Dança, música e homenagens marcam Dia da Consciência Negra em Friburgo

“Existe a história do povo negro sem o Brasil, mas não existe uma história do Brasil sem o povo negro”, discursou o professor José Tadeu, da Colônia Pan-Africana
quarta-feira, 20 de novembro de 2019
por Fernando Moreira (fernando@avozdaserra.com.br)

Nova Friburgo celebrou nesta quarta-feira, 20, o Dia da Consciência Negra (feriado estadual), na Praça das Colônias, no Suspiro. Promovida pela colônia Pan-Africana e o Centro Cultural Afro-Brasileiro Ysun-Okê, a solenidade contou com uma série de apresentações musicais e de dança, além da exposição de quadros e de bonecas Abayomi, tradição africana.

As atividades reuniram secretários municipais, a primeira-dama Cristina Bravo, o delegado da 151ª DP Henrique Pessoa, além de professores e alunos do Colégio Municipal Padre Rafael, do Cordoeira, e representantes das colônias dos dez povos formadores de Nova Friburgo. Devido à chuva incessante, o hasteamento de bandeiras não foi realizado. A Cia Flor de Liz chamou a atenção com danças afro-brasileiras, e a banda Euterpe Friburguense fez uma apresentação especial. Teve ainda oficina de bonecas e exposição de quadros, pinturas e objetos produzidos pelos alunos da escola Padre Rafael.

“É motivo de alegria nos reunirmos mais de três séculos depois da morte de Zumbi dos Palmares para celebrar e reverenciar uma personalidade da história da resistência desse povo mais do que expressivo na trajetória brasileira. A data nos remete a um falecimento, é verdade, mas nos serve para lembrar da vida, das lutas e conquistas desse povo guerreiro e destemido”, afirmou o secretário municipal de Cultura, Mário Bastos Jorge, que representou o prefeito Renato Bravo.

A luta dos negros

“Tenho refletido bastante sobre a frase: ‘Onde estamos nós?’. Nós, negros, estamos em maior quantidade nos bairros Rui Sanglard, Alto do Floresta, Alto de Olaria e em diversos outros pontos. Mas porque essa predominância dos irmãos negros nos lugares mais afastados? Sabemos que, historicamente, estamos na periferia, participamos menos da vida cultural, social e econômica da cidade porque tivemos 358 anos de escravidão. Hoje somos em torno de 54% da população brasileira, mas esse quantitativo está invisível e se tornará cada vez mais invisível se não enxergarmos esse problema. É como diz Januário Garcia: ‘existe a história do povo negro sem o Brasil. Mas não existe uma história do Brasil sem o povo negro’”, declarou o professor José Tadeu Costa, diretor de divulgação da Colônia Pan-Africana de Nova Friburgo e do Centro Cultural Afro-Brasileiro Ysun-Okê.

Com 25 anos de experiência na Polícia Civil, o delegado titular da 151ª DP, Henrique Pessoa, fez um dos discursos mais contundentes e aplaudidos da solenidade. Ele se disse um militante ferrenho contra qualquer tipo de discriminação e preconceito, especialmente por trabalhar num meio onde esses temas costumam ser tabus.

“As pessoas vêm com discurso falacioso de que o Brasil é um país plural, de que aqui não existe discriminação e preconceito. Isso é uma falácia, uma mentira absoluta. O Brasil é um país extremamente discriminatório, racista, xenófobo e homofóbico. Hoje não é um dia para se comemorar, é um dia para refletir. O racismo é o sentimento mais devastador que o ser humano pode ter. Racismo é crime passível de pena e deve ser reportado à polícia sim”, declarou Henrique Pessoa.

Homenagem especial

Um dos momentos de maior emoção foi a homenagem póstuma a Nélio dos Santos, um dos fundadores e o primeiro presidente do Movimento Cultural Social do Negro em Nova Friburgo. Nélio – o Nelinho - e Graça, os dois filhos do saudoso militante da causa negra, entregaram pessoalmente aos membros da Colônia Pan-Africana e do Centro Cultural Afro-Brasileiro Ysun-Okê seis livros que Humberto Fontão, o Betito, amigo de Nélio dos Santos, havia recebido de presente anos atrás.

“Se o Centro Cultural Afro-Brasileiro Ysun-Okê está completando 32 anos de atuação é porque teve o Nélio como precursor. É como eu sempre brinco, não caímos de uma chuva ácida aqui em Nova Friburgo. Teve alguém que lutou muito para que esse movimento fosse criado. E essa pessoa foi o Nélio dos Santos”, disse Ilma Santos, presidente da Colônia Pan-Africana e do Centro Cultural Afro-Brasileiro Ysun-Okê.

Além dos seis livros doados, a Colônia Pan-Africana também recebeu de Humberto Fontão e dos filhos de Nélio dos Santos dois exemplares de A VOZ DA SERRA de 36 anos atrás. Um de 19 de novembro de 1983 e o outro de 22 de novembro do mesmo ano. As edições registram o início do movimento negro em Nova Friburgo, graças à atuação firme e incansável de Nélio dos Santos.

 

 

 

 

 

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