Falta de educação transforma o Bengalas em depósito de lixo a céu aberto

Potes, latas, pneus, sacos de lixo, móveis quebrados, entulho de obra: tudo continua sendo jogado impunemente dentro do rio
sábado, 27 de julho de 2019
por Guilherme Alt (guilherme@avozdaserra.com.br)

Está cada vez mais difícil para o Rio Bengalas deslizar sereno sob o olhar do Cruzeiro do Sul, como diz o hino de Nova Friburgo. Pneus, sacolas, garrafas, comidas, entre outros objetos são facilmente encontrados nas águas antes cristalinas do principal rio da cidade. Nossa equipe também flagrou um líquido claro saindo de uma das galerias que desembocam no rio e esse líquido não se misturava a água. A única certeza é de o tal líquido era nocivo ao Bengalas. O mato alto na encosta encobre outros objetos descartados. O odor que vem das águas não é dos melhores. Em alguns trechos, as pessoas precisam prender a respiração para passar “ileso” ao cheiro.

O Bengalas já foi uma rica fonte de fauna e flora. Como relatou a jornalista Dalva Ventura, é difícil acreditar que crianças nadavam em suas águas e comerciantes, caixeiros, aprendizes e oficiais iam pescar pião e piabanha nos dias de verão. Quem diria que, em datas especiais, como no aniversário de Nova Friburgo, o Bengalas era represado e pequenos barcos e gôndolas deslizavam, enfeitados, em suas águas. O curioso é que era navegável. 

Havia inclusive no século 19, um porto na altura de Duas Pedras, o chamado Porto do Dutra, que conduzia passageiros.  À noite, as escuras avenidas que margeiam o rio eram palco de namoros, digamos, mais acalorados e motivo de escândalos e muito disse-me-disse nas famílias friburguenses. O que temos para hoje, infelizmente, é esgoto.

A prefeitura garante que a limpeza é feita constantemente, mas o trabalho não tem fim. O problema é que as pessoas continuam jogando não apenas lixo domiciliar, mas até móveis, eletrodomésticos, carrinhos de bebê e restos de obras no leito do rio. Há a suspeita de lixo industrial com produtos químicos sendo despejados por estabelecimentos comerciais, confecções e fábricas. Impressionante, não? 

Com tantas agressões, é de se admirar até que o Bengalas continue vivo. A esperança reside em cada ave que pousa nas pedras e bancos de terra para pescar. As estações de tratamento de esgoto certamente melhoraram bastante os problemas do Bengalas. O Instituto Estadual do Ambiente (Inea) vem trabalhando no desassoreamento de seu leito, mas ainda falta muito.

“Eu costumo caminhar por aqui todos os dias pela manhã. Mesmo quando o dia está com sol e céu azul, que torna esse ambiente bem bonito. Essa paisagem, no entanto, perde o valor por conta da situação que passa o Bengalas, com todo lixo flutuando”, disse uma mulher que fazia exercícios na calçada.

“Fico admirado como tem pássaros que se alimentam neste rio. Essa água poluída, cheia de resíduos, como é possível? Talvez se as pessoas presenciassem mais cenas como essas, perceberiam que todo o lixo jogado fora do lixo, prejudica o ecossistema”, falou um morador.

 “Desde que eu me entendo por gente esse rio é sujo. Muito por culpa nossa, também. Será que tem jeito? Gostaria que o nosso Bengalas voltasse a ser limpo”, desejou outro morador.

Histórico de enchentes

Nova Friburgo desenvolveu-se às margens do Rio São João das Bengalas, formado pela confluência dos rios Cônego e Santo Antônio que se lança no Rio Grande e deságua no Paraíba do Sul. O Rio São João das Bengalas não tinha esse alinhamento que possui hoje e pequenos riachos se estendiam pelo centro da cidade.

Segundo a historiadora Janaína Botelho, no início do século 20, no período das chuvas, a partir do mês de novembro, a enchente atingia as casas e derrubava os pontilhões. A primeira colheita dos colonos suíços foi um fracasso em razão das incessantes chuvas.

As fontes iconográficas de princípios do século 20 demonstram que as enchentes faziam parte do cotidiano da cidade. Mas o Rio São João das Bengalas não deve apenas ser lembrado em caso de enchentes.

Festejos em um rio navegável

Ainda de acordo com a historiadora, na comemoração do centenário da fundação de Nova Friburgo, em 1918, os descendentes do Barão de Nova Friburgo se incumbiram de organizar uma festa veneziana no Rio Bengalas. Segundo informações, a família do barão e  Ernesto Kepp patrocinaram 12 pequenos barcos para quatro passageiros. No fim da Avenida Galdino do Vale, na altura do Colégio Modelo, as águas foram represadas deixando o Rio Bengalas com um enorme volume d´água. A avenida foi toda iluminada e o povo disputava para conseguir um lugar às margens do rio para ver os 12 barcos com as autoridades.

“O Rio São João das Bengalas banhava as lavouras do vale do Rio Grande, hoje Conselheiro Paulino. Ali se plantavam crisântemos, rosas e hortaliças e a fertilidade de seu solo era assegurada pela proximidade com esse rio. Era o celeiro agrícola no centro da vila. Ganhou tanta importância que o vale do Rio Grande passou a ser distrito, o de Riograndina. E assim o velho Rio São João das Bengalas além de tristezas já nos deu muitas alegrias”, escreveu Janaína.

Tratamento de esgoto

A concessionária Águas de Nova Friburgo informou que quatro estações de tratamento de esgoto (ETE´s) tratam cerca de oito bilhões de litros de esgoto por ano no município. O índice de coleta e tratamento de esgoto era zero antes da concessionária assumir a administração dos serviços de saneamento básico, em 2009.

As ETE´s operam para reduzir a carga poluidora do esgoto e devolvê-lo com qualidade compatível aos corpos hídricos onde serão lançados. Vale destacar que Águas de Nova Friburgo foi a primeira empresa de saneamento do estado do Rio de Janeiro a utilizar Biorreatores de Leito Móvel (MBBR – Moving Bed Biofilm Reactors) como sistema de tratamento. Esse sistema permite que 95% da matéria orgânica seja removida durante o processo de tratamento do esgoto, em um espaço relativamente pequeno, sem ruídos e sem emissão de odores desagradáveis, se comparado a outras tecnologias.

A concessionária informa, ainda, que equipes de manutenção da concessionária monitoram periodicamente os interceptores de esgotos ao longo do Rio Bengalas e, quando identificado qualquer lançamento clandestino de efluentes industriais,  a comunicação é feita imediatamente aos órgãos competentes.

A concessionária apoia e participa de iniciativas para preservação e limpeza do Rio Bengalas como o recolhimento de pneus nas margens e leito do rio e ações como o “Dia da Limpeza”, organizada no dia 15 de setembro em várias cidades e países.

 

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