Aldeia da Criança: muito além do currículo escolar

Projeto amplia acesso à educação integral de crianças e adolescentes em vulnerabilidade social
sábado, 05 de maio de 2018
por Karine Knust (karine@avozdaserra.com.br)
Foto de capa
Atividades esportivas na Aldeia da Criança (Divulgação)

Tornar a vida de centenas de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social mais leve e feliz tem sido a missão de dezenas de pessoas e entidades espalhadas pelo país. Em Nova Friburgo, uma dessas representações que lutam pela proteção e desenvolvimento de menores é a Aldeia da Criança.

Não é difícil encontrar por aí quem diga que a Aldeia fechou as portas. Talvez essa “confusão” esteja diretamente relacionada à mudança de atuação da unidade. Se há anos a instituição desenvolvia o trabalho de abrigar crianças e adolescentes, num modelo chamado de casa-lar, atualmente ela segue auxiliando menores, mas com o oferecimento de diversas atividades voltadas ao complemento da rotina escolar e ao convívio familiar.

“Nos últimos dez anos a Aldeia da Criança redefiniu a sua linha de atuação, substituindo a modalidade de abrigamento por um trabalho mais ampliado e estruturante na garantia de direitos das crianças e adolescentes e no apoio direto às famílias, espaços educativos e comunidades em que estão inseridos”, explica a gerência da entidade.

Embora a Aldeia já tenha chegado a manter cinco unidades próprias, em função das diversas mudanças (externas e internas), nesses últimos anos o trabalho vem sendo desenvolvido em seis núcleos, três deles na Região Serrana. São eles Conselheiro Paulino e Centenário, unidades aqui de Nova Friburgo, além do Contorno, em Petrópolis.

De acordo com a gerência da entidade, em Nova Friburgo a Aldeia atende 200 crianças e jovens até 18 anos nas duas unidades atuantes na cidade. Isso sem contar com os mais de 30 jovens, adultos e idosos que também recebem atenção da instituição, através de projetos como o de acompanhamento familiar. Número que contabiliza mais de 600 atendimentos semanais, divididos pelas mais diversas atividades oferecidas.

Para atender todas essas pessoas assistidas pela instituição, atualmente as unidades da Aldeia na cidade contam com uma equipe composta por 18 pessoas, incluindo funcionários, monitores voluntários e prestadores de serviços. São profissionais das áreas de Educação (Pedagogia), Serviço Social, Psicologia, Cultura e Esporte (Música, Dança, Capoeira, Futebol e Informática), Administração, Contabilidade e Mobilização de Recursos.       

Ao estilo Waldorf      

Baseada na filosofia da educação do austríaco Rudolf Steiner, a pedagogia Waldorf tem como objetivo “desenvolver indivíduos livres, integrados, socialmente competentes e moralmente responsáveis”. E é exatamente nessa pedagogia que as atividades da Aldeia da Criança se baseiam. Como? Além de atividades tradicionais, como aulas de informática e esportes, o programa ainda permite que as crianças e adolescentes tenham contato com atividades diferenciadas como jardinagem, culinária, artes variadas, jogos cooperativos, acompanhamento que vai além das salas de aula e ações comunitárias.

“Temos uma compreensão de educação integral que ultrapassa a questão temporal, ultrapassa esse conceito de horário integral cronológico. A gente entende educação integral como algo pleno, que dá a possibilidade de desenvolver múltiplas habilidades e competências. E nosso apoio pedagógico, que permeia todas essas atividades, busca uma educação de base antroposófica inspirada na pedagogia Waldorf, por entender que essa pedagogia desenvolve as habilidades e competências que reconhecemos ser inerentes a todo e qualquer ser humano”, explica a gerente da Aldeia da Criança no município, Fernanda Milanez.

Na prática

De acordo com a instituição, o carro-chefe das ações desenvolvidas na Aldeia nos últimos anos é o Projeto Portas Abertas, que visa promover o desenvolvimento saudável e a educação integral de crianças e adolescentes em situação de pobreza e vulnerabilidade social.

Em Conselheiro Paulino, por exemplo, as crianças e adolescentes que estudam à tarde participam das atividades da Aldeia na parte da manhã, das 9h às 12h. Já as que estudam pela manhã vão para unidade durante a tarde, das 13h às 17h. São aulas de reforço escolar, música, dança, informática e capoeira. Além de atividades complementares como artes, jardinagem, culinária, jogos cooperativos, entre outros. Já em Centenário, os atendidos pela unidade recebem apoio pedagógico, e participam de atividades complementares de inclusão digital e aulas de futebol, em parceria com o Friburguense.

“A oferta de atividades diversas e distintas das metodologias de ensino tradicionais possibilitam o desenvolvimento das habilidades que formam o ser humano. E esse é um ponto muito importante já que existe uma grande necessidade dessa formação. É dessa forma que a gente se aproxima do objetivo de oferecer uma educação, de fato, integral. Uma vez que nossos alunos estão com suas habilidades amplamente desenvolvidas - suas formas de ser e estar no mundo - também têm uma capacidade mais ampliada de comunicação, de relação com o outro”, acredita Fernanda.

Cientes de que a realidade das crianças, de fato, influencia e muito em seu desenvolvimento, além de trabalhar habilidades dentro dos espaços da Aldeia, a instituição também organiza diversas frentes de atuação. Uma delas é o Acompanhamento Familiar.

“Nossa equipe técnica, composta por psicóloga e assistente social, é acionada quando os professores e/ou monitores das oficinas identificam questões mais sérias através do convívio com as crianças. A partir daí, oferecemos apoio às famílias em aspectos como moradia, saúde, formação, orientações sobre direitos e deveres, encaminhamento à rede socioassistencial e ao mercado de trabalho, dentre outros”, ressalta a gerência da instituição.

Além disso, a entidade também promove regularmente rodas de conversa direcionadas a mulheres, adolescentes e pais, além de eventos abertos à comunidade, como Mutirão de Cidadania e Saúde, Festa Junina, Festa da Família, Oficinas de Gastronomia, almoços beneficentes, dentre outros. Atuando ainda em parceria com as escolas públicas das comunidades onde estão sediados, desenvolvendo um trabalho articulado junto às crianças, adolescentes e seus familiares. “Acreditamos que nenhuma ação isolada é capaz de promover as mudanças necessárias para a busca da Justiça Social”.  

O atendimento nas unidades da Aldeia de Nova Friburgo é direcionado a alunos da rede pública de ensino e membros das comunidades próximas dos núcleos onde a instituição atua na cidade. “Os projetos da Aldeia em andamento beneficiam diretamente famílias de pequenos agricultores rurais, meeiros, operários de fábricas, trabalhadores domésticos, da indústria têxtil, informais e desempregados dos distritos de Conselheiro Paulino e de Campo do Coelho”.

Todas os projetos desenvolvidos pela Aldeia são gratuitos e abertos à comunidade dessas regiões. Os interessados em matricular crianças e adolescentes nas oficinas sócio pedagógicas devem se dirigir a um  dos núcleos para verificar a disponibilidade de vagas para cada atividade. O atendimento é de segunda a sexta-feira, de 9h às 17h. O núcleo de Conselheiro Paulino funciona na Travessa José Ernesto Knust, o telefone para contato é (22) 2580-7696. Já a unidade de Centenário, em Salinas, fica localizada na Rua Rosa Schuenk Toledo, telefone (22) 2543-3571.

O desafio

 A Aldeia da Criança é uma Organização Sem Fins Lucrativos. De acordo com a instituição, a natureza da maior parte dos recursos é de doações, que correspondem a mais de 90% do orçamento anual, frutos de uma mobilização permanente no Brasil e na Alemanha, de onde se originou o projeto.  Em setembro de 2017, a entidade começou a receber uma subvenção municipal junto à Secretaria de Assistência Social, valor que equivale a cerca de 4% do orçamento geral.          

As doações para Aldeia da Criança podem acontecer de diversas formas: através de doação financeira, de material (pedagógico, de papelaria, higiene ou limpeza), de alimentos não perecíveis, de equipamentos de informática, de móveis e utensílios, ou ainda de serviços voluntários. Para se tornar um apoiador ou apadrinhar uma criança ou adolescente que faz parte do projeto, basta entrar em contato com uma das unidades.

50 anos de história

Este ano, a festa na Aldeia da Criança será ainda maior. É que a entidade completa seu Jubileu de Ouro. Fundada em 1968 pelo padre alemão Hermann Josef Wüste, algumas das primeiras casas-lar da Aldeia foram instaladas em Nova Friburgo, na localidade de Centenário e Amparo. Seguindo os moldes existentes no pós-guerra europeu, durante cerca de 40 anos a entidade atuou desta forma, com casais sociais que recebiam grupos de crianças órfãs e outras encaminhadas pela Vara de Infância e Juventude, vivendo com elas nas casas construídas pela instituição, todas no Estado do Rio de Janeiro.

Durante esse período, a entidade já vinha desenvolvendo também ações educativas, culturais e de assistência social,  o que acabou posteriormente definindo as prioridades de intervenção atuais da Aldeia da Criança. Um espaço para ampliação de habilidades, desenvolvimento e melhoria das condições de vida dos atendidos pela instituição, seus familiares e a comunidade em que vivem.

Para celebrar esses 50 anos de história, a instituição tem preparado uma série de atividades. Dentre elas, uma festa. “Estamos organizando, em conjunto com a associação de moradores e produtores rurais de Centenário, a festa de 100 anos do bairro e a de 50 anos da Aldeia, atuante na comunidade desde o início de sua história. Serão dois dias de evento com muitas atividades”, conta Fernanda. A festa vai acontecer na própria unidade, nos dias 19 e 20 de maio.

Depois de anos longe das apresentações, a Aldeia da Criança também participará do tradicional desfile em comemoração ao aniversário de Nova Friburgo, que este ano promete muitas emoções pelo marco do bicentenário.

Amparo

Nesses últimos 10 anos, a Aldeia da Criança manteve sua unidade em Centenário e criou outro espaço em Conselheiro Paulino. O espaço de Amparo porém se mantém sem atividades. Alvo de reclamações de moradores devido ao estado de abandono, de acordo com a gerência da instituição, a unidade deixou de oferecer serviços em 2009, quando a modalidade de abrigo foi encerrada. “Na época, as crianças e adolescentes que ainda estavam na instituição passaram por um processo de reintegração familiar ao lares de origem”, explica a gerente Fernanda Milanez.

Ainda segundo Fernanda, em 2010, a Aldeia foi procurada pela prefeitura para estabelecer um convênio de cessão de espaço para a instalação de uma casa de passagem no local. Tempos depois, o convênio foi encerrado. Em 2011, porém, de acordo com a gerência, a unidade recebeu uma nova solicitação municipal, desta vez, para funcionar como moradia provisória para as famílias desabrigadas na tragédia climática que assolou a cidade.

“Esse processo das casas emprestadas para famílias desabrigadas continua ativo, ou seja, a prefeitura segue responsável pela Aldeia da Criança no núcleo de Amparo. Foi aberto um processo para que a devolução das casas fossem feitas da forma em que estavam, com famílias dentro, mas a Aldeia, por meio do seu advogado, não recebeu essa devolução porque não estava de acordo com o que estava previsto no convênio, que era a devolução das casas livres de pessoas e bens. Por isso, essa questão da Aldeia de Amparo está sendo resolvida judicialmente através de processo”, explica a gerente.

Em nota enviada ao A Voz da Serra, a prefeitura, porém, informou que “não possui ingerência na Aldeia da Criança Alegre”, acrescentando que “Em 2010, foi encerrada a parceria que havia entre o município e a instituição”.

“Temos a possibilidade de uma nova parceria para que a Aldeia de Amparo volte a servir a comunidade local quando a situação for resolvida. Caso isso não se concretize, desejaríamos imensamente que alguma outra instituição tivesse interesse de realizar uma atividade lá. Neste momento, não temos intenção nem equipe suficiente para retornar com os projetos nessa Aldeia”, conclui Fernanda.  

 

LEIA MAIS

Projeto busca dar a crianças a chance de construir laços afetivos e materiais com “padrinhos” e “madrinhas”

Publicidade
Agora Faz