Carta para mim mesmo

Criança que sonhava receber correspondências como o vizinho teve ideia original
sexta-feira, 19 de janeiro de 2018
por Alerrandre Barros
Foto de capa
"Fiz cara de espanto. Ela perguntou de quem era a carta. Sorri, mas não respondi"

O vizinho do lado direito da minha casa recebia um calhamaço de correspondências dos Correios toda semana. Revistas, catálogos, cartas, contas a pagar. Eu ficava no portão, esperando o carteiro passar e, às vezes, recebia as correspondências para o vizinho. Assinava na prancheta do carteiro e entregava o monte de envelopes. O vizinho abria alguns e me deixava abrir outros.

Lá em casa, o carteiro não entregava nada. Um dia decidi que receberia uma carta em meu nome. Mas quem iria me enviar? Falei com amigos da escola, mas ninguém quis gastar dinheiro com uma carta para mim. Uma amiga disse que poderia escrever a carta, mas me entregaria em mãos. Eu não queria receber a carta em mãos; queria pelos Correios.

Como ninguém quis me enviar uma carta, eu mesmo a escrevi. Comprei o envelope em uma loja perto da minha casa e escrevi alguma coisa numa folha de caderno espiral. Não lembro o que escrevi. Talvez planos para o futuro. Eu não tinha nem 10 anos. No destinatário do envelope, coloquei meu endereço. No remetente, também. Minha mãe colocou a carta na agência dos Correios.

Três dias depois, a correspondência chegou. Uma tia me chamou no portão e disse que havia uma carta para mim. Eu fiz cara de espanto. Ela perguntou de quem era a carta. Sorri, mas não respondi. Corri para dentro de casa e abri a carta.

O envelope estava um pouco amassado e sujo. Observei a marca do carimbo dos Correios e o que vinha escrito nos selos. Emocionado, abri a carta. O texto eu já conhecia.  

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