Você quer acabar com suas mentiras?

César Vasconcelos de Souza

Cesar Vasconcellos de Souza

Saúde Mental e Você

O psiquiatra César Vasconcellos assina a coluna Saúde Mental e Você, publicada às quintas, dedicada a apresentar esclarecimentos sobre determinadas questões da saúde psíquica e sua relação no convívio entre outro indivíduos.

quinta-feira, 09 de janeiro de 2020

Muitas técnicas psicológicas e abordagens espirituais ligadas à meditação de tipos variados, podem ajudar-nos a obter melhor compreensão e visão de nós mesmos, de nossos comportamentos. Nem sempre estamos conscientes do que fazemos, porque agimos no automático. Não ver nossas motivações, nossos comportamentos, não pensar no que mais pensamos, pode atrapalhar nosso desempenho mais eficaz, mais útil, mais valioso para a vida. Mas felizmente é possível consertar isso.

Não temos uma visão boa de nós mesmos. Nossa mente é focal. Isto significa que só podemos ver (fisicamente) e perceber (racional e emocionalmente) uma coisa de cada vez. Você está lendo estas palavras e sua visão física está focada nelas. Os objetos que estão ao seu lado direito, esquerdo e à sua frente estão fora de foco agora. Não é possível continuar a ler este texto e ao mesmo tempo olhar com boa nitidez alguma coisa aí ao seu lado. A mente humana é focal, a divina é difusa.

Existem canais de televisão que mostram na tela (monitor) várias informações ao mesmo tempo. Um apresentador anuncia algo, em baixo passam frases com outras notícias, e às vezes no alto da tela, à direita ou esquerda surge um quadrado com mais informação. Que maluquice, não é? Não conseguimos ver tudo ao mesmo tempo. Ou você vê uma informação, ou outra. Excesso de informação pode parecer poder, mas pode não ser. Pode perturbar e criar angústia.

Existe uma pessoa aí em você desconhecida de si. Já escrevi aqui que as pessoas chamadas “normais” são as que vivem no automático. Fazem as coisas do seu dia a dia meio que condicionados. Mas não ter consciência de si tem muito que ver com doenças mentais graves. Uma das características da psicose (loucura), é a negação da doença pela pessoa doente. Requer humildade para reconhecer que não nos conhecemos bem. E requer disposição e também humildade para buscar melhorar o autoconhecimento.

Você pode perguntar, como ocorre mais com pessoas práticas: “De que adianta melhorar meu autoconhecimento? Para que isto serve?” Elas fazem estas perguntas porque sendo, em geral, pessoas ativas e às vezes impulsivas, geralmente inquietas, creem que não precisam mudar nada, não necessitam melhorar o autoconhecimento porque, dizem elas, “já sei o que fazer na vida”.

Já sabem o que fazer na vida. Não é este um argumento perigoso? Fazer é diferente de ser. Fazer não faz necessariamente você crescer no ser. Até pode ocorrer o contrário, porque estar sempre ocupado com alguma atividade, e não permitir momentos de meditação, leitura, reflexão, pode prejudicar o auto-crescimento como pessoa. Crescer, amadurecer como pessoa depende muito de autoconhecimento.

Ao melhorar o conhecimento de nós mesmos, não nos tornamos melhores que os outros. Nos tornamos melhores do que éramos antes. E isto pode ajudar muito nos relacionamentos no casamento, no trabalho, na comunidade religiosa, na família em geral e com amigos. E ajuda muito no relacionamento de você com você mesmo.

Uma amiga, conselheira do Nar-Anon, um dia me disse: “A verdade vai acabando com as minhas mentiras.” Acho que podemos chamar de “mentiras” dois tipos de comportamento nosso: 1 - Mentiras conscientes, que são as que sei que digo ou vivo, e 2 - Mentiras inconscientes, que são aquelas que ainda não as conheço, mas pratico.

A verdade vai acabando com as minhas mentiras. Um grande problema é quando a pessoa não quer a verdade, não se interessa por conhecer melhor a si mesma, foge da verdade. Isto é perigoso porque chega um momento em que o cérebro dela obedece suas ordens de não querer a verdade, e a pessoa mergulha numa cauterização mental com perda importante da autopercepção, o que cria muita tensão nos relacionamentos dela com os outros.

Aquele que não sabe que não sabe, pensa que sabe. A verdade vai acabando com as minhas mentiras. E acabar com mentiras é amadurecer. É dar passos para ser uma pessoa melhor, mais consciente na vida. Pode se tornar mais útil e com um sentido para viver fora da mediocridade materialista. Desejo que em 2020 cultivemos o desejo de querer acabar com nossas mentiras. Todos lucraremos com isso. Inclusive nós mesmos.

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O psiquiatra César Vasconcellos assina a coluna Saúde Mental e Você, publicada às quintas, dedicada a apresentar esclarecimentos sobre determinadas questões da saúde psíquica e sua relação no convívio entre outro indivíduos.

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