Mais coração

Paula Farsoun

Com a palavra...

Paula é uma jovem friburguense, advogada, escritora e apaixonada desde sempre pela arte de escrever e o mundo dos livros. Ama família, flores e café e tem um olhar otimista voltado para o ser humano e suas relações, prerrogativas e experiências.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Adianta ser correto se a maioria das pessoas teima em adotar o “jeitinho” como atalho para alcançar as mesmas coisas? Adianta ser sensível em um mundo onde tanta gente se afasta cada vez mais do que há de mais humano nas relações? Adianta manter o tom de voz calmo quando o ambiente grita ao seu redor? Adianta. E se ninguém mais cumpre a lei, serei eu sua única cumpridora? Serei. Quando todos falarem mal do amor, permanecerei sendo sua fiel defensora? Sempre.

Acredito que se existirem noventa e nove pessoas minadas pelas tristezas diárias do mundo, viciadas na tragédia humana, impregnadas por esse medo que nos consome enquanto sociedade e uma, apenas uma, pessoa imbuída pelo espírito de transformação, otimismo e esperança, apesar de todos os pesares, essa terá o poder de transformar a atmosfera do ambiente em algo menos carregado. Talvez o ar fique menos difícil de respirar.

Pessoas que conseguem insistir em focar na luz são sobreviventes emocionais quando tudo mais é tóxico. Tem sido mais fácil saturar a energia dos outros do que ser bateria de renovação. De fato, está puxado, como se diz. O sofrimento coletivo toma um rumo que não sabemos controlar. E então, na linha das indagações que refleti acima, mais uma vez eu pergunto: se mais pessoas fossem corretas, humanas, sensíveis, cumpridoras das leis, estaríamos vivendo momentos de tanta dor pela negligência, insensibilidade, desumanidade e ilegalidade? Creio que não. Digo e repito, essa conta não é do “cara lá de cima”. Nosso livre arbítrio pode detonar uma bomba atômica ou salvar o mundo. Em que frequência vamos vibrar enquanto seres gregários que somos? O que estamos fazendo enquanto Humanidade? Quanto de amor estamos oferecendo a esse planeta e a todas as criaturas que nele habitam? Quando foi que inventaram que são permitidas vidas humanas nesse joguete barato de omissões? A barragem se rompe. O centro de treinamento pega fogo. O helicóptero cai. O morro acobertado de construções desaba. Pessoas morrem. Famílias choram. Sociedade se choca. E aí? Mais omissões? Mais impunidade? Esse é um texto  sem respostas. As perguntas por si só merecem uma vida inteira de análise e mudanças para que a evolução seja verdadeira e para o bem.

O problema é estrutural, está na base da pirâmide evolutiva dos homens? É falta de educação? Materialismo? Egoísmo? Falta de responsabilidade, de informação? É a impunidade? O desespero? O despreparo? Ou é falta de amor – amor de verdade ? Tudo isso e muito mais? Não sei. Mas enquanto existir aqueles que infelizmente são a minoria, os diferentes que querem fazer o certo, que inadmitem trapaças, remendos. Que não aceitam brincar com a vida alheia, com a segurança dos outros. Que priorizam a dignidade de todos os seres. Que não sabotam. Não negligenciam. Que entendem que caixotes de aço não são lugares adequados para jovens trabalhadores e sonhadores dormirem. Que inadmitiriam, ainda que na mais remota e terrível hipótese, considerar que suas ações – ou omissões, pusessem em risco as vidas dos outros.  Não se brinca com a vida de ninguém. Não há nada mais sério que o respeito ao direito à vida. Não somos um jogo de xadrez, videogame, dama. Não há reposição de peças. Não dá para uma pessoa mimada bagunçar o tabuleiro quando estiver perdendo e começar a brincadeira de novo.

Estamos falando de vidas. De famílias. De amigos. Não somos números em estatísticas. Não fomos gerados e concebidos para que a irresponsabilidade e a ganância de terceiros contribuíssem para ceifar nossa existência de forma impiedosa. Não podemos nos tornar seres abomináveis que não zelam por nada além de nós mesmos. A poderosa força daqueles que resistem à base do amor e respeito deve ganhar a envergadura de que precisamos para melhorarmos enquanto Humanidade. Os diferentes que teimam em investir sua vida nesse tal sentimento chamado amor, precisam se unir e exalar esse potencial transformador. Precisamos dar uma guinada. Estamos ficando sobrecarregados. Creio que precisamos, na verdade, de menos umbigo e mais coração.

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Paula Farsoun

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Paula é uma jovem friburguense, advogada, escritora e apaixonada desde sempre pela arte de escrever e o mundo dos livros. Ama família, flores e café e tem um olhar otimista voltado para o ser humano e suas relações, prerrogativas e experiências.

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