Bicentenário é também dos pioneiros alemães em Friburgo

Primazia friburguense no pioneirismo da imigração alemã no país e incontestável
sexta-feira, 24 de agosto de 2018
por Girlan Guilland
A Igreja Luterana (Arquivo AVS)
A Igreja Luterana (Arquivo AVS)

Dois meses e 22 dias separam a chegada dos primeiros alemães ao Brasil (1824): em 3 de maio (Nova Friburgo/RJ) e 25 de julho (São Leopoldo/RS). A primazia friburguense no pioneirismo da imigração alemã no país e incontestável.

Mas o município gaúcho, que recebeu 39 colonos germânicos à época, se apropriou do título e tenta antecipar o calendário oficial do Bicentenário da Imigração Alemã, divulgando-o em portais especializados e redes sociais.

Menos de seis anos nos separam de mais esse importante bicentenário friburguense  rememorando a chegada dos 342 alemães à Vila de Nova Friburgo. Segunda leva de imigrantes arregimentados - depois dos suíços - os alemães protestantes inauguraram nova situação no País, enfrentando um sistema que misturava religião e Poder, sendo o catolicismo exigido à época da chegada dos suíços.

Mas os alemães acabaram por implantar na Vila, em 1824, a Comunidade Evangélica de Confissão Luterana, ativa até os nossos dias, primeira em toda a América Latina e cujo templo acabou antecedendo a Matriz católica.

Curiosamente, naquele mesmo ano, Dom Pedro I outorga a 1ª Constituição brasileira, mantendo o catolicismo como religião oficial do Império. Os alemães protestantes continuariam vivendo o mesmo ambiente hostil, em guerra religiosa, registrando episódios marcantes, desde a proibição do primeiro sepultamento de um alemão no cemitério público (católico) de então, levando o pastor Friedrich Oswald Sauerbronn a criar um campo santo para sepultar o próprio filho, Peter Leopoldo, iniciando o Jardim da Paz, até hoje existente e conhecido como Cemitério Luterano.

Mas a presença alemã na formação da Vila de Nova Friburgo e depois Cidade (categoria a qual seria elevada somente 66 anos depois da vinda dos alemães), vai muito além da religião ou mesmo da “salvação da lavoura”, uma vez trazidos pelo Imperador, como alternativa ao projeto agrícola suíço, cujos colonos a essa altura já haviam se dispersado por toda região. Os alemães seriam ainda fundamentais, embora mais tarde - já na primeira década do Século XX - no processo de desenvolvimento e industrialização, iniciando os polos têxteis e metalúrgicos.

No entanto, é preciso estabelecer distinção dos dois importantes períodos. A chegada dos pioneiros luteranos ocorreu quase 90 anos antes da ascensão do industrial alemão Peter Julius Ferdinand Arp, precursor da indústria local, ao instalar a fábrica de Rendas Arp e também o pioneiro da eletrificação da cidade, ambos em 1911.

Além do Conselheiro Julius Arp, outros empreendedores alemães escreveram seus nomes em expressivos capítulos desse enredo: Maximiliam Falck (Fábrica Ypu), Ernesto Otto Siems (Filó SA) e, mais tarde, a dupla de engenheiros Hans Gaiser e Frederico Sichel (Ferragens Haga), que iniciaram outro importante ramo da indústria local: a metalurgia, hoje resultando no significativo polo metal-mecânico.

Outro alemão pouco lembrado e indispensável no desenvolvimento local: Johannes Weidauer, naturalizado brasileiro e à época aposentado da Siemens, era especialista em telefonia, como lembra pronunciamento do então vereador João Batista da Silva, que em 06 de novembro de 1964 condecorava o embaixador da Alemanha no Brasil, Dr. Gebhard Seelos, com o título de Cidadania Friburguense.

Confirmando a fala do vereador JB, o então ex-prefeito César Guinle, em depoimento (16 de abril de 1984) à Secretaria de Cultura do Município, “entre 1948/49 Wiedauer, que residia em Mury, foi o responsável por apontar a tecnologia que fez a Cidade pioneira ainda no sistema de microondas nas ligações interurbanas”.

– Nova Friburgo tem uma dívida com esse homem, responsável pela modernização da telefonia e instalação de sistema avançado para a época. - disse Guinle, completando que ele foi “a nossa salvação e a possibilidade de levar adiante a reformulação necessária para implantar aquele moderno sistema”​.

Em outubro de 2017, a Reforma de Martin Lutero - líder que lançou o protestantismo ao Mundo - completou seu quinto centenário. Infelizmente, Nova Friburgo deixou escapar a oportunidade de se posicionar como o berço do segmento religioso no Brasil. Na mídia nacional, nenhuma linha sobre a cidade que, há 193 anos, recebera os alemães luteranos, mais de dois meses antes do que o Sul.

Não é possível persistir no erro. Pelo menos, temos mais de cinco anos para tentar evitar que isso ocorra.

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