Curtas filmados na Suíça estão prontos para ganhar o mundo

Filmes de quatro jovens friburguenses já foram exibidos no Festival Internacional de Films Fribourg (FIFF) e em Nova Friburgo
sexta-feira, 03 de agosto de 2018
por Paula Valviesse (paula@avozdaserra.com.br)
Foto de capa
Parte do grupo na Suíça

Quatro jovens de Nova Friburgo foram chamados para o desafio de produzir filmes curta-metragens em Fribourg, na Suíça. Por meio da chamada pública, realizada pela Projeto6 Produções em parceria com o Consulado Geral da Suíça no Rio de Janeiro, Ana Maria Bonjour, Daniel Soares, Gabriel de Almeida e Jéssica Ramos estiveram na cidade-irmã e desenvolveram os filmes, que foram exibidos no Festival Internacional de Films Fribourg (FIFF) e em Nova Friburgo, como parte das comemorações dos 200 anos do município. Agora, os curtas estão prontos para ganhar o mundo e o próximo passo são as inscrições em festivais de cinema.

A chamada teve como base apoiar as produções cinematográficas de curta-metragem de produtores audiovisuais independentes e/ou jovens cineastas de Nova Friburgo. Segundo a produtora Rosana Barroso, sócia-diretora da Projeto6, os filmes encontram-se em fase de finalização da parte jurídica do processo de inscrições em festivais. Ainda de acordo com ela, a ideia é veicular os curtas no Brasil e no exterior e ainda realizar uma nova mostra na cidade, para que toda a população tenha acesso ao trabalho.

Ao todo, 19 inscritos foram entrevistados por representantes da Projeto6, da Secretaria de Cultura de Nova Friburgo, do Consulado Suíço e do SerraAção – Polo Audiovisual de Nova Friburgo e Região, e selecionados os finalistas. O quarteto passou 18 dias em Fribourg e para atender o prazo, todos trabalharam de forma colaborativa. E ainda puderam contar com apoio de instituições suíças de arte e audiovisual.

“Os filmes foram produzidos em apenas 18 dias de forma colaborativa. A produtora e os diretores trabalharam em todos os filmes, atuando como captadores de som, assistentes de produção, produtores de locação. Na Suíça, tivemos o apoio da Ecal - Escola de Artes Visuais de Lausane, que nos emprestou câmera e equipamento de iluminação; da equipe do FIFF, em especial do diretor criativo do festival, Thierry Jobin; e da escola de artes gráficas, Eikon, de Fribourg, que nos cedeu uma área de co-working para que pudéssemos montar e finalizar nossos filmes, disponível 24h”, explicou Rosana.

As despesas da viagem - passagens aéreas, traslado, locomoção, alimentação e hospedagem -, assim como seguro viagem dos participantes e da produtora, foram pagas pelo Consulado Geral da Suíça no Rio de Janeiro.

O FIFF deste ano (foto) teve um momento todo especial dedicado ao município, inclusive uma mesa redonda foi realizada com o nome “200 velas para Nova Friburgo” (tradução livre). A 32ª edição do festival, que tem como princípio promover o intercâmbio entre culturas, com filmes que estimulem a reflexão e promovam diálogo, teve como país convidado a Mongólia. Contudo a presença de Nova Friburgo foi expressiva, com participação de 22 filmes.

Diretores de Nova Friburgo produzem curtas para exibição no Brasil e no exterior

Adaptar o roteiro, filmar, editar e finalizar quatro curta-metragens em 18 dias não foi uma tarefa fácil para os cineastas de Nova Friburgo que embarcaram para Fribourg. Mas o resultado foi recompensador, além de participar de um dos festivais mais importantes da Suíça e com conteúdo altamente disseminado pelo mundo todo, Ana Maria Bonjour, Daniel Soares, Gabriel de Almeida e Jéssica Ramos agora terão a oportunidade de ver seus filmes exibidos em outros festivais de cinema no Brasil e no exterior.

Cada diretor pôde escolher entre duas categorias: ficção ou documentário. Eles tiveram que produzir um filme com conteúdo autoral e inédito. Com duração máxima de 15 minutos, os curtas foram gravados e editados em Fribourg, com apoio de uma equipe composta por brasileiros e suíços, mas todos os integrantes da chamada pública acabaram colaborando entre si, atuando nos bastidores, seja no som, na iluminação, na produção ou na edição. As locações são belíssimas e a participação de atores suíços resultou em obras em francês e em português.

Cartas de Ana

O filme da cineasta Ana Maria Bonjour, de 36 anos, conta a trajetória de uma artista plástica que decide viajar para Fribourg a fim de realizar um trabalho de intervenção artística, que colabore com o estreitamento dos laços com Nova Friburgo. Segundo a diretora, que também atuou no curta, a obra “Cartas de Ana” exercita uma reflexão sobre as origens das duas cidades.

Com dias contados, afinal, os filmes deveriam ficar prontos para serem exibidos no FIFF. Ana conta um pouco sobre como foram as gravações, destaca o apoio recebido e a oportunidade de conhecer outros diretores e participar das atividades do festival.

“Saímos daqui sem locações reservadas, sem tradutores, sem editores para os filmes, com poucos dias para gravar, além de muita criatividade e bons projetos. Chegamos apenas com a estadia/alimentação e parte do equipamento. Lá, eles arranjaram todo o resto, mesmo não estando preparados previamente para isso. Sem eles nossos filmes não teriam sido realizados”, conta Ana.

E ela ainda conseguiu uma entrada dupla no festival: “Além do filme que eu estava realizando, por coincidência, meu marido estava na mostra competitiva com um curta-metragem no qual eu atuei e fui produtora. Esta sorte me permitiu participar de muitas atividades e ter acesso a diretores do mundo inteiro. Foi muito especial conhecer outros diretores de países com muitas dificuldades, como o nosso, mas que tornam as mazelas inspirações. Havia muitas diretoras mulheres e jovens e esta troca me fez ter mais coragem para levar este desejo cinematográfico adiante”.

Agora ela vai se concentrar em finalizar o filme e fica na expectativa de participar de outros festivais. E também alimenta o desejo de participar de mais uma edição do FIFF.

“Ainda preciso finalizar meu filme, não foi possível deixá-lo da maneira que gostaria. Improvisei a gravação de um off, que não ficou muito boa e tive apenas dois dias de filmagem e um de edição. As imagens estão ótimas, por isso acho que o filme pode ficar ainda mais redondo logo que editá-lo e regravar os offs. Sou produtora e sei que conseguir participar de festivais é uma saga. Ser selecionado para um festival de renome como o FIFF é uma grande vitória. Portanto, encaro como uma realização qualquer festival importante que exiba o filme. E, sinceramente, fiquei com desejo de voltar à Fribourg com outro filme e tendo mais tempo para curtir a cidade, que é um espetáculo à parte”.

Terroir

No documentário “Terroir”, o cineasta Daniel Soares, de 32 anos, conta a história de dois brasileiros radicados em Fribourg: o capoeirista Mestre Zumbi e a fotógrafa Natália Mansano. No curta eles revelam um pouco sobre o processo de imigração e falam sobre as suas vidas na Suíça. O próprio nome do filme já diz tudo sobre a intenção do diretor. Terroir, que é uma expressão francesa, relacionada principalmente aos vinhos, não tem uma tradução específica em outros idiomas, mas em seu significado mais amplo remete à relação entre o homem, a terra, o clima, o solo e a influência que esse conjunto tem na criação de um ambiente natural único.

Para Daniel, a rotina de filmagens foi complicada: “Tivemos apenas 18 dias, o que foi um trabalho insano, no melhor estilo cinema de guerrilha”, brinca o cineasta, que conta ter finalizado seu curta 24 horas antes da exibição de estreia no festival. Mas, de acordo com ele, a cidade compensou toda a correria.

“Fribourg é magnífica, possui uma parte histórica muito bem conservada e bonita, perfeitamente integrada ao resto da cidade, que possui muitas faculdades e pulsa de estudantes. A arquitetura medieval foi o que mais me marcou. Utilizando a encosta das montanhas e muralhas como defesa, o rio cortando o município e as pontes unindo os dois lados da cidade, são de uma beleza inesquecível. A nossa viagem foi um pouco peculiar, uma vez que não tivemos tempo para visitar os lugares e as locações que gostaríamos. Simplesmente seguimos filmando e descobrindo. Por isso, os filmes contam também com esse olhar de descoberta que vivemos”.

Sobre o trabalho, ele se declara satisfeito como resultado: “Cada vez que eu assistia ao filme havia algo que eu queria mudar, mas precisei me segurar e acredito que valeu a pena. A experiência de exibir o mesmo filme nos dois países e comparar as duas experiências foi recompensador. Ele foi muito bem aceito em ambas as plateias e o retorno que tenho tido não poderia ser melhor”.

Ele também deseja participar de novas edições do FIFF: “Esse projeto foi um salto na minha carreira de cineasta e uma grande realização pessoal por poder contribuir para essa aproximação cultural entre as duas cidades. Muitas pessoas foram importantes neste filme, o cinema é uma arte coletiva, e sem muita ajuda não teríamos realizado os projetos. Possuo outros filmes prontos e em projeto que pretendo inscrever no FIFF e quem sabe fazer uma pós-graduação em cinema na Suíça”.

Entre les Ponts (Entre Pontes)

Criação de Gabriel de Almeida, de 29 anos, o curta "Entre Pontes" é um romance que, segundo descrição do diretor, busca contar de forma metafórica e literal a história dos habitantes de Fribourg. No elenco estão dois atores suíços: Delphine Buresi e Jean-François Broggio, nos papéis de Julliette e Angelo, que se encontram casualmente na cidade de Fribourg e seguem numa jornada de paixões e reflexões sobre a vida.

“Foi uma experiência incrível. Trabalho com cinema, já tinha dirigido e produzido outros curtas de maneira independente e agora tive essa oportunidade mais profissional. Pude produzir um filme em outro país, em francês, com atores estrangeiros e ver esse trabalho exibido em um festival importante como o FIFF. Poder representar o cinema brasileiro e a cidade de Nova friburgo foi muito legal. E essa prática colaborativa me permitiu participar de outros três filmes, com histórias e estilos diferentes”, conta Gabriel.

Como o tempo foi corrido na Suíça, ele aproveitou o retorno ao Brasil para finalizar o material, com ajuda da produtora friburguense Maria Luiza Costa e a inclusão de uma trilha sonora original produzida por Tiago Guimarães, com música interpretada pela cantora francesa Eva Simba.

“A produção na Suíça foi feita com equipe reduzida, pouco tempo para executar os quatro curtas e ainda montar e exibir no festival. Então, ao retornar, acabei finalizando aqui: mexi na cor, refiz a montagem, incluí uma trilha sonora original com o apoio de um amigo meu que é músico. Ficou lindo”, afirma o cineasta.

Para ele, além da participação em festivais, existe ainda a expectativa em exibir novamente os filmes em Nova Friburgo: “Tive recentemente a oportunidade de exibir meu curta na 6ª edição da Mostra de Cinema de Santos Dumont, minha cidade natal, e a experiência de levar um filme em francês, gravado em outro país, para uma mostra a céu aberto, numa cidade do interior de Minas Gerais, foi maravilhosa. Espero ter essa oportunidade mais uma vez aqui em Nova Friburgo, que a população venha prestigiar nosso trabalho, que é em grande parte dedicado à cidade”.

Perles Oubliées (Pérolas Esquecidas)

“Encontrar um tema, me conectar com a cidade de Fribourg e dirigir foi um grande aprendizado”, declara a cineasta Jéssica Ramos, de 25 anos, autora e diretora do curta-metragem “Pérolas Esquecidas”. A obra, um documentário institucional, também qualificado pela diretora como experimental, conta um pouco da história da arquitetura de Fribourg, através da interação de dois atores. Um, uma viajante em turismo pela cidade, o outro, um homem que guia essa desconhecida pelas histórias passadas e apresenta a cultura local.

Uma curiosidade destacada por Jéssica é que a reação, o entendimento da história, foi diferente de pessoa para pessoa: “Como o curta é meio lúdico e a atriz participa apenas com voz off, algumas pessoas entenderam que os dois personagens eram espíritos, enquanto outros captaram a intenção de apresentar apenas um em vídeo e o outro complementando apenas com a voz”.

O mergulho na história da cidade foi impactante para a diretora, que anseia pela maior distribuição dos filmes em outros festivais e em nova exibições em Nova Friburgo: “Quero que o curta seja exibido em festivais, que as pessoas assistam. Na criação eu cheguei a perguntar aos friburguenses sobre o que eles gostariam de ver sobre a Suíça e quero compartilhar esse resultado, uma vez que ao me conectar com a cidade, descobri e incluí coisas muito bacanas nas filmagens. Inclusive, pude ouvir de um dos editores suíços que estavam nos ajudando na finalização que o meu curta parece muito com os trabalhos produzidos por lá”.

O aprendizado foi também um exercício de criatividade para todos os envolvidos: “No meu caso, pude ver o potencial da minha criatividade, me encontrar na maneira de filmar e ter a oportunidade de, pela primeira vez, dirigir uma produção. Essa prática trouxe ainda o conhecimento de organização e de trabalho em equipe”, conta Jéssica.

 

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TAGS: Cinema