Do mundial, uma lição: reconhecer e crescer

Vincius Gastin: o que o futebol nacional precisa aprender com eliminação do Brasil na Copa do Mundo
sábado, 07 de julho de 2018
por Vinicius Gastin
(Foto: Henrique Pinheiro)
(Foto: Henrique Pinheiro)

A Bélgica foi melhor e mais competente que o Brasil. Afirmação simples em sua formação, complexa em sua análise. Ainda mais complicada em sua aceitação. Reconhecer a superioridade de um adversário não faz parte da cultura de quem sempre foi protagonista. De quem um dia foi o personagem principal de uma modalidade completamente dominada pelo verde e o amarelo. Há algum tempo não é mais. O país do futebol não é aquele que apenas respira futebol. Ou não deveria ser. A nação do futebol é aquela que reconhece a sua importância social, econômica e histórica, em todos os seus níveis. E mais do que isso: respeita essa identidade e investe para fortalecê-la. No Brasil não é assim.

Existe uma corrente pelo fim dos estaduais. Há pouco tempo, foi ventilada a possibilidade do fim da disciplina da Educação Física em determinadas séries nas escolas. Há muitos anos, projetos sociais esportivos preenchem as lacunas deixadas pelo poder público. Esse é o país do futebol? Ou seria a nação que apenas enxerga a maior paixão nacional como um grande negócio?

Não fosse Tite, nem estaríamos na Rússia. É grave. Há algum tempo o futebol europeu domina o cenário mundial, e novamente eles estarão na final da Copa do Mundo. De um lado, as duas Seleções de melhor valor individual, França e Bélgica. De outro, aquelas que avançaram no espaço deixado por camisas tradicionais, tais como Argentina, Alemanha, Espanha e até mesmo Itália e Holanda, que sequer foram ao Mundial. Russos, croatas e suecos evoluíram, obviamente, e seria hipocrisia não reconhecer seus méritos. Com a globalização, todo mundo aprendeu. Pela tradição e novo olhar, a Inglaterra fica de fora desta lista. É bom lembrar que há anos se investe em futebol de base por lá, e os ingleses têm dominado as competições nas categorias inferiores. O resultado começa a aparecer no time principal.

Não era uma Copa difícil. Mas também não é vexame. O adversário foi melhor e mais competente. Não fossem as chances desperdiçadas por Coutinho e Firmino, os olhos fechados de Fernandinho, a inspiração de Courtois e a falta da mesma por parte de Neymar. Casemiro fez falta para ocupar o setor onde De Bruyne flutuou. Não fossem esses e outros “poréns”, a Seleção poderia ter avançado. Na Copa, claro. Porque no restante do contexto do futebol, não bastaria erguer a taça. A reflexão é mais profunda, a começar por uma entidade cuja o ex-presidente está preso. Não há investimentos na base, no futebol do interior. Cem clubes jogam o ano inteiro – sendo que a maioria com muita dificuldade – e os outros mais de 500 padecem. Quase todos devem, e muito.

A consequência de todo esse cenário é uma geração enxuta, sem grandes talentos. Não discutimos ausências na lista de Tite. Em um país de 200 milhões, onde a grande maioria vive o futebol, fica claro que há algo errado no processo. A fábrica de jogadores exporta, de maneira cada vez mais precoce, e os brasileiros não absorvem as características do futebol nacional. A lei protege e impulsiona as grandes negociações. Somos tão europeus quanto os próprios, mas menos organizados, e desta vez, menos talentosos que alguns deles. Marcelo ou Felipe Luis? O primeiro é mais jogador, mas com o segundo o encaixe era melhor. Apostar no talento ou na tática? A Copa das identidades abandonadas propôs esse contraponto a todo instante. Fomos Brasil durante apenas 60 minutos contra o México, ou nos lampejos de Coutinho e Neymar.

É hora de reconhecer e crescer. Não é o momento de caça às bruxas, mas de reorganização. Em todos os níveis. Tite deve sim, continuar o trabalho. Repito: não fosse ele, poderíamos ter ficado de fora da Copa, e numa eliminatória sul-americana de futebol pobre. Basta ver o desempenho dos nossos vizinhos – Peru e Argentina decepcionaram, e Colômbia e Uruguai mostraram-se dependentes demais de suas referências, Cavani e James.

E nós? Dependemos de quem e de que? Primeiro, de repensar o futebol nacional e rever toda a estrutura organizacional, especialmente quem são as pessoas responsáveis por pensá-la. Não apenas torcer para que os garotos que agora aparecem evoluam a ponto de defender a Seleção em 2022. Futuros “Neymares” não podem carregar o peso de um passado e presente corruptos. O título ou fracasso na Copa não tornam o país melhor ou pior. Mas podem ajudar a entender, através de sua Confederação, porque ele não evolui.

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