Casei com alguém bem diferente de mim! E agora?

César Vasconcelos de Souza

Cesar Vasconcellos de Souza

Saúde Mental e Você

O psiquiatra César Vasconcellos assina a coluna Saúde Mental e Você, publicada às quintas, dedicada a apresentar esclarecimentos sobre determinadas questões da saúde psíquica e sua relação no convívio entre outro indivíduos.

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Parece engraçado (só parece!) que quando ele e ela estão namorando e ficam noivos, a sensação é que tudo se encaixa entre eles. Depois, quando começam a vida à dois numa mesma casa, e os dias de convivência vão avançando, as diferenças que já existiam, começam a ficar evidentes e podem causar desconforto. Por que não vimos antes? O que fazer quando as diferenças na vida do casal começam a perturbar?

Um membro do casal abre boletos das contas de casa com cuidado, tirando as beiradas picotadas. O outro abre os mesmos rasgando-os e deixando as bordas picotadas agora irregulares. O picote não serviu para nada. Um termina a refeição e, sem empregada em casa, leva a louça e talheres que usou para a pia e os lava. O outro deixa pratos, talheres, copo, guardanapo usados na mesa, ou coloca na pia e não lava. Quem vai lavar?

Acabou o detergente no reservatório na pia da cozinha e um logo preenche com um novo que estava no armário, enquanto que o outro pega o frasco novo de detergente e começa a usá-lo sem repor o reservatório, deixando o frasco ficar duas semanas na pia, ao lado do reservatório vazio. Ao sair de um cômodo de noite, sabendo que não vai voltar logo a ele, um desliga a luz, enquanto que o outro deixa tudo acesso. Um costuma colocar as chaves do carro sempre no mesmo local em casa, assim, sempre as encontra. O outro um dia as coloca na mesa da sala, noutro dia na cômoda do quarto, no dia seguinte na estante, e quando não as encontra, grita como se o outro fosse surdo e empregado: “Onde estão as chaves do meu carro? Você não vê que vou chegar atrasado(a)?” Não parece uma pessoa espaçosa, narcisista, que quer que todos estejam à seu dispor?

Um coloca sua faca na pia para lavar sem a sobra de manteiga nela, já que tirou o excesso com o guardanapo que usou no lanche. O outro coloca na pia a faca que individualmente usou estando cheia de manteiga, requeijão ou outro alimento que vai para a esponja de lavar. Este um, ao colocar a faca lambuzada na pia, ao mesmo tempo joga fora o guardanapo de papel que usou, sem aproveitá-lo para tirar o excesso de alimento da faca.

Um leva o prato que usou no almoço para a pia com o resto de comida raspado na lixeira, assim, não fica aquela sobra de grãos de arroz, caroços de feijão etc dentro do prato o que contribui para entupir o encanamento. O outro leva para a pia o prato onde tomou sua refeição (quando não o esquece na mesa), cheio de restos de alimentos que vai se misturar com a esponja, e ser forçado a descer pelo esgoto.

Um tem uma escova de dente em uso no armarinho em cima da pia, e uma de reserva na gavetinha do armário do banheiro, mantendo só um tubo de pasta de dente aberto e outro novo fechado na mesma gaveta. O outro tem uma escova de dente em uso no armarinho em cima da pia do banheiro, tem outra também em uso na segunda gaveta, uma outra na terceira gaveta do lado direito e uma quarta escova em uso na primeira gaveta do lado esquerdo da pia, e usa um tubo de pasta de dente que fica no armarinho em cima da pia, noutro dia usa a pasta de dente de outro tubo que fica na gaveta da direita, sendo que às vezes pega o dentifrício em um terceiro tubo aberto que fica ao lado da torneira na pia porque esquece de colocar no armário. E o esquece destampado.

Um quer sexo à cada dois dias, e o outro quer uma vez à cada quinze dias. Um gosta de música clássica e o outro de rock pauleira. Um não para de falar, enquanto que o outro gosta de pensar e gosta do silêncio. Um quer gente em casa todo fim de semana porque gosta de visibilidade, e o outro prefere ficar com os membros da família e sem muita gente de fora em volta. Um adora praia, e o outro montanha. Um quer muitos filhos, o outro talvez nenhum. Um deseja ter vários animais de estimação, e o outro prefere cuidar de plantas. Um é bem racional, e o outro é muito emocional. Um é apegado de mais aos parentes da família de origem, e o outro raramente se encontra com os seus.

Harville Hendrix num bom livro, “Mais amor em sua vida”, e a escritora Ellen G. White, em vários livros dela, explicam que pode ser motivo de crescimento pessoal, a união de duas pessoas com temperamentos e características diferentes. Um pode aprender com o outro. Se um é mais relaxado, desatento, impulsivo, pode aprender com o que é mais organizado, atento e controlado, e vice-versa. O desafio, segundo estes autores, é aceitar as diferenças, sem querer mudar o outro, porque não mudamos ninguém. É também ser honesto consigo e admitir que há falhas pessoais de caráter e necessidades de ajustes no jeito de ser (ou a pessoa se sente perfeita?). E é importante decidir fazer algo para melhorar seu jeito de ser ao invés de ficar na zona de conforto sem mudar nada em si.

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