Vida maluca?

César Vasconcelos de Souza

Cesar Vasconcellos de Souza

Saúde Mental e Você

O psiquiatra César Vasconcellos assina a coluna Saúde Mental e Você, publicada às quintas, dedicada a apresentar esclarecimentos sobre determinadas questões da saúde psíquica e sua relação no convívio entre outro indivíduos.

quinta-feira, 18 de julho de 2019

É engraçado, para não dizer triste e até irritante, como que as pessoas em geral têm um preconceito contra os chamados “malucos”, que são os que sofrem da doença mental chamada “psicose”. Mas ao dar uma olhada no jeito da sociedade, do mundo político e até empresarial funcionar, não acho outra palavra para descrever, a não ser maluquice.

Qual a ideologia geral sobre o sentido da vida no mundo? Nascer, crescer, estudar, trabalhar, ganhar dinheiro, comprar bens materiais e serviços, desfrutar deles e ... morrer. Ih! É verdade! Vamos morrer! Será que só se pensa neste final trágico ao estar à beira dele? Por não pensar nele preventiva e precocemente se vive a vida “normal”, para mim maluca, com obsessão por comprar, vender, desfrutar..., comprar, vender, desfrutar..., comprar, vender, desfrutar. Não é isto uma vida egocêntrica?

Uma pessoa considerada mais sábia do mundo, o Rei Salomão, vivia esta vida maluca em seu tempo. Chegou a ser trilionário, dono de quase tudo em seu país, teve mil mulheres, foi detentor de uma riqueza material, igual a muitos ricos fazem com a exibição de sua riqueza, o que revela os contornos do coração deles, ou seja, futilidade, orgulho e prepotência.

No terceiro período de sua vida, na parte final, Salomão lembrou que não era um deus, que era finito. Descobriu que o sentido para a vida não era acumular bens, nutrir sua fama, ficar se aproveitando da sexualidade. Caindo do andor da arrogância e vida inútil, conclui dizendo que tudo era vaidade. E escreveu: “É melhor ir a uma casa onde há luto do que ir a uma casa onde há festa, pois onde há luto lembramos que um dia também vamos morrer. E os vivos nunca devem esquecer isso. A tristeza tem mais valor do que o riso, pois a tristeza exerce sobre nós um efeito depurador. Sim, uma pessoa sábia pensa muito na morte; enquanto que o insensato só pensa em gozar bem o presente.” Eclesiastes 7, versos 2 e 3. Puxa! ele entendeu! Entendemos nós?

Vivemos em guerra de ideologias. A prioridade, o que manda afinal é o poder e o interesse econômicos para o benefício de uma minoria de poderosos. Qual é o ponto principal na luta pela reforma da Previdência, só para citar um item político-social atual em nosso país? Afinal, esta reforma é boa ou não para a população? A luta sobre isto tem que ver com o que é bom para o povo ou é uma guerra de partidos, e o povo que se dane?

Veja o gasto militar no mundo. Gasta-se duzentas vezes mais em armamentos do que no combate a fome no mundo. Deve-se promover o desenvolvimento agrícola e melhorar, de forma paliativa a situação nutricional das populações que lutam contra a dificuldade de obter alimentos por causa da baixa produção ou do preço muito caro.

Num excelente artigo com o título “A perda da capacidade de indignação”, publicado na revista “Ser Médico”, do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo, out-dez 2015, o dr. Isac Jorge Filho, fala dessa maluquice sobre os gastos com armamentos. Ele comenta: “... eles [executivos que só têm interesses comerciais] têm o melhor negócio do mundo: fabricam e vendem armamentos que, em última análise, são pagos com o dinheiro do povo para o qual estas armas levam morte e destruição.” Você sabia que cada rifle de assalto custa nove mil dólares, um míssil Tomahawk custa um milhão e 600 mil dólares, e um avião F-35 chega a 160 milhões de dólares? Você pode ver mais sobre isto no site do Instituto Internacional de Estudos para a Paz – Sipri, cuja sede fica em Estocolmo, Suécia – www.sipri.org .

Aí o Brasil (leia-se prefeituras, governos estaduais e poderes federais) gasta uma fortuna com preços superfaturados e constrói um monte de “arenas” (para guerra?) de futebol no país, e fecha escolas e hospitais públicos. Cito novamente o colega Isac: “A filosofia do ‘complexo industrial-militar’ é claramente traduzida na ideia ‘fantástica’ da ‘bomba limpa’. E o que vem a ser isto? Nada mais, nada menos, que uma bomba que mata pessoas, mas não destrói casas, propriedades e objetos. Pronto, está aí a definição de objetivos dos que comandam o mundo: as propriedades e os bens materiais valem muito mais que as pessoas, que a vida. ... o poder no mundo decorre do dinheiro, que vem, principalmente, dos negócios.”

Você não acha este tipo de vida materialista, cheia de corrupção, a pior maluquice? Só deixar bens materiais ao você morrer será o principal para sua vida ter tido sentido? Quem você pode ajudar hoje sem ser movido por interesse econômico?

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