Crematório de Friburgo faz 20 incinerações por mês e tem planos de expansão

Maioria dos corpos é de fora da cidade. Preocupação ambiental e alto custo de jazigos explicam aumento da opção por cinzas em vez de sepultamentos
quinta-feira, 01 de novembro de 2018
por Adriana Oliveira (aoliveira@avozdaserra.com.br)
Caixão é colocado dentro de um forno crematório: temperatura de cerca de mil graus (Reprodução da web)
Caixão é colocado dentro de um forno crematório: temperatura de cerca de mil graus (Reprodução da web)

Uma média de 20 corpos viram cinzas, todos os os meses, no Crematório Nova Friburgo, um dos três do estado e o único localizado fora da Região Metropolitana do Rio. À primeira vista pode parecer pouco, mas é quase um por dia, acelerando para pouco mais de duas horas a certeza inescapável do livro de Gênesis: “Do pó viestes, ao pó voltarás”. Mas engana-se quem pensa que esses corpos deixam de ser sepultados em um dos 13 cemitérios públicos e particulares de Friburgo. Segundo Márcio Rebouças, diretor da Igreja Luterana responsável pelo crematório, 80% dos corpos são de fora de Nova Friburgo, procedentes de cidades como Teresópolis, Petrópolis, Macaé, Campos, Búzios, Silva Jardim. “Aqui, além de mais bonito, é mais seguro”, especula.

O fato é que cada vez mais famílias vêm optando pela incineração, que é realizada em Nova Friburgo desde 2010. Embora o crematório do cemitério da Igreja Luterana (foto) tenha o dobro da capacidade, Márcio revela, sem dar detalhes, que há planos de expansão em estudo. “Há uma mudança de paradigma. As pessoas vêm descobrindo as vantagens da cremação”, diz ele, revelando que o procedimento sai por pouco mais de R$ 2 mil, dispensando despesas com a aquisição de túmulos e com o pagamento de taxas anuais de manutenção de cemitérios.

Principal empresa de assistência funeral em Friburgo, a SAF trabalha com a opção de cremação nas duas modalidades de seus planos: o Plus, que cobre integralmente as despesas com o procedimento, e o Assistencial, que dá desconto no serviço, realizado em parceria com o Cemitério Luterano.  Dos 1.434 óbitos atendidos pelo grupo SAF nos dez meses deste ano, 97 foram cremações, quase 7% do total, informa Jailson Silveira, gerente administrativo do SAF Assistencial. Segundo a gerente administrativa do SAF Plus, Ronise Alonso Botelho, a demanda por cremações já responde por 40% das vendas nos últimos dois anos.

Além do preço, a preocupação com o meio ambiente também explica o aumento da procura por cremações. Como a maioria dos cemitérios brasileiros são antigos e estão superlotados, a infraestrutura costuma ser precária e a decomposição dos corpos pode fazer com que bactérias e vírus contaminem lençóis freáticos.

Curiosidades

Márcio Rebouças explica que o corpo humano é incinerado com caixão e tudo - apenas as alças, quando revestidas de plástico, são retiradas. Na câmara crematória, a temperatura é próxima de mil graus. O processo dura pouco mais de duas horas e não gera fumaça nem cheiro: da chaminé sai apenas calor, vapor de água.

O tempo da incineração depende do peso do corpo. Os fornos, desenvolvidos com esta finalidade, são computadorizados. Depois do resfriamento das cinzas, metais como detalhes ornamentais do caixão, pregos e eventuais próteses cirúrgicas e implantes são recolhidos. Cacos de ossos remanescentes são triturados (foto) até virarem um pó fino e uniforme, o carbonato de cálcio. As cinzas são então colocadas em um recipiente ou urna e entregues à família do morto.

Uma pessoa de 70 quilos se transforma em menos de um quilo de cinzas, num volume semelhante a um pacotinho de sal. Caso fosse sepultada, sob a terra a decomposição pode durar até dois anos e deixar cerca de 13 quilos de ossos para a posteridade.

Na Antiguidade, um destino nobre

Nas civilizações antigas, a cremação era um destino nobre dado aos mortos. Os gregos já incineravam seus cadáveres por volta de mil anos antes de Cristo, enquanto os romanos passaram a fazê-lo alguns séculos depois. O enterro nos moldes tradicionais era reservado a criminosos, suicidas e vítimas de “maldições dos deuses”, como os infelizes que morriam atingidos por raios e outros “castigos” da natureza.

No Japão, a cremação foi adotada com o advento do budismo, em 552 depois de Cristo. Foi aceita primeiramente pela aristocracia e, só depois, pelo povo. Com pouco espaço territorial no país, rapidamente a prática se difundiu. Em 1867, chegou a ser baixada uma lei que tornava obrigatório incinerar os mortos para racionalizar o uso da terra. Há religiões, no entanto, que resistem à cremação. A Igreja Católica, por exemplo, que prega a ressurreição, recomenda manter a integridade do corpo após a morte.

No Brasil, o primeiro crematório foi o da Vila Alpina, em São Paulo, fundado em 1974. Hoje lá são incinerados cerca de 300 corpos todos os meses. A legislação brasileira exige que a pessoa deixe  sua opção por ser cremada após a morte registrada em cartório. Já a disposição final das cinzas é livre, cabendo a parentes e pessoas próximas. Normalmente as cinzas são colocadas em caixas próprias, confeccionadas por artistas especializados. Na Santa Casa do Rio, podem ser transformadas até em diamantes, por meio de uma empresa que as envia até a Suíça.

Como proceder

Para realizar a cremação, são necessários alguns documentos. A declaração de vontade ou escritura pública declaratória são feitas em vida, com testemunhas ou não, e registradas em cartório. Feito o registro, ninguém, nem mesmo um familiar ou herdeiro legal, poderá se opor à decisão expressa do falecido, exceto por ordem judicial.

Mesmo que o falecido não tenha deixado um documento formal expressando sua vontade, é possível cremá-lo. Neste caso, como o corpo é um bem, todos os herdeiros legais deverão concordar e ir ao cartório de títulos e documentos para fazer uma escritura pública declaratória.

No caso de morte violenta (acidente de carro, assassinato etc.), a cremação só pode ser realizada mediante autorização judicial.

Pets também são cremados

Cães e gatos de estimação também têm assistência funeral em Nova Friburgo e, no caso deles, exclusivamente de cremação. A incineração  é feita num crematório em São Gonçalo, o Recanto dos Amigos (foto), o único do estado especializado em animais.

Segundo Rafaiane Branco, gerente do SAF Pet, cerca de 13 a 15 pets são levados para cremação todos os meses. A procura pelo plano em Friburgo, que atende qualquer cidade num raio de 50 quilômetros, cresce anualmente.

No caso dos pets, a cremação pode ser individual, com direito à devolução das cinzas do animalzinho (foto), ou compartilhada, otimizando o procedimento. Neste caso, porém, o dono não recebe as cinzas do seu bichinho, mas apenas um documento atestando que a incineração foi feita.

Se contratada fora do plano, a cremação custa R$ 1.000 se for individual, ou R$ 600, caso compartilhada. Já o preço do plano varia de R$ 15 a R$ 30 mensais, no caso do individual. No caso do compartilhado, paga-se R$ 40 por três pets; acima dessa quantidade, o plano pode ser personalizado, com valores negociados dependendo de idade, do tamanho e de outros fatores.

“As pessoas ainda têm preconceito, mas aos poucos percebem que cremar é a melhor solução numa hora tão sofrida”, diz Rafaiane, lembrando que há pouco tempo uma cliente perdeu um gato e um cão num intervalo inferior a 15 dias. Entre as duas perdas, tomou a decisão de contratar o plano.

 

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