Bia Willcox e a incoerência entre a vida real e a postada nas redes

"Em diferentes papos de celular à minha volta, em todos as pessoas discutiam com alguém e falavam mal da noite de Natal"
quarta-feira, 03 de janeiro de 2018
por Jornal A Voz da Serra
Bia Willcox e a incoerência entre a vida real e a postada nas redes

Você posta a sua felicidade? Transmite ao vivo todas as suas alegrias em seus perfis? Coloca efeitos incriveis nos registros instantâneos de sua vida? Em suma, você exibe uma vida ultra mega feliz?

Vocês bem sabem que eu estou falando do mundo encantado das redes sociais onde, ou todo mundo é esquizofrenicamente feliz 24 horas ou, no extremo oposto,  o lado obscuro e triste da vida é compartilhado como numa exibição de circo, num aquário ou numa grande vitrine de loja.

E de repente chega o fim do ano com seus eventos mágicos como Natal e Ano Novo: hora de ver o Facebook e o Instagram transbordarem alegria e felicidade.

Parece que aquele problema de saúde, de dinheiro curto, de família ou de trabalho, só voce tem, e mais ninguém.

“Não, eu nao tenho momentos incríveis pra postar de felicidade ostentada, não tenho nenhum frenesi em postar drinques, restaurantes caros, lanchas ou carros (sem falar em alguns que postam até área VIP de aeroporto!) e não quero criar  fotos ou vídeos que  pareçam mais alegres que o meu espirito (quero traduzir ao máximo a realidade do meu estado de espírito), mas, por outro lado, também não gosto de compartilhar bichinhos e gente morrendo ou sendo presa.” 

Sendo assim,  eu me torno oficialmente um ET. Existem vários ETs de redes sociais por aí. Você é um deles?

Como ET, tenho meus dias de glória e me sinto acompanhada. 

Acordei dia 25 de dezembro e fui à praia, coisa que nao fazia há muito tempo. 

Posto 10, Ipanema.

Durante o pouco tempo que consegui ficar na areia, pude ouvir diferentes papos de celular à minha volta e  em todos, sem exceção, pessoas discutiam com alguém e falavam mal da noite de Natal. Foi impressionante!

Na sequência, andando pelo calçadão, cruzei com duas familias comuns e emburradas. Um dos casais discutia. O outro nem sorria nem falava, andava com o peso do sacrifício.

 Confesso que tive uma sensacao clandestina de felicidade: me sentia num mundo real, de pessoas normais, com seus problemas, maus humores e frustrações. 

Pronto, não estava mais só.

Viva o mundo real.

É preciso não se abater com a vida Prozac das redes sociais - elas são flores de plástico. 

Vivamos a vida privada dos lindos jardins de flores de verdade.

Um feliz, privado e real 2018 para você.

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