Lá vem você de novo!

César Vasconcelos de Souza

Cesar Vasconcellos de Souza

Saúde Mental e Você

O psiquiatra César Vasconcellos assina a coluna Saúde Mental e Você, publicada às quintas, dedicada a apresentar esclarecimentos sobre determinadas questões da saúde psíquica e sua relação no convívio entre outro indivíduos.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Aaron Beck, professor de Psiquiatria da Universidade da Pensilvânia, desenvolveu a Terapia Cognitiva-Comportamental – TCC. Em sua teoria, se as pessoas mantêm pensamentos distorcidos (torcem a interpretação da realidade), se cultivam crenças psicológicas doentias (“Não tenho valor”, “Ninguém me ama”, “Não sei fazer nada.”, etc.), e se insistem em pensamentos automáticos (sempre tendo os mesmos pensamentos, sem analisar se eles têm fundamento, se são razoáveis, se têm base na verdade), elas podem desenvolver transtornos mentais como a depressão, além de outros sofrimentos.

Nossa mente funciona com pensamentos, sentimentos e escolhas. Você pensa, sente e age. Pensamentos e sentimentos podem funcionar mal e necessitarem de reparo. Muitos de nós temos pensamentos distorcidos que produzem sofrimento. Exemplo: você cruzou por uma pessoa conhecida na calçada e ela não o cumprimentou por estar distraída. Naquele momento pode ter surgido em sua mente um pensamento: “Ela me evitou!”. Ao verificar o que ocorreu, descobre que ela estava mesmo distraída e não te viu.

Então, quando surgiu o pensamento “Ela me evitou!”, isto pode ter produzido em seguida um sentimento que pode ter sido de raiva, tristeza, vergonha, ou outro. Isto porque o que vem depois do que pensamos é o sentimento. Por isso, Dr. Beck verificou que muitas pessoas deprimidas podem melhorar quando começam a perceber que muitos de seus pensamentos podem estar distorcidos, e por isso gerando sentimentos dolorosos.

Uma pessoa pode, então, se deprimir ao manter pensamentos de desesperança, de ser rejeitado, mesmo tendo motivos para ter esperança e mesmo existindo pessoas que as aceitam. Já reparou que deprimidos em geral têm pensamentos como: “Sou um peso para os outros!”, “Minha vida não tem sentido!”. Insistindo em cultivar pensamentos distorcidos, pessimistas, derrotistas, irritadiços, de queixas, o resultado inevitável será ter sentimentos desagradáveis, porque os sentimentos seguem os pensamentos.

Quando vier em sua mente um pensamento assustador, triste, que o deixa nervoso, pare e pense: “Lá vem você de novo!” Este “você” é seu pensamento desagradável. Preste atenção e entenda que você pode olhar para tais pensamentos ruins como espectador deles. Você observa a si mesmo. É preciso fazer isso para aprender a manejar, controlar pensamentos ruins para que eles não o levem a um estado de sofrimento mental.

Muita gente não faz isto e quer que algum remédio psiquiátrico o faça se sentir bem. Mas lembre-se: pensamentos produzem sentimentos. Então, você precisa aprender a lidar com seus pensamentos desagradáveis usando o lado saudável de sua mente. Ao conseguir isto, seus sentimentos dolorosos irão diminuir, porque você não mais será levado pelos pensamentos distorcidos ou desagradáveis que brotam em sua mente.

Nem sempre conseguimos evitar que pensamentos ruins venham à nossa consciência. Mas podemos evitar, com esforço e determinação, que eles continuem nos perturbando. Como? Primeiro observando  o “Lá vem ele de novo!”. Pense no pensamento que você está tendo. Exemplo: vamos supor que em certo momento lhe invada a mente um pensamento assim: “Nunca vou me dar bem nos relacionamentos com as pessoas!”. Você pode ter cultivado isto desde a meninice, talvez porque seu pai, ou mãe, ou ambos, viviam criticando você, dizendo que você era uma criança complicada e que ninguém iria gostar de você. Ou começou a se atacar e se depreciar só porque falhou em algum relacionamento e agora acha que vai falhar em todos.

Então, perceba o pensamento ruim vindo em sua mente. Diga para si: “Olha só! Lá vem aquele pensamento que fica me dizendo que nunca vou me dar bem com as pessoas!”. Pense e diga para si: “Mas isto é um pensamento. Não tem que ser uma realidade. Não vou deixar que este pensamento fique aqui me perturbando.” Em seguida você se esforça para pensar em outra coisa. Por exemplo, pense em uma amizade que deu certo. Assim, ao invés de ser vítima de seus pensamentos ruins, você os dominará com o tempo e com este treinamento. Nenhum comprimido e nenhuma pessoa fará isto por você. É você mesmo. Treinando isto, talvez você poderá se libertar de medicamentos psiquiátricos que toma porque se sente emocionalmente mal. Relembrando: sentimentos ruins surgem de pensamentos ruins. É o que Aaron Beck descreveu em sua teoria.

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O psiquiatra César Vasconcellos assina a coluna Saúde Mental e Você, publicada às quintas, dedicada a apresentar esclarecimentos sobre determinadas questões da saúde psíquica e sua relação no convívio entre outro indivíduos.

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