Das mãos que construíram a nossa história: um homem chamado Alberto Braune

Farmacêutico que dá nome à principal via da cidade ficou conhecido por promover ações em prol da comunidade
sábado, 14 de maio de 2016
por Ana Blue
Avenida Alberto Braune (Foto: Lúcio Cesar Pereira)
Avenida Alberto Braune (Foto: Lúcio Cesar Pereira)

Dois turnos de alunos entre a primeira e a oitava série, com turmas de quase 30 cabeças cada uma, a maioria provenientes de Olaria e bairros vizinhos — embora eu morasse no Belmonte, pra lá do centro de Conselheiro Paulino — e até hoje acho que poucos souberam na época ou sabem hoje em dia quem era aquele cara estampado por anos a fio num quadro grande na sala da diretoria, como um Jesus abençoador rogando por nós, alunos infernais de primário. Claro, em geral sabíamos que era o homem que dava nome à escola, um tal senhor Dermeval Barbosa Moreira, mas ignorávamos completamente quem ele foi ou representou para a cidade. Sua figura só fui conhecer com maior intimidade anos mais tarde, ao ler uma coluna antiga de A VOZ DA SERRA chamada Ruas de Nova Friburgo, que contava brevemente a trajetória de homens e mulheres ilustres do município, pessoas estas que tiveram alguma relevância em sua história, e que, portanto, deram e dão nome aos seus colégios, praças, vias e demais equipamentos públicos. O senhor Dermeval, por exemplo, era médico. Homem de espírito altruísta que ajudou a muitos friburguenses pobres em épocas precárias e parcas de recursos, lá pelos idos anos 50 e 60. Tanto que dá nome, além do colégio, a uma das principais praças da cidade.

É genial e imprescindível homenageá-los, estes homens e estas mulheres que compõem a nossa memória, mas é uma pena que suas histórias não sejam tão conhecidas quanto seus nomes. Pensando nisso, neste aniversário da cidade, elegemos uma de suas principais personalidades, Alberto Braune, para, através dele, celebrar e homenagear demais personagens importantes de Nova Friburgo.

Per transit bene faciendo: ele passou fazendo o bem

Alberto Braune foi um farmacêutico friburguense, conhecido pela dedicação com a qual cuidava da população de Nova Friburgo, principalmente daqueles que não tinham recursos para arcar com os custos de consultas médicas e remédios. Seu consultório, junto à Pharmacia Braune, ficava no número 29 da avenida que hoje leva seu nome. Era uma figura que impunha respeito na cidade com a sua postura altruísta — mas que também era firme quando necessário, tanto que durante certo tempo cumpriu a função de delegado no município. Por tamanha benevolência para com os mais pobres, Alberto Braune era idolatrado pelas famílias friburguenses. Além de atendê-los gratuitamente, às vezes chegava até a deixar uns trocados na mesa, para os mais doentes, dizendo “Isso aqui é para você fazer uma canja”. As pessoas retribuíam como podiam, trazendo-lhe de presente um peru, um leitão, verduras, legumes... Ele ganhou o título de “pai dos pobres” muito antes de o presidente Getúlio ser identificado como tal.

Algumas famílias friburguenses mantinham um quadro com a sua imagem na sala de suas casas, junto a imagens religiosas. Presentearam-no com um anel de formatura de farmacêutico, comprado com o dinheiro obtido numa subscrição popular. Defenderam-no de acusações de exercício ilegal da profissão — as quais, no fim, não deram em nada, mas abalaram a saúde do ilustre cidadão, que veio a morrer apenas alguns anos mais tarde, em 5 de maio de 1929, aos 64 anos de idade.

A multidão cercou sua casa: todos queriam prestar-lhe homenagem e ajudar a carregar seu caixão. A estátua de Alberto Braune na Praça Dermeval Barbosa Moreira, erguida três anos após a sua morte, foi inteiramente custeada com dinheiro do povo, que se cotizou para erguê-la. Nela, lê-se uma inscrição com a opinião geral sobre Alberto Braune: ele passou fazendo o bem.

O médico hoje dá nome à principal avenida da cidade, no Centro, maior complexo comercial do município — por que não dizer, da região. Por ali passam todas as linhas municipais de ônibus, os desfiles das agremiações carnavalescas, os protestos, os desfiles cívicos.

Enfim. A vida friburguense acontece na Avenida Alberto Braune. 

A história da Avenida Alberto Braune
Jayme Jaccoud

“Já estava terminando o ano de 1831. Na Câmara da Vila de Nova Friburgo, discutia-se o ‘Plano da Vila’. Ruas precisavam ser projetadas e abertas para o seu crescimento. No dia 27 de outubro daquele ano a Câmara estava reunida na sua sala no ‘Château du Roi’ — apelido dado pelos suíços, quando aqui chegaram, ao prédio da sede da Fazenda do Morro Queimado. Era o maior prédio da região e, no pensamento deles, o único capaz de acolher D. João VI se ele resolvesse aqui chegar. O nome Château” perdurou durante quase dois séculos, mesmo após a demolição do prédio original e a construção, no seu lugar, do majestoso Colégio Anchieta dos nossos dias, que enfeita e é orgulho da nossa cidade. 

“Naquele dia, depois de muito debaterem, o seu presidente Jean Bazet saiu com seus vereadores para mostrar o local onde pretendia abrir uma grande rua na Vila, muito larga para aquele tempo. Desceram o morro e caminharam até à frente da Casa da Inspeção, que ficava defronte ao projetado e inacabado “quartel” constante do projeto inicial da Vila e onde se situa [situava-se, à epoca do texto] o nosso Grupo Escolar Ribeiro de Almeida. Ali todos concordaram que a nova rua acompanhasse uma linha oblíqua tirada do Armazém — localizado onde hoje se ergue o Edifício Caputo —, passasse em frente à Casa da Inspeção e seguisse reto até em frente à rua que ia para a Vila de Cima, rua esta conhecida hoje como Rua Leuenroth. Jean Bazet estudara medicina em Paris e lá morou nos primeiros anos que se seguiram à sua diplomação e até ser arrebanhado por Gachet para se incorporar à migração suíça para o Brasil. Ele já conhecia as ruas largas que lá se iam abrindo. Isto, presumimos, determinou a largura marcada para a futura rua, enormemente larga para a época, especialmente para uma pequena vila no interior do Brasil. A linha do lado direito da futura rua seguiria pela parte plana e alagadiça que acompanhava o Rio das Bengalas. A linha do lado esquerdo seguiria pegando as beiradas de morro que lá existiam. Daí a justificativa do nível da calçada esquerda ser mais alto do que o da calçada direita, e de que os prédios construídos daquele lado o foram sobre cortes feitos nos morro. A terra destes cortes ajudaria a nivelar a nova grande rua. Ali, naquele local, ela foi batizada de Rua do Senado. 

“Embora já planejada, somente em 1841, dez anos depois, a rua foi devidamente traçada e medida, acusando uma extensão de 280 braças (866m) de terreno edificável. 

Passaram-se os anos e aquela rua foi sendo habitada e aterrada. Os seus terrenos da parte direita iam até a margem do Rio das Bengalas, que serpenteava por trás deles, mas eram terrenos em grande parte alagadiços e inaproveitáveis. Com a retificação do rio entre o encontro dos rios Santo Antônio e Cônego e a Ponte do Suspiro, efetuado pela Província nos anos 1880, tornou-se necessário o aterro e a abertura de uma rua na margem por onde hoje passa Av. Comte Bittencourt. A Câmara, como sempre, não tinha dinheiro para esta obra. Mais uma vez surgem os Nova Friburgo. O Conde propõe à Câmara fazer a obra se ela consentisse em que ele para ali mudasse os trilhos do bondinho que seguia até a sua casa na Praça Princesa Isabel. Licença concedida e obra executada. Os proprietários de terrenos da Rua do Senado foram aterrando os seus terrenos alagáveis. Novas ruas perpendiculares foram sendo por eles abertas entre aquela rua e a nova avenida. A Vila ia crescendo e com ela a Rua do Senado, e as suas perpendiculares abertas iam recebendo novas casas. Nela, no lado par, grandes casas foram sendo levantadas, como as mansões das famílias Braune, Caputo, Sertã e Engert.

“No seu fim, do lado esquerdo, havia o terreno que fora destinado a uma praça, a projetada Praça da Alegria, que não saiu do papel. Ela fora cedida pela Câmara, em 1870, para que nela se edificasse a primeira estação da Estrada de Ferro, local hoje ocupado pelos prédios da Prefeitura Municipal. Com o passar do tempo a rua foi sendo aplanada, córregos e valas para as águas de chuvas foram sendo canalizados e, já nos anos vinte do século passado, foi pavimentada com paralelepípedos de granito. [...]

“O nome Rua do Senado se conservou até o fim da Guerra do Paraguai, quando, em 15 de janeiro de 1871, foi mudado para Rua General Argolo, nome este que se manteve até o dia 30 de julho de 1928, quando foi mudado finalmente para Avenida Alberto Braune”.

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