O que é bom, passa

César Vasconcelos de Souza

Cesar Vasconcellos de Souza

Saúde Mental e Você

O psiquiatra César Vasconcellos assina a coluna Saúde Mental e Você, publicada às quintas, dedicada a apresentar esclarecimentos sobre determinadas questões da saúde psíquica e sua relação no convívio entre outro indivíduos.

quinta-feira, 05 de dezembro de 2019

Mas o que é ruim, também passa. Esta é uma verdade da experiência da vida, de que o que vivemos, o que sentimos e que é bom, agradável, leve, passa, vai embora, some. Mas o que é ruim, também passa. O mal não vai ficar para sempre, embora olhando para a sociedade parece que sim.

Em muitas pessoas é desenvolvido um tipo de comportamento impaciente, que na hora em que o que é bom passa, elas se sentem apavoradas, nervosas, irritadas e até agressivas. Por que? Qual a causa de tanta gente ser e estar impaciente diante da perda do que era bom, do que sentia de agradável? Não tem uma resposta simples para isso.

Uma das fontes da impaciência ou intolerância é a influência genética. Quando você estava no útero de sua mãe, se ela e seu pai eram pessoas impacientes, irritadiças, você foi afetado de alguma forma. Seu desenvolvimento embrionário sofreu alterações. Os pais transmitem aos filhos suas características não só físicas, mas também temperamentais.

Mas genética não é tudo. Neurocientistas verificaram que entre 60% e 70% de nosso temperamento (calmo, explosivo, racional demais, emocional demais) é genético. O resto é aprendido. Aprendido como, onde? Durante os primeiros anos da infância. As crianças aprendem com seus pais, ou com quem cuidou delas, a se comportar dessa ou daquela forma. Elas copiam palavras, maneira de falar, reações, visão da vida com os pais.

Então, influencia em nossa maneira de lidar com o que é bom e com o que é ruim no que experimentamos dia a dia na vida, a genética, o aprendizado do modelo do comportamento de nossos pais, mas também a cultura, a presença ou ausência de prática religiosa, outros hábitos de estilo de vida, como o tipo de alimentação, prática ou não de exercícios físicos, uso ou não de substâncias tóxicas como o tabaco, o álcool etc. O que comemos e o que fazemos com nosso corpo influi no funcionamento de nosso cérebro.

A cultura influi na maneira como lidamos com a experiência pessoal interna, intrapsíquica, do que é bom e do que é ruim. No mundo ocidental há uma super, mega valorização quanto ao status econômico do indivíduo. A noção de felicidade e sucesso é obscenamente ou exageradamente centrada no que você possui de bens materiais. Acho isso mediocridade. O valor do caráter deveria ser o fator mais exaltado nas mídias sociais, incluindo rádio, TV, revista, jornal. Creio que a beleza da pessoa está na dependência da pureza do seu caráter. O resto é o resto.

Um poderoso e multimilionário traficante de drogas (poderia ser um empresário convencional), com o rosto coberto foi entrevistado por um jornalista e comentou que a droga deu a ele barcos, mansões, viagens, carros importados, helicópteros e aviões. Mas, num talvez raro momento de lucidez e coerência de sua mente naquela entrevista (e talvez na vida), sabe o que ele respondeu ao jornalista quando perguntou a ele o que a droga não lhe havia dado? Ele disse: “A droga não me deu a paz.” O que é bom, passava na vida daquele riquíssimo sujeito. E a falta de paz permanecia.

Parece que as pessoas estão ficando mais impacientes, irritadas, egocêntricas, e, o pior, violentas. Um grupo de torcedores de futebol antes da partida estão contentes, alegres, rezam para seu time ganhar, e ao final podem se tornar um bando de agressores. Moro numa casa na qual preciso sair com meu carro da garagem para uma rua com bom movimento de veículos. Com frequência preciso esperar uns bons minutos até que não venha carro, ou que algum motorista mais gentil me permita sair do portão. Impaciência.

Saúde mental tem muito que ver com o aprendizado da paciência. É o que chamamos de autocontrole emocional. Isto não é adquirido com medicação. É um treinamento mental. É uma psicoeducação. Você aprende fazendo, exercitando aquele comportamento que entendeu que é melhor, é mais saudável, é de cortesia e gentileza. Você muda quando você muda o jeito pior de ser e fazer. E isto não depende de esperar sentir algo bom, agradável, feliz, porque o que é bom, passa, mas o que é ruim também passa. Faça o bom e o bem independente do que você sente. E nos momentos ruins, exercite paciência. Vai passar também. 

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O psiquiatra César Vasconcellos assina a coluna Saúde Mental e Você, publicada às quintas, dedicada a apresentar esclarecimentos sobre determinadas questões da saúde psíquica e sua relação no convívio entre outro indivíduos.

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