em lidar com um problema dele: a dependência química. “Ele foi se envolvendo cada vez mais com drogas e, depois da separação, contraindo dívidas por isso. A fonte (o dinheiro de Alessandra) secou, e isso pode tê-lo levado a exigir mais e mais compensações financeiras”, acredita a amiga, baseada no desabafo de Alessandra. 

Alessandra e Rodrigo, que moravam juntos em São Pedro, mudaram-se para a casa no condomínio Parque dos Alpes, em Mury, há cerca de um ano, para ficarem mais perto da loja em que trabalhavam. Estavam separados de fato há cerca de dois meses. Alessandra, segundo a amiga, chegou a alugar um espaço para Rodrigo morar sozinho. Resolvida a separação de corpos, faltava dissolver a sociedade na empresa de roupas feitas de tecidos pintados à mão por Alessandra.

Nas palavras dessa amiga, Alessandra comentava que Rodrigo era um excelente profissional e se mostrava muito parceiro e entusiasmado com o negócio quando estava “limpo”. Mas chegava a desaparecer durante dias quando se drogava, o que vinha provocando crises e discussões cada vez mais intensas entre o casal. Na gangorra comportamental provocada pelo vício, alternava momentos de amabilidade e agressividade. O relacionamento ficou insustentável.

Nesse meio tempo, Daniela, que era artesã e também havia se separado do marido, passou a trabalhar com Alessandra. Na noite do crime, uma segunda-feira, as duas estavam preparando, na casa de Mury, as coleções que iriam expor numa feira no Rio.

Sem ciúmes

Outra amiga ouvida por A VOZ DA SERRA, esta mais próxima a Daniela e uma das primeiras a chegar ao Hospital Raul Sertã na noite do incêndio, acredita que o crime não tenha sido motivado por ciúmes. Pelo contrário, segundo ela, Rodrigo e Daniela se davam bem e se revezavam na tarefa de administrar as quatro lojas de Alessandra: em São Pedro, a de Mury, uma em Poços de Caldas-MG e, mais recentemente, outra filial Copacabana, no Rio.  

Esta amiga, lojista que conviveu com Daniela por mais de 15 anos em São Pedro, confirma que Alessandra era apaixonada por Rodrigo. Tanto que ele foi a primeira pessoa para quem ela ligou ao saber do incêndio na casa. Ele obviamente não atendeu. Mais tarde, no hospital, ela soube de detalhes como o de Alessandra e Daniela sendo retiradas por vizinhos da casa em chamas, ainda lúcidas, acusando nominalmente Rodrigo como autor do crime.

Segundo outros amigos ouvidos por A VOZ DA SERRA, Alessandra se relacionou com Rodrigo, 17 anos mais jovem, por cerca de quatro anos. Ela o conheceu comprando tintas numa loja de materiais de construção no centro de Friburgo, onde ele trabalhava como vendedor. Alessandra usava tinta comum para pintar tecidos. Numa rede social, em 12 de junho de 2018, ela prestou publicamente uma carinhosa homenagem ao então namorado, no perfil dele (já apagado): “Nunca pensei que pudesse sentir tanto amor. Você chegou já atropelando tudo, transformando minha vida! (...) Tenho certeza do sucesso desta união”, escreveu. 

A VOZ DA SERRA tentou ouvir a defesa do réu, mas não teve êxito.

Leia mais detalhes sobre o crime e as vítimas na edição impressa deste fim de semana.

 

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TAGS: crime