Mar de lama

Paula Farsoun

Com a palavra...

Paula é uma jovem friburguense, advogada, escritora e apaixonada desde sempre pela arte de escrever e o mundo dos livros. Ama família, flores e café e tem um olhar otimista voltado para o ser humano e suas relações, prerrogativas e experiências.

sexta-feira, 01 de fevereiro de 2019

Foi então, que mais uma vez, um verão caloroso cedeu espaço para a lama. Mais um janeiro em que o mar não foi só o mar, ganhando uma conotação marrom devastadora. Dessa vez, os corações do Brasil e dos brasileiros voltaram-se novamente para Minas Gerais. Sem aviso prévio, da noite para o dia, fomos todos parar em Brumadinho. Foi uma viagem chocante e triste. Um reencontro com a vulnerabilidade, a efemeridade da vida e a humanidade. Sentimentos extremos ganham força. Indignação e solidariedade. Revolta e compaixão.    

Eu não sei se acontece com todos, mas a imagem de um “rio de lama”, a sensação de um tsunami marrom devastador, provoca em mim sensações muito peculiares de quem já viveu o trauma da avalanche de destruição aliado ao descaso humano com a natureza drásticas consequências humanas, ambientais, sociais, econômica e de diversas outras ordens. E assim, me "teletransporto" para cada imagem, para cada lágrima que vejo escorrer das vítimas, parentes e amigos que estão vivenciando a tragédia em Minas Gerais.

Dói ainda mais, nesse caso em específico, a plena consciência que a atuação e a omissão promovidas pela ganância, lucro e irresponsabilidade criaram um caos antinatural que pôs em risco a vida de tantas pessoas, que descartou os danos à flora e à fauna, que destruiu além de famílias, lares, referências, memórias, também nascentes, rios, árvores e milhares de animais.  Tudo virou lama. Pais, mães, filhos, amigos, colegas, trabalho, esperança, ar, lar. Tudo virou lama. Árvores, pássaros, peixes. Telhas, carros, casas, brinquedos, álbuns de fotografia. Tudo lama. Paisagem? Lama. A ganância teve esse poder. Tanto e tanto que tudo se transformou.

Dói muito, realmente, supor que a tragédia poderia ter sido evitada. Ou melhor, deveria. Em que ponto nós perdemos enquanto sociedade organizada para subestimar os riscos de danos a terceiros, para desrespeitar o meio ambiente dessa forma e simplesmente, não assimilar os conceitos básicos de responsabilidade? Uma área administrativa e um refeitório foi construída nos pés de uma gigantesca barragem de rejeitos de minério de ferro instável e insegura, prestes a se romper a qualquer momento e ceifar a tudo e todos em fração de segundos.

Muito se tem falado da catástrofe ocorrida em Mariana como um presságio de mais tragédia e destruição. Quais foram as punições advindas daquele episódio fatídico? Quais as respostas as famílias receberam? O que foi feito na tentativa de recuperar a saúde ambiental daquela localidade? O que se sabe sobre a responsabilização civil, penal e administrativa dos culpados pelo caos? Quais as providências tomadas para proteger as pessoas e evitar novos acidentes/crimes/tragédias? São perguntas sem respostas que estão assombrando e dilacerando ainda mais as pessoas com esse episódio lamentável na história do Brasil.

Estamos nos tornando a típica nação sem alma, em que os interesses econômicos se sobrepõem a tudo mais, em que a impunidade faz morada e que os cidadãos não se sentem protegidos, respeitados e não confiam nas instituições? Não há como mandar a conta dessa tragédia para o ser Supremo. Nem para a "mãe natureza". O que está fora de ordem, fora de lugar foi o homem quem criou. Quem não cuidou. Não foi uma onda desavisada, um abalo císmico, um evento da natureza, uma força maior, intransponível à capacidade humana. Não. Dessa vez, não dá. Que a compaixão e a solidariedade unam-se à inquestionável força de superação do brasileiro, que o amor se multiplique e se espalhe ao ponto de acalentar tantos corações dilacerados e enterrados no mar de lama. E que a justiça seja feita.

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Paula é uma jovem friburguense, advogada, escritora e apaixonada desde sempre pela arte de escrever e o mundo dos livros. Ama família, flores e café e tem um olhar otimista voltado para o ser humano e suas relações, prerrogativas e experiências.

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