Setembro Amarelo - Prevenção do Suicídio - Parte 2

César Vasconcelos de Souza

Cesar Vasconcellos de Souza

Saúde Mental e Você

O psiquiatra César Vasconcellos assina a coluna Saúde Mental e Você, publicada às quintas, dedicada a apresentar esclarecimentos sobre determinadas questões da saúde psíquica e sua relação no convívio entre outro indivíduos.

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

O suicídio é uma tragédia. A pessoa suicida não quer morrer. Ela pensa no suicídio como uma forma de acabar com um sofrimento que para ela chegou num ponto insuportável. Uma pessoa se mata à cada 40 segundos no mundo.

As principais causas que levam ao suicídio são a depressão, o uso de drogas como o álcool e outras drogas, certos casos de esquizofrenia, entre outras. A depressão pode ser leve, moderada e grave. Na depressão grave a pessoa pode ter ideias suicidas. Mas existe uma diferença entre ter pensamentos de morte e ter ideias suicidas. 

Uma pessoa com sofrimento importante, seja uma doença terminal ou crônica, dor crônica, depressão grave, pode pensar em morte querendo que “Deus a leve”, mas não pensar em se matar. Isto difere de indivíduos que pensam mesmo em dar fim à sua vida.

Alguns pensam em se matar como uma forma de “matar” alguém de remorso. Outras atentam contra a própria vida por querer dar um fim a um longo tempo de serem vítimas de abusos. Outras ainda se matam por vergonha de uma besteira que fizeram e que produz grande repercussão. Indivíduos impulsivos, sob o efeito de álcool ou outras drogas, ou mesmo sem ter drogas na cabeça, mas tendo transtorno de personalidade, descontrole emocional, matam familiares e se suicidam. 

Um passo muito significativo para a prevenção do suicídio tem que ver com formar vínculos afetivos fortes na família desde a infância. Isto quer dizer que os pais precisam criar um ambiente familiar com diálogo, carinho, limites sem agressão e sem rigidez, mantendo os filhos sob vigilância e proteção, limitando o que eles assistem na TV, em celulares, na internet e em vídeos, mantendo a autoridade de pai e mãe sem ditadura. 

Isto cria na criança uma sensação de pertencer, de ser importante na vida, de ter valor, de que se importam com ela. Crianças criadas em lares assim têm melhor proteção contra sintomas depressivos, têm menos envolvimento com álcool e drogas e, por isso, apresentam menos risco de desenvolverem ideias suicidas.

Outro fator que previne o surgimento de ideias de morte está ligado à visão da vida, tanto no sentido de não cair no consumismo e nutrir inveja dos outros por causa de bens materiais, como também no sentido de entender que nesta existência é normal ter dor emocional, ter tristeza, ter angústia, ter medo. É importante ensinar para as crianças, seja em casa, na escola ou na comunidade religiosa, que a pessoa forte não é aquela que não tem medo, não tem ansiedade e tristeza. A pessoa forte mentalmente é aquela que aprende a lidar com estes momentos difíceis de forma construtiva, sem fazer besteira, sem se drogar com álcool ou outras substâncias, comida, compras, sexo, etc.

Para a filosofia pós-moderna o mais importante é você se sentir bem, não importando o que você faz. Isto é perigoso. Não é normal só sentir coisas boas. Quando sentimos algo bom, isso, infelizmente, passa. Mas quando sentimos algo degradável, isso também passa. 

Esta filosofia afeta até a prática médica porque as pessoas querem se sentir somente alegres e animadas o tempo todo e como isto não é a realidade, elas buscam tratamento médico e muitas vezes saem do consultório com medicamentos psiquiátricos que produzem efeitos colaterais e dependência, ao invés de aprenderem a lidar com a dor.

Pessoas com ideias suicidas podem ser ajudadas a pensar que a dor vai passar, que o sentimento desagradável não permanecerá o tempo todo. Elas podem ser auxiliadas a terem paciência com elas mesmas e também aprender a aceitar que uma perda sofrida sem volta não significa que a dor ficará o tempo todo. Nosso cérebro tem capacidade de produzir substâncias chamadas “endógenas” como a endorfina, que aliviam a dor. 

A dor mental que leva à ideia suicida pode mudar, mesmo que naquele momento a pessoa suicida não veja como. Algumas coisas na vida podem ser modificadas para melhor. Ou, na pior das hipóteses, a pessoa pode sair do buraco emocional ao atravessar o deserto, ajudada pela família, talvez por um profissional, e encontrar de novo razões para continuar viva.

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