Crianças em redes sociais

O artigo de Ágatha Abrahão
sábado, 08 de dezembro de 2018
por Ágatha Abrahão*
A psicóloga Ágatha Abrahão
A psicóloga Ágatha Abrahão

"Essa é uma questão que pais e filhos costumam trazer aos consultórios. É necessário que se exerça algum controle sobre o uso das redes sociais? É uma questão delicada, uma vez que temos notícias de abuso infantil que se inicia ou mesmo acontece através das redes e das mais variadas formas de invasões ao desenvolvimento infantil.

Há adultos que consideram desnecessário ou, por vezes, inaceitável, que seus pequenos tenham acesso livre à Internet; e existem aqueles que não vêem problema, ou mesmo que, por diversos motivos, não conseguem acompanhar o uso que seus filhos fazem desse recurso. Então, vamos tentar contextualizar as coisas:

Não se trata, aqui, de “ensinar” os pais sobre como devem criar seus filhos, mas trazer uma reflexão acerca de quais condições e/ou recursos eles possuem para lidar com as variadas situações da vida.

O historiador Phillippe Ariè, em sua obra ‘A História Social da Criança e da família’, nos traz um panorama de como a criança era vista na era medieval, quando nem sempre elas foram vistas como sujeitos vulneráveis, carentes de cuidados especiais, em desenvolvimento.

Ao longo da história a visão das crianças foi mudando. Antes, eram vistas como “mini adultos” e isso pode ser observado em como eram retratadas em obras de arte. Sua condição vulnerável, física e emocional foi sendo considerada com o avanço da história, levando em conta certos aspectos relacionados ao desenvolvimento da sociedade.

Eu sempre digo que nós temos o hábito de acreditar que “criança não é gente”. Minha geração ouvia muito dos adultos a expressão “criança não tem querer”. Isso diz muito sobre como a criança muitas vezes é vista pelos adultos. Isso é histórico e podemos dizer que é o outro extremo de como as crianças eram vistas na idade média: se antes eram vistas como qualquer outro membro da sociedade, sem considerar suas peculiaridades, hoje, muitas vezes, acontece o oposto: com o intuito de proteger, muitas vezes acabamos por esquecer que aquelas “pessoinhas” são pessoas, dotadas de subjetividade.

Atualmente vemos movimentos distintos no que diz respeito a como ver e tratar as crianças: de um lado, uma postura conservadora, que preza pelo controle e pela disciplina; de outro, uma postura mais, por assim dizer, livre, que dá a criança liberdade para expressar seus desejos e fazer suas próprias escolhas.

A primeira é perigosa do ponto de vista do desenvolvimento da capacidade de fazer escolhas na vida adulta; e a segunda é igualmente perigosa, pois se estamos falando de sujeitos em desenvolvimento, eles não dispõem ainda de recursos emocionais e cognitivos para tomar certas decisões.

Com que idade uma criança está pronta para sair de casa (que seja para ir até a padaria) desacompanhada de um adulto? Com que idade pode assistir a filmes com conteúdo “não infantil”? Com que idade precisa ter seu próprio telefone para se comunicar com aqueles que se ocupam dela? Por que ela precisa de um telefone em idades em que ela está SEMPRE sendo cuidada por alguém e não tem necessidade do bendito para se comunicar? Qual uso ela vai fazer das redes sociais?

Existe uma linha muito tênue entre dar liberdade e desamparar. É preciso olhar para nossos pequenos com o respeito que qualquer sujeito merece, considerando que têm direito a expressar seus desejos, vontades, insatisfações, a ter seus limites respeitados e até mesmo (pasmem!), direito à privacidade. Porém, por outro lado, uma vez que ainda estão em desenvolvimento, sua capacidade de avaliar riscos e tomar decisões ainda não está totalmente desenvolvida.

Penso que, considerar a idade, o estágio de desenvolvimento, a maturidade, de quais recursos aquela “pessoinha” dispõe para se comportar e lidar com essa ou aquela “situação virtual”, seja um caminho para decidir o que permitir ou não. É preciso que conheçamos nossos filhos. Que saibamos quem eles são e que haja uma relação respeitosa entre nós e eles. Excesso de liberdade, liberdade desassistida é um fator de risco, assim como excesso de conservadorismo coloca a criança num lugar de submetimento que a impede de confiar em nós para compartilhar dúvidas e angústias.

Não importa que caminho seja escolhido para “controlar” o uso que crianças fazem da internet: respeito pelas pessoas que elas são precisa andar de mãos dadas com o cuidado e a proteção."

* Ágatha Abrahão é psicóloga

 

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